24/04/2010
Ano 13 - Número 681

ARQUIVO SIMÕES


Francisco Simões
em Expressão Poética


 

          

Francisco Simões
 


“AMIGO É PARA ESSAS COISAS”


 

Francisco Simões, colunista - CooJornal

Quando escrevo crônicas eu uso ora a crítica, ora a análise, ora o sofrimento, ora o humor, ora o amor, ora a memória, trazendo histórias do passado, etc. Hoje, porém, quem vai escrever este texto junto comigo vai ser... o coração.

O coração interpretando um amor fraterno, entre amigos, entre pessoas que se conhecem, se respeitam, que usam a estima, a simpatia, a lealdade, sempre. Pessoas que se fazem presentes nos momentos de dor e sabem compartilhar nossas alegrias dividindo conosco também sua felicidade. Afinal, amigo é para essas coisas, disse um poeta.

No caso, minha mensagem vai direto a um só amigo. Felizmente tenho vários, porém hoje ele é o alvo exclusivo das minhas melhores atenções. Nós nos conhecemos creio que no ano de 1967. Eu já estava lá quando ele chegou. Era o Departamento de Treinamento de Pessoal do BB que ainda se estruturava.

Como vêem é uma amizade que ultrapassa os quarenta anos. Estamos ambos no time dos muitos, e bem vividos anos. O destino não apenas nos aproximou como foi pródigo em nos proporcionar muitas alegrias, tanto no relacionamento em nosso trabalho, ministrando aulas, coordenando cursos pelo Brasil afora, quanto entre nossas famílias. Nossas esposas tornaram-se amigas para sempre, e para sempre mesmo. Aquele sentimento que nos segue pela eternidade.

Seu jeito de quem está sempre disposto a ouvir, a ajudar, a aconselhar, que alguns chamariam de um “paizão”, o tornava, e o faz até hoje, aquele amigo a quem recorremos quando algo nos sai mal, algo nos atormenta. Não bastasse ele já trazer este socorro amigo permanente como que no seu DNA, ainda por cima estudou psicologia. Nem precisava.

Ele se fez constantemente presente na fase mais difícil da minha vida que durou alguns anos, começando em janeiro/2002. Ele telefonava para saber notícias, mas também levou com sua presença e a de sua igualmente, hoje, saudosa esposa, o apoio, uma força cheia de fé e de esperança, tanto para mim quanto para aquela que fora minha companheira por quase 40 anos de vida conjugal.

Este é o amigo, o que não pergunta se precisamos de ajuda, pois a carrega consigo naquele coração imenso, permanentemente. Ele não se prende a detalhes que, sobre outro foco, podem afastar eventual e injustamente algumas amizades. Este é o fiel amigo que ampara, que defende e até protege sem cobrar nada do outro. Ele confia que numa situação inversa o outro usaria da reciprocidade para com ele.

Foi assim em Abril/2004, por volta da meia-noite. Eu sobrevivia numa solidão silenciosa e cruel em frente ao computador. Aí o amigo me mandou uma pequena, bem pequena, porém doída mensagem.  Nela o amigo escrevera apenas isto: “Seis meses... Quanta vida sem vida...” Olhei em volta do meu silêncio e senti o mesmo, o mesmo, sim, apenas num espaço de tempo que se alargara um pouco mais... cerca de 10 meses. A solidão do meu bom amigo começara três meses após a minha.

Aqui me permito inserir um parágrafo da crônica “Procura-se um amigo”, escrita por Vinicius de Moraes: 

“Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo. Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive.”

Enquanto eu procurava refazer o meu caminho, ainda acreditar na vida e no amor, ele passava por uma fase que eu ia ultrapassando aos poucos. Vi que ele não se entregara ao desencanto, pelo contrário, levava com muita dignidade aquela saudade que nos acompanhará pela eternidade. Hoje ele continua trilhando pelos caminhos que o destino também lhe reservou e eu fico feliz com isso.

Eu me refiro ao meu grande amigo Renato Toledo de Campos. Mestre Renato, aposentado do BB, ex bancário, professor, grafotécnico, psicólogo, e para sempre um ser humano da melhor qualidade. O Renatão, como às vezes o chamo carinhosamente, que esteve ao meu lado em várias jornadas, tanto pelo trabalho no DESED, como pela própria vida.

E hoje me curvo também ao talento do excelente contista Renato Toledo de Campos. Ele afirma que somente se descobriu como um contador de histórias ali pelos 75 anos. Que isto sirva de exemplo a tantos que naquela idade julgam nada mais poder fazer de útil na vida. É uma visão pessimista e totalmente equivocada que os faz geralmente até desistir de viver. Renato é um grande exemplo de vida. Fui o primeiro a divulgar crônicas do amigo Renato em meu site pessoal.

Eu conheci pessoas, no trajeto de minha vida, que aos 40 ou 45 já tinham postura de velhos. Queriam parecer com mais idade, sei lá a razão, e com isso ajudavam a abreviar um futuro que poderia ser mais feliz, produtivo e venturoso. Eu mesmo recomecei a escrever publicamente, nesta internet, no ano de 2001, ou aos 64 anos.

Hoje Renato me surpreendeu ainda mais ao escrever e editar (ou “cometer”, como ele o diz) um belo livro de Contos. O título é “Cronicontos e outros rabiscos”. A Editora é a Alternativa, de Porto Alegre (RS). Quem escreveu a Apresentação do livro foi Rozélia Scheifler Rasia. Ela encerra a apresentação do trabalho do autor com essas palavras:

Meu nome neste livro é uma oportunidade de me incluir entre os leitores de um dos maiores autores da atualidade, pois os contos de Renato Toledo de Campos desafiam o sentido da temporalidade, descortinam fatos do presente, tecem enredos do passado e antecipam o futuro em situações cotidianas ou inusitadas.”

É isso, amigo Renato, conseguiste mais uma grande conquista embora tua modéstia possa não o admitir. Eu te devia esta pequena, mas sincera homenagem e neste caso a ocasião fez o coração falar e dizer tudo. Obrigado pela honra de ter tua amizade há mais de quarenta anos, Renatão. Quem diz isto é aquele que às vezes, carinhosamente, chamas de “o filho do Mário”, nome do meu saudoso pai.
 

Não obstante nossa diferença de idade não o justificasse eu disse a ele várias vezes que via em sua imagem, em seu jeito, o meu saudoso pai português. E não menti.

 

(24 de abril/2010)
CooJornal no 681


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
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