12/06/2010
Ano 13 - Número 688

ARQUIVO SIMÕES


Francisco Simões
em Expressão Poética


 

          

Francisco Simões



O RETORNO DO ZACA - IV
 

 

Francisco Simões, colunista - CooJornal

Anteriormente eu contei algumas aventuras do nosso personagem, o Zacarias, mais uma vez a serviço da firma, mas em terras bem distantes. Na última que contei não revelei a cidade, porém o faço agora: aquilo se passou com ele em Goiânia. Ao final da narrativa ele estava no aeroporto e em vez de pegar um avião de retorno ao Rio de Janeiro, sua cidade, viajou para S. Paulo, capital. Vamos explicar isto.

O Zaca telefonara para um grande amigo que tinha na paulicéia, o Esmeraldo, que apesar do nome era macho paca e um tremendo gozador. Iriam se encontrar no aeroporto, botar o papo em dia, tomar uns chopes e mais tarde então ele tomaria a ponte aérea para casa. Ocorre que o amigo preparara uma surpresa para ele.

Descendo do avião e se encaminhando para o saguão do aeroporto, já à distância Zacarias viu que o amigo estava em companhia de Cristina. Este a conhecera em missão anterior em Sampa e não mais a vira. Cristina era alta, vistosa, bonita e tinha um corpo que, naquele momento, trouxe tantas e maravilhosas recordações ao bom Zaca. Ah este imprevisível amigo Esmeraldo, sempre aprontando alguma.

Abraçaram-se, e foram até à lanchonete do aeroporto. Tomaram um lanche regado a chopes. Conversa vai, conversa vem, após uns 40 minutos de papo o amigo disse que precisava ir a um compromisso e deixou Zacarias sozinho com Cristina. O plano funcionava perfeitamente.

Ela propôs darem uma volta de carro, irem a alguns lugares interessantes que Zacarias não conhecia e depois darem um pulo até o apartamento dela. Assim foi feito. Cristina usava então o cabelo solto como Zaca gostava de vê-la antigamente.

O tempo se encaminhava para um delicioso fim de tarde. Zaca sabia que só iria tomar a ponte aérea para o Rio mais à noitinha. Cristina não admitiria que ele antecipasse sua partida, até porque tinha planos para as próximas horas que, no entender dela, funcionariam como uma espécie de agradecimento a Zacarias.

Isto tem a ver com história anterior, vivida por ambos lá mesmo, em S. Paulo, e que, em verdade, teve como uma espécie de coadjuvante, ou anjo da guarda, sei lá, o mesmo amigo Esmeraldo. Paro aqui para voltar no tempo e contar-lhes como Zacarias conhecera Cristina e o que se passara entre eles.

Zaca fora a S. Paulo em mais uma missão da firma e, naquele ano, seu amigo paulista/português, falara-lhe sobre a bela Cristina. Esta vivia quase sem sorrir, sempre séria, com os cabelos presos na parte de trás, aparentando uma tristeza permanente. Parecia guardar um segredo que não repartia com ninguém.

Esmeraldo contou que ela tivera uma grande desilusão pouco tempo antes. Conhecera um jovem forte, também alto e bonito pelo qual se enamorara. Ele pertencia a uma família de grandes posses. Pouco tempo depois acabaram casando. Infelizmente certo dia ela descobriu que aquele seu “príncipe”, alto, garboso, estava mais para “princesa”. Imaginem o choque que foi para ela.

A família quis abafar o caso, mas ela não se vendeu. Enfrentou a verdade com altivez e partiu para a separação definitiva. Cristina ficou mal por longo tempo tendo até que passar por um tratamento de recuperação emocional. Mesmo assim dizia temer outra experiência semelhante, razão porque evitava permanentemente aqueles que tentavam se candidatar a namorado.

Ciente do segredo da bela e triste Cristina, Zacarias pediu a Esmeraldo que o apresentasse a ela. Dias depois ocorreu a oportunidade. Curiosamente a reação dela para com Zaca foi diferente, mais amistosa, denotou simpatia. Almoçaram um dia juntos e marcaram um jantar para a noite seguinte. Conversaram muito e, com muito tato, sem usar de insistência, ele conseguiu que ela se abrisse e contasse tudo.

Zacarias costumava se gabar de ter grande experiência em entender o sexo feminino, porém daquela vez o cara se superou, acreditem. A conversa se alongou e Cristina foi mostrando que confiava em Zacarias. Já até esboçava alguns sorrisos e quando ele segurou suas mãos carinhosamente falando que a admirava muito e que gostaria de vê-la livre dos grilhões que a prendiam ao passado recente os olhos de Cristina brilharam como nunca. O gelo se desfazia. Zaca sorriu feliz.

Após o jantar ela aceitou o convite para irem até o apartamento em que ele estava instalado para continuarem a conversa lá e tomarem alguns drinques. Mesmo depois de bastante tempo juntos, trocando carinhos, ele começando a invadir a intimidade dela, Cristina ainda suava nas mãos e se escondia, em certos momentos, numa defesa que estava custando a ruir definitivamente.

Com seu jeito especial Zacarias enfim teve certeza de que poderia, digamos, “ajudar” Cristina, quando ela cedeu a um longo beijo emoldurado por carícias que vinha evitando fazia tanto tempo. Aos poucos, como convém, os dois passaram a se entregar num lindo ato de amor ao qual, Cristina, um tanto descrente no começo, já dava sinais de que se recuperava rápido dos problemas emocionais.

Com o passar dos minutos ela foi mostrando autoconfiança, se soltando das amarras, sendo finalmente a mulher linda e perfeita que Zaca acreditava ter ali em seus braços. Cristina enfim assumia a personalidade que seu falso príncipe destruíra. Estava novamente feliz e realizada. Eles amaram, e amaram muito, foi o que me contou o próprio Zacarias, na época.

Volto agora à narrativa acima para dizer que bem ao final da tarde, eles chegaram ao apartamento de Cristina, na Av. 9 de julho. Zacarias não o conhecia, pois tudo que viveram antes não se dera lá. O andar era alto e isto apenas incomodava Zacarias por causa da sua forte fobia com elevador. Naquele dia, entretanto ele a superou numa boa. Cristina conseguira este milagre.

O que os dois viveram novamente naquele dia só a eles pertence, assim vamos respeitar a intimidade agradecida de Cristina para com o nosso Zaca. Desta feita o nosso “conquistador” havia sido conquistado por quem habitou sua mente por muito, muito tempo, embora nunca mais eles se tivessem visto.

Horas depois ela o levava de carro ao aeroporto para que enfim ele tomasse a ponte aérea para o Rio. Zacarias iria retornar a casa, mas sua trajetória de aventuras com certeza não terminou aí. Outro dia eu conto mais.



(12 de junho/2010)
CooJornal no 688


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
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