24/07/2010
Ano 13 - Número 694

ARQUIVO SIMÕES


Francisco Simões
em Expressão Poética


 

          

Francisco Simões



PODE SER SAUDADE
 

 

Francisco Simões, colunista - CooJornal

Amigos, há quem costume julgar que não se deve viver preso ao passado. Ao pé da letra esta expressão “preso ao passado” me leva a concordar com eles, afinal isto costuma nos conduzir a um comportamento meio doentio. Até aí tudo bem.

Eu começo a discordar a partir de quando incluem também o sentir saudades da infância e de pessoas queridas, na forma mais sentimental da existência de todo ser humano. Pode-se conviver perfeitamente com esse sentimento sem estar apegado de forma radical a ele como se nada mais nos interasse na vida.

Não sei se me explico bem, mas vamos em frente. A perda de um ente querido gerará sempre em nós uma força nostálgica que inevitavelmente nos abalará por um período mais ou menos longo conforme o que a pessoa que partiu pra sempre representava para nós em vida, amor, alegria, felicidade, etc. Isto é mais do que natural. A saudade irá comparecer em nossos dias de solidão. É mais do que normal. Se nada sentirmos é porque não havia reciprocidade nos sentimentos.

Todos que estamos vindo de longe, de bem longe, nesta vida, eu já há quase 74 anos, outros pouco menos, outros pouco mais, temos acompanhado as evoluções, tanto da ciência quanto da tecnologia, etc, é verdade. Todavia, nesses tempos porque estamos passando atualmente, temos também comprovado degradantes e assustadoras involuções em hábitos e costumes de uma maneira geral.

Essa autêntica metamorfose, digamos assim, vai transformando seres humanos em verdadeiros monstros e outros em excrementos desprezíveis a nortear uma sociedade doente por rumos de um provável desprezível imundo novo. Os exemplos estão aí aos nossos olhos diariamente. Não nos agrada saber, porém não devemos ignorá-los totalmente. Estamos mergulhados nessa triste realidade.

Então, como não sentir saudade de tempos em que nós éramos tão felizes, onde nos bastava o que tínhamos e convivíamos num mundo sem deslumbramentos nem obcecações que nos atraíssem para vícios que hoje estão a arrastar para a morte muito de nossa juventude, e a gerar um império de violência que já alcança o lamentável “status” de “crime organizado”?

Pois é, e alguns de nós ficávamos ainda a sonhar, nos tempos antigos, com uma época de tempos melhores no futuro! Pelo menos era o que nos diziam os mais velhos de então. Pois, amigos, já estamos no futuro, não se iludam, o futuro é diferente para cada um de nós, porém, para mim, por exemplo, e para muitos de vocês, ele já chegou faz bastante tempo. Nós o estamos vivendo, ou sobrevivendo nele.

Em alguns momentos me confesso um saudosista ferrenho, talvez não obstinado, mas sentindo mesmo a falta não só de pessoas como de valores, princípios, que tínhamos e que hoje infelizmente estão a ser substituídos por “padrões sociais” (?!) aos quais somos obrigados a nos adaptar para poder seguir vivendo em sociedade.

Quando digo “obrigados a nos adaptar” claro que esse nosso comportamento acaba se mantendo dentro de limites que a nossa conduta, até por formação educacional, aí incluídas a ética, a moral, a probidade, um relacionamento humano familiar ou não muito diferente do atual, e isso gera eventualmente alguns pequenos conflitos aos quais ou fechamos os olhos e os ouvidos ou nos envolvemos em polêmicas desagradáveis, desgastantes, que devemos evitar.

Tornando este assunto mais agradável, nada melhor do que enveredarmos rapidamente pela poesia. Vamos lembrar apenas um simples verso de certa música popular brasileira, bem antiga que diz... “Saudade, palavra triste quando se perde um grande amor...”

Ou quem sabe lembrando mais este, de Cartola... “As rosas exalam o perfume que roubam de ti...” Parece tudo tão simples, simples como deveria ser a vida, mas os seres humanos ainda não estão preparados para entender o que alguns privilegiados já alcançam e nos deixam como legado. Um dia o mundo será melhor.

Não me move aqui a intenção de fazer um tratado sobre saudade, do contrário teria que “convocar” tantos e tantos poetas, não só da língua portuguesa como de outras muitas, para nos desfilarem seus maravilhosos versos de amor e saudade. Mas não é este o foco deste modesto texto que me foi ditado pelo coração e por uma razão cada dia mais preocupada com tudo que vê e que ouve.

O título deste texto eu o tirei de um verso de bonita canção portuguesa. Assim vou encerrar com outro de uma das mais belas músicas que conheço do cancioneiro português. Ele pode, aparentemente, nada ter a ver com saudade, mas não importa, entendo que quem fala de amor acaba falando de saudade.

Diz o verso a que me refiro: ... “Viver abraçado ao fado, morrer abraçado a ti...”



(24 de julho/2010)
CooJornal no 694


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
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