01/05/2010
Ano 13 - Número 682

ARQUIVO SIMÕES


Francisco Simões
em Expressão Poética


 

          

Francisco Simões
 


A RESSACA E OS GARIMPEIROS DA PRAIA


 

Francisco Simões, colunista - CooJornal

Outro dia tivemos por aqui, como vocês devem ter sabido, uma ressaca do mar das piores que já havíamos visto. Eu divulguei algumas fotos que mostravam o estrago que as ondas imensas acabaram causando a boa parte da nossa praia.

Alguns me escreveram perguntando sobre a enchente, se tinha sido muito grande. Na verdade por aqui não costumamos ter enchentes, como se vê em outras cidades. Com chuva muito forte ocorre é que uma ou outra rua costuma encher, ficando difícil transitar por elas, mas logo depois a água baixa e tudo volta ao normal.

A rua em que moramos felizmente nunca encheu. Ela tem pequeno declive que pode facilitar isso. No nosso bairro outras ruas enchem e a água chega a entrar em algumas casas. Enchentes do tipo de que vemos em outras cidades felizmente não costumamos ter não.

Quando a ressaca é muito forte, e eu já presenciei pelo menos três aqui em Cabo Frio, o mar avança rápido, vem com ondas bem altas, cobre a areia das praias, especialmente a do Forte, algumas vezes chegando a subir um pouco nas dunas.

Ao largo do Forte de São Mateus, numa pequena área ali embaixo, dá para se presenciar sem perigo àquele espetáculo de fúria da natureza. Ondas avançam contra as encostas do Forte, cobrem a pequena ponte que faz parte do caminho para a subida até ele, invadindo parte da área de estacionamento ali ao lado.

Fotografado ou filmado lá de perto do Forte com a câmera voltada para as praias e a cidade temos a impressão de que realmente o mar vai invadir tudo. Chega a ser um pouco assustador. Eu cheguei a filmar, há uns 10 anos atrás, outra ressaca parecida e coloquei as cenas num vídeo dos que eu produzi sobre Cabo Frio.

Desta feita, mais uma vez, o estrago ficou por conta da destruição das cabines dos salva-vidas, além da derrubada das escadas que as pessoas usam para descer para a praia ali bem em frente ao Hotel Malibu.

A força das ondas chegou a cavar por baixo da estrutura do deque em que as pessoas passeiam habitualmente. Foi um grande estrago mesmo.

O que nos causou imensa surpresa foi o surgimento, já quando o mar começava a ficar mais fraco, de algumas pessoas que foram para as areias, que ainda estavam muito molhadas, mesmo enfrentando algumas ondas, como que catando mariscos.

Esta foi nossa primeira impressão, mas a realidade era outra, bem outra, por sinal. Eles mesmos, em entrevista à TV local, se intitularam de “garimpeiros da praia”. Realmente alguns dos rapazes mostravam para as câmeras objetos que colhiam na areia encharcada. Sorriam e diziam ser “troféus”.

Afinal o grande esforço deles, até por estarem a enfrentar um certo risco ainda latente ali, estava a ser compensado. Confesso que nós nunca víramos algo assim nesta cidade em momento algum.

Expliquemos a razão do “garimpo. Alguém teve a idéia e logo ela se espalhou. Os rapazes estavam a fim de conseguir recolher objetos diversos que as pessoas perdem na praia e jamais recuperam. Mais, alguns eram objetos de bom valor.

Os rapazes estavam com correntes finas, outras bem grossas, pulseiras, brincos, anéis, alianças, a maioria de ouro, mesmo. Acreditem, eram de ouro. Tem gente que insiste em ir à praia como se fosse a um baile. Nos movimentos em terra e dentro da água, acabam por perder adereços e nunca mais encontram.

A idéia foi que com a forte ressaca de repente o mar tivesse trazido de volta o que estava, digamos, “depositado” no fundo do mar, levado pelas ondas. E não é que os caras acertaram? Dois deles chegaram a mostrar o que haviam “garimpado”, dizendo para o repórter que ali havia, nas mãos deles, mais do que eles ganham normalmente em um ou dois meses.

A apresentadora do tele jornal da Globo, Sandra Anemberg chegou a fazer este comentário que eu, pelo menos, não julguei válido: “É verdade, eles estão felizes, mas, e os donos das jóias perdidas? Não seria o caso de os procurar?”...

Desculpem, meus amigos, sabem o quanto pelejo por atitudes honestas, mas neste caso os perdedores deveriam muito mais ser de outras cidades, muitos de outros Estados, do que daqui mesmo. Afinal tivemos um verão, mais uma vez, em que a nossa população de cerca de uns 130 mil habitantes superou em muito um milhão. Como comprovar quem seriam os donos? Já estávamos em abril.

Aquilo não foi roubo, apenas realmente achados de quem perdeu e deixou pra lá, certo? Deveria sim era servir de lição para quem vai à praia todo engalanado. Quem dera muitos pais tivessem com seus filhos pequenos, no imenso movimento do verão, o mesmo carinho ou zelo que parecem dedicar à sua aparência.

Enfeitam-se, exibem-se, e os guris ficam largados à sua sorte na multidão. Não fossem uns poucos que dedicam o melhor do seu tempo recolhendo as crianças perdidas na praia, como fazia o saudoso Palhaço Chupeta, e as levando de volta aos braços dos irresponsáveis pais, a tragédia seria maior.

Os “garimpeiros da praia” arriscaram e se arriscaram e tiveram sorte, pelo menos alguns. Isso ainda nos atos finais de uma ressaca gigantesca. Na minha opinião a apresentadora do jornal da Globo quis ser mais realista que a própria realidade de nossas praias. Usou de uma retórica correta, porém aplicada a um fato errado.
 


(01 de maio/2010)
CooJornal no 682


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
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