10/07/2010
Ano 13 - Número 692

ARQUIVO SIMÕES


Francisco Simões
em Expressão Poética


 

          

Francisco Simões



DE UM BRASILEIRO PARA OS ARGENTINOS
 

 

Francisco Simões, colunista - CooJornal

Temos o hábito de criticar sempre nossos irmãos argentinos especialmente no que tange ao futebol. Entendo isso, é uma espécie de rixa muito antiga, até porque de lá para cá a reação não é diferente. Vai no espírito esportivo que nos permite reações assim, desde que não ultrapassemos, nem nós, nem eles, determinados limites.

Mas neste momento, mesmo contrariando opiniões de cá, e me sujeitando a “chuvas e trovoadas”, pretendo não deixar de escrever o que minha consciência me dita e me aconselha. Vou me referir tanto ao Maradona quanto ao povo argentino. E o faço com toda a sinceridade.

Maradona, achei bonito e uma atitude digna e nobre de tua parte quando, em vez de fugires da responsabilidade, após a derrota para a Alemanha, teres ficado em campo e abraçado todos, todos os teus comandados com palavras de consolo a cada um. Aí eu te aplaudi, Diego, te aplaudi como brasileiro, mas principalmente como um cidadão que apóia, acima de tudo, a decência, a dignidade, a honradez.

Deste um belo exemplo a outros técnicos que, na derrota, logo se escondem, ou irritados passam a espinafrar todo mundo, ou mesmo a maltratar colegas, como fez o mal educado técnico da França com o nosso Parreira. Tu não, orientaste teu time o melhor que pudeste, torceste e muito como sempre, mesmo criticado por tantos, todavia soubeste reconhecer a superioridade do adversário.

Como digo sempre, perder faz parte do esporte, e em Copa do Mundo acontecem coisas que os crentes diriam que até Deus duvida. Já vi muitas barbaridades, muitas equipes serem prejudicadas por erros grosseiros de arbitragens incompetentes, mas a competição segue em frente. Nem sempre os vencedores são aqueles que mereciam ser. Mas o que é “merecer ser” em futebol?? Não sei.

Só sei que jamais invadiste o gramado mesmo irritado com alguns equívocos da arbitragem. Entendeste que teu time, por mais que fizesse, não conseguia segurar, ou parar, ou subjugar o adversário que se mostrava muito superior. A verdade, assim reconheço, é que não foi a Argentina que perdeu, mas a Alemanha que venceu merecidamente aquele jogo. E apenas, mais um jogo de futebol.

Parabéns, Maradona, por teres feito tudo que era possível para inverter aquela situação, situação que nem nós brasileiros, que tanto torcemos contra vocês, tantas vezes (não esquecendo que a recíproca é verdadeira, hein!!) acreditávamos fosse acontecer. Quem disser o contrário estará mentindo.

Parabéns também à grande parte do povo argentino que recebeu com aplausos e muita alegria seus atletas e o técnico, que soube perceber que eles deram o melhor de si, mas não foi possível vencer. O povo reconheceu que seu time nunca foi covarde, e que se pudesse teria ido até à final, mas naquele dia a Alemanha foi superior e muito e jamais perderia aquela disputa.

Uma Alemanha muito diferente da que perdeu vergonhosamente para a modéstia Sérvia na primeira fase, quando teve o tal Klose expulso, por agressão covarde a outro atleta, aos 25 do primeiro tempo. Este jogador agora está a ser endeusado, é o artilheiro da Copa, mas assim como já fez antes pode repetir e pôr a comprometer as intenções do time alemão, não duvidem. E lembremos que contra Gana, também na primeira fase, venceram um jogo difícil por apenas 1x0. Se tivessem sido eliminados não estariam no vosso caminho, mas quem sabe outro os venceria? Futebol é isso, nem sempre prevalece a lógica, e isso me agrada.

O povo argentino, assim como tu, Maradona, deram um magnífico exemplo a muita gente que só exige vitórias, que encara uma derrota como se fosse uma vergonha nacional, que mistura esporte com patriotismo. Muita gente que torce a favor, porém logo passa a torcer contra o seu próprio time, mesmo seleção, se tem interesses contrariados. E esses são os piores culpados, mas jamais assumem.

Enfim, Maradona, parabéns pelo menos por dois momentos teus em entrevistas coletivas que tive que aplaudir. Um deles foi quando certo jornalista brasileiro te provocou fazendo críticas ao técnico Dunga e buscando o teu apoio. Me lembro que respondeste algo mais ou menos assim: “Nada tenho a dizer sobre a seleção brasileira, mas sei que o Dunga está fazendo um bom trabalho e deve ser respeitado.” Te lembras disto? Eu não esqueci.

Em outra entrevista, após a derrota muito estranha do Brasil para a Holanda, outro jornalista de cá também te provocou com esta pergunta: “Maradona, estás feliz com a derrota do Brasil?”. Fechaste o semblante, olhaste fixo para o jornalista e respondeste algo assim: “Eu respondo pela seleção argentina, não tenho nada a ver nem a dizer sobre o Brasil”. Puxa, bem feito para eles, Diego. Te aplaudi novamente. De ti eles nunca vão poder se queixar, tiveram que engolir em seco.

Agora mesmo, ao ler este meu texto, quantos deverão estar a querer comer o meu fígado, só advirto que já tenho quase 74 anos, há muito anos não bebo álcool, mas no passado gostei sempre de bons vinhos, uísques de 12 anos, cervejas, etc. Então, atenção, podem se envenenar. Contenham-se. Não tenho medo de ser feliz.

Era o que eu queria dizer ao nosso bravo Maradona, de hoje, e ao torcedor argentino que recebeu de braços abertos sua seleção, mesmo após a eliminação. Confesso que aí eu os invejei, o que jamais pensei que um dia aconteceria.

Aplaudo também os três integrantes do programa “Liberdade de Expressão” do dia 5/Julho/2010, da rádio CBN, começando pelo Carlos Heitor Cony. Parabéns pelos seus comentários que foram exatamente na mesma direção que acima eu comento.


(10 de julho/2010)
CooJornal no 692


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
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