18/09/2010
Ano 14 - Número 702

ARQUIVO SIMÕES


Francisco Simões
em Expressão Poética


 

          

Francisco Simões



O RECEIO QUE EU NÃO TENHO

 

Francisco Simões, colunista - CooJornal

Acompanhando o noticiário sobre a próxima eleição presidencial tenho lido muitos artigos e crônicas de autores que respeito e cuja opinião eu costumo endossar.

A maioria dos textos alertam sobre os riscos de uma eventual vitória da candidata do PT o que a cada dia parece mais inevitável. Por outro lado, vejo uma oposição frágil, mal organizada, a “bater cabeças”. No meu entender o péssimo resultado do candidato Serra deve-se muito à desorganização do PSDB, começando pela escolha do candidato que não chama votos, só os perde, mas não podemos deixar de considerar também os tais 80% de apoio obtido por Lula nas pesquisas, claro.

Enquanto os petistas tratam da disputa como se fosse uma guerra, e os adversários como sendo inimigos, os tucanos enfrentam tudo timidamente. Vários analistas têm criticado veementemente a atitude da direção do PSDB colocando seu ex-presidente, FHC, na “geladeira”, como se o alto cargo que ocupou, aliás, o único que o partido já conseguiu, representasse demérito para eles.

Pois é, mas “esquecem” que o governo FHC também não passou incólume, sem escândalos, denúncias de várias ordens, inclusive o “caso VALE”, uma eventual compra de votos para aprovação do projeto de reeleição, a privatização, ou “doação”, como diziam alguns críticos, da telefonia brasileira, o chamar aposentados de vagabundos, uma agressão imperdoável, entre muitos outros.

Talvez por essas e outras em nenhum momento permitiram que FHC participasse da campanha de Serra nas duas derrotas para o Lula. Por isso tenho escrito que os maiores responsáveis pela chegada do PT ao poder, na época, pode ter sido a total incompetência do próprio PSDB, como governo ou pela escolha do candidato.

Imaginem que esta semana, no programa CQC, da TV Bandeirantes, excelente por sinal, quando a jovem repórter perguntou ao Serra se não seria bom para ele que FHC aparecesse mais em público o apoiando explicitamente, ele respondeu mais ou menos isto: “Olhe, eu não preciso de ajuda, sei me defender e meu debate é com a Dilma.” – Preciso dizer mais alguma coisa?

De nada adianta o que tem sido escrito, falado, divulgado por tantos comentaristas porque afinal o time que deveria “entrar em campo” e jogar firme, com disposição para uma vitória, com raça, garra e coragem, está mais para “cúmplice” da candidata petista. Até o candidato Serra fica cheio de mesuras ao se referir ao Lula. Sinceramente é desanimador torcer por essa oposição.

Quero, porém, deixar bem claro que eu não concordo com os analistas que têm insistido em denúncias e alertas sobre o caos a que poderiam levar nosso país com uma vitória de Dilma, dizendo que este receio eu não tenho. Não vou defender os petistas nem os “planos” lulistas de futuro que Dilma poderá querer pôr em execução. Tenho outra visão sobre isto.

Entendo que nossas instituições não estão nem são tão frágeis quanto possa parecer a alguns, ou mesmo aos petistas mais afobadinhos. Muito menos posso concordar que o nosso Poder Judiciário seja “de mentirinha”, como li no excelente artigo de Marco Antonio Villa. Isto não é verdade.

Recentemente no episódio da tentativa de alguns em imporem censura aos humoristas foi o Judiciário que agiu rápido fazendo valer o que era correto: derrubaram a frustrada tentativa do PT. Igualmente muitas candidaturas inscritas para vários cargos políticos, inclusive Governador, estão a ser cassadas pelo nosso Poder Judiciário com base na atual lei da Ficha Limpa. E são muitas mesmo.

Igualmente lembro que também rápido foi articulada uma manifestação popular que ecoou como um alerta aos que possam querer intentar contra a nossa frágil democracia. Para mim está evidente que, se a nova Presidente ou outros petistas, pensarem que, estando com a faca e o queijo na mão, poderão fazer o que quiserem com nossas instituições, eles correm o risco de sentir o gosto amargo de um poder que tenta por suas manguinhas de fora. Remember Collor de Mello.

Lembro que este foi devidamente expurgado, mesmo eleito com o apoio de grande parte da oligarquia deste país, incluída aí a força de nossa mídia maior que lhe dera, antes, total cobertura. Até armações iguais ou piores do que o PT está a usar agora foram arquitetadas, na época, para derrubar Lula. Alguém esqueceu? E nossa democracia não correu nenhum risco. Assumiu o vice e fomos em frente.

Sei que não posso comparar o atual vice de Dilma com o Sr. Itamar Franco. Gostem ou não do topete do bom mineiro foi ele quem colocou FHC no Ministério da Fazenda, e quem aprovou e fez vigorar o Plano Real. Será que não lembram? Todavia Michel Temer, como pemedebista que é, não iria querer tomar as dores do PT e sair também queimado numa eventual situação de impeachment. Duvido.

Se hoje o Legislativo pode estar sendo “invadido” por aproveitadores de ocasião, eleitos pelo voto popular, ora, não será a primeira vez. Quantos já lá não têm estado, e/ou estão? É lamentável, mas um dia haveremos de ganhar a consciência política necessária para fazer uma faxina geral no Congresso e mudarmos o país.

Não creio também que, mesmo com a arrogância populista que Lula vem atuando em determinados episódios, ele arquitete ou tente implantar algum “autoritarismo de esquerda”. A alguns isso pode até parecer possível, mas eu prefiro acreditar que sejam mais alguns “delírios persecutórios”. Afinal nosso país está muito longe de se tornar uma Venezuela. O buraco é mais embaixo, como costumam dizer.

Além de outros poderes independentes, temos hoje nossas Forças Armadas cumprindo fielmente seu papel constitucional, porém não as considerem alheias ao que se passa no cenário nacional. Em 1964 a situação era completamente outra. Instalava-se por todo o país um clima de agitação que levou ao golpe militar.

Até hoje lamentamos pelos anos escuros em que vivemos numa ditadura impiedosa que considerava todos que fossem contra os seus métodos como comunistas. Isto se repetiu por toda a América do Sul. Hoje nossos militares têm outra formação e outra visão quanto a seu exercício caso convocados a ajudar em algum eventual processo de intervenção, por exemplo, um “watergate” à brasileira. Duvidam?

Entendo que, se não há clima para uma tentativa política de esquerda retrógrada intentar contra nossa democracia e se impor como um poder totalitário, igualmente se necessário for algum tipo de intervenção jamais repetiremos o que aconteceu nos anos 60/70. Não teriam qualquer apoio externo significativo (EUA), como antes, e perderiam qualquer credibilidade junto a Órgãos Internacionais, como a ONU, por exemplo. Ninguém se arriscaria a isso nos tempos atuais. Nem mesmo o Lula, hoje com os 80% de aprovação, mas que amanhã pode se inverter.
 

(18 de setembro/2010)
CooJornal no 702


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
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