10/04/2010
Ano 13 - Número 679

ARQUIVO SIMÕES


Francisco Simões
em Expressão Poética


 

          

Francisco Simões
 


AS NOITES DE GLÓRIA

Ela se mudara para um bonito bangalô que ficava do outro lado da avenida em que ele também morava. Ela tinha 15 anos e vivia com os pais e um irmão menor. 

A avenida era larga e havia um valão de cada lado. Começo dos anos cinqüenta, outros tempos. O jovem que morava num casarão do lado oposto da avenida já havia percebido a presença da moça. O nome dela era Glória.

Ambos estudavam pela manhã e à tardinha costumavam trocar alguns olhares na distância que os separava. No começo foram apenas olhares discretos e fugidios. Ela se mostrava tímida e recatada. Ele, mesmo aos quinze anos, já era mais experiente, mais vivido. Já tivera experiências outras além dos rápidos namoricos.

Em certa tarde a distância se encolheu quando ambos, tomados de uma vontade de aproximação que não puderam nem quiseram controlar, acabaram acenando um ao outro. Foram rápidos acenos de mão que logo encorajaram alguns sorrisos. Eles já não mais se sentiam tão distantes. Faltava atravessar a avenida Tito Franco.

No começo da noite, em certo dia da primavera, ele ousou aventurar-se. Sabia que a liberação para estar fora de casa ia, no máximo, até às 21 horas. Era o limite estabelecido por certas famílias naqueles tempos. Incluídos seus filhos homens. Já eram 19 horas. Quando atravessava o primeiro valão, ele percebeu que Glorinha já estava de pé, encostada à porta da varanda externa.

Ela usava uma saia estampada, godê. Quando ele se aproximava Glória o recepcionou com um sorriso mais largo. Seu rosto exibia algumas poucas espinhas tão próprias da idade. Ela fixou seu olhar no dele e logo estavam se cumprimentando num abraço que fez o jovem sentir o delicioso contato dos seios rígidos de Glorinha pela primeira vez. As pernas de Titó tremeram.

Além da simpatia que já nutria por aquela jovem, ele sentiu reacender-se um sentimento que tanto desfrutava com Ana, quase diariamente, uma empregada morena e muito bonita da casa de seus pais que dedicava a ele uma atenção que ultrapassava os limites do fato de ser filho dos seus patrões.

Ana era um pouco mais velha que o jovem, porém demonstrava gostar muito dele e não hesitava em ceder aos seus anseios de carinho e de desejo. Muitos foram seus encontros às escondidas, de dia e à noite. Glorinha, por seu lado, parecia conseguir, já no primeiro encontro, degelar qualquer frieza que devesse manter em nome do seu recato de jovem virgem. Enfim aconteceu o primeiro beijo.

Claro que fora apenas um beijo leve, tenro, nada cinematográfico. Às 21 horas em ponto a madrinha do rapaz, a que mais o controlava, já acenava da janela da sala para que retornasse a casa. Eles se despediram discretamente com a promessa de que na noite seguinte se reveriam. A mãe da moça também surgira na porta da sala e nem precisou dizer nada a Glorinha. Era assim naqueles bons tempos.

Muitos outros encontros aconteceram, inclusive para irem ao cinema, ou simplesmente visitarem parques, ou andarem de mãos dadas a passear, hábito que hoje a maioria dos namorados não usa mais.   

Naqueles tempos ninguém “ficava”. Nem havia essa possibilidade. O saboroso era o encanto do amor jovem, as juras que nem sempre chegavam a ser cumpridas, mas eram sempre feitas de coração, e os nossos sonhos. Como sabíamos sonhar.

Os encontros noturnos na porta da casa de Glorinha, sem uma vigilância explícita ou opressora, e com a cumplicidade da sombra de uma mangueira, em noites de luar, propiciavam carinhos que com o maior tempo de conhecimento eram liberados de ambas as partes. Carinhos um pouco mais “avançados”, beijos mais ardentes e apaixonados.

Tudo tinha um sabor que fica difícil de explicar pela ansiedade que acelerava os corações, tanto pelo amor quanto pelo receio da descoberta materna. Os desejos afloravam, evidentemente, e iam se tornando permissivos, porém sem ultrapassar limites que ambos sabiam que deveriam respeitar.

Eles namoraram por algum tempo, nunca prometeram um ao outro mais do que sabiam seria possível realizar em plena flor da juventude. Ele ensaiou alguns versos, ainda primários, e ofertou a sua amada Glorinha. Certamente ela se sentiu feliz por ser a musa de seu primeiro namorado. Ela tinha só 15 anos e os tempos eram outros, outros bem diferentes de agora.

Hoje, pelo que vejo, devem considerar o amor de outrora uma tolice, uma “perda de tempo”. Pois é, mas tempo era uma das coisas que mais sabíamos valorizar.

É este mesmo tempo que hoje me ajuda a viver com muitas recordações, com saudades tantas, com histórias para reviver nas lembranças e poder contar. O passado que retorna em imagens tão vivas em nossa mente e que afoga num sorriso algumas das mágoas do presente.

Aqui eu me lembrei do que me escrevera, no ano de 2005, meu bom amigo e excelente poeta paraense, meu conterrâneo, amigo de infância, o Alberto Cohen. Conversávamos sobre nossos destinos cruzados e ele, a certa altura, escreveu:

“Sabe o que estive pensando? O que pode iluminar a escuridão destes tempos? As lembranças. Nada nos pode tirá-las, pois as vivemos. Como deixar de sorrir ao lembrar a mocinha ensinando-me a dançar o bolero, dois pra lá, dois pra cá? E o primeiro beijo, enternecendo-me toda vez que o recordo?”

“Vivemos em mundos paralelos: o de hoje, em que assistimos, estáticos, ao caos, e o de ontem, quando sonhávamos, sonhávamos e sonhávamos. O sonho acabou? Não, ele apenas está guardado e retorna todas as vezes em que precisamos de um sorriso.”

O poeta disse tudo e me ajudou a fechar com chave de ouro este texto.

 
(10 de abril/2010)
CooJornal no 679


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
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