30/10/2010
Ano 14 - Número 708

ARQUIVO SIMÕES


Francisco Simões
em Expressão Poética


 

          

Francisco Simões



ALMA NÃO TEM COR

Francisco Simões, colunista - CooJornal

Esta é uma expressão muito conhecida, mas que me levou a escrever este texto ao ouvir hoje certa música que a tem no refrão. Claro que as palavras procuram pregar não haver razão para tanto preconceito. Mas infelizmente ele está aí.

Eu me lembro de ter ouvido, algumas vezes, pronunciado até por amigos, esta outra expressão com sentido diametralmente oposto: “Ele é um preto de alma branca”!! Essas pessoas, na sua limitada e preconceituosa visão, queriam “elogiar” alguém de cor negra que se destacou em algo. Haja preconceito.

Muitos são capazes de jurar não serem preconceituosos. É, até parece que são sinceros. Porém, deixe alguém, negro ou branco, aparentemente sem maior preparo escolar, galgar uma posição de destaque na sociedade.

Consideremos que ele consiga uma oportunidade de crescer socialmente, coisa rara, mas que acontece, como a pessoa se referiria então a ele? Se for de pele negra, provavelmente repetindo que... “é um negro de alma branca”. Meu Deus, que coisa mais odienta. Já ouvi muito esta expressão.

Isso se o antes “pobre coitado” não chegar a subir muito socialmente. Vai que de repente ele alcança posições, cargos, para os quais alguns dos nossos brancos “não preconceituosos” consideram ser privilégio dos da sua “raça”. Aí eles já o começam a ver com outros olhos, primeiro o observando com certa desconfiança, depois expelindo sua intolerância, de várias formas. E eles estão por aí.

Há pouco tempo atrás soube-se, em rápidos noticiários pela TV, de um jovem negro, filho de uma senhora magrinha, catadora de lixo, que alcançara um sucesso como ser humano o que para alguns seria impensável. Ele era o primeiro aluno de sua turma na Universidade, é verdade, na Universidade, e ia se formar este ano.

Ocorreu que uns bandidos, à noite, à procura de determinado rival, que não era ele, o mataram sem dó nem piedade, sem fazer qualquer pergunta. Entrevistaram a mãe do jovem, e ela, que sentia tanto orgulho dele, estava, claro, desolada.

Pergunto: alguém leu algo nesta internet falando sobre o ocorrido? Alguém se preocupou em divulgar este fato? Alguém escreveu condenando o ocorrido, talvez com o mesmo empenho com que tanto têm feito “propaganda ou crítica política” da pior qualidade contra este ou contra aquela candidata?

Eu, como vocês, amigos, que recebo tantas mensagens grosseiras, muitas com linguagens chulas, mal educadas, não vi nenhum desses “artistas do lixo intelectual” se importar com o que relato. Foi apenas mais um negro que morreu. É o que devem ter pensado.

Aliás, vocês pensam que aquela criminosa organização conhecida como “Ku Klux Klan”, surgida há décadas nos EUA, atuante principalmente na região sul do país, em Estados como Texas e Mississipi, já foi extinta? Ledo engano. No passado eles agiam mais abertamente. Matavam famílias inteiras de negros, os torturavam, homens, mulheres e crianças, sendo alguns pendurados em árvores.

Do lado da polícia havia sempre uma certa leniência em relação aos seus crimes. Eles agiam abertamente. Hoje, de quando em vez, alguns dos seus membros metem a cabeça para fora do casulo da covardia, e fazem eventuais pronunciamentos. Haja vista um vídeo a que assisti no Youtube algum tempo atrás, logo após a eleição do Obama como presidente dos EUA. A organização vive nas sombras, não foi exterminada, nem pensem nisso.

Por outro lado, de uns tempos para cá surgiram grupos de jovens, geralmente entre 16 e 25 anos, se dizendo “neonazistas”. Claro que adotam as idéias de Hitler, e tentam as aplicar em suas covardes atitudes de agressão, algumas levando à morte. Eles se voltam contra negros, homossexuais, judeus, e outros. Existem muitos grupos espalhados pela Europa, mas não só lá.

Estão também aqui pela América do Sul, especialmente no Brasil e na Argentina. Naquele país existem, segundo eu li, dois pequenos partidos que nasceram de inspiração neonazista. Agem também nesta internet disseminando eventuais mensagens que, algumas vezes, podem ser confundidas com as de outros que tenham posições com certo paralelismo no ideário. Atenção, portanto.

Falando em preconceito, não esqueçamos quantos têm sido os casos denunciados de pessoas, ou por serem negras, ou por estarem vestidas de forma muito simples, ou por exercerem profissões que os preconceituosos têm sempre em mira, são vez ou outra molestadas em lojas, supermercados, suspeitas de algo que não fizeram.

Quantos destes são trancados em porta giratória de Bancos, sem nada terem como evidência contra o injustiçado, quando vigilantes acionam o sistema manual movidos unicamente pelo... preconceito? Quantos são proibidos de usar o elevador social de certos prédios pela cor da pele ou por serem empregadas domésticas de algum apartamento? Sabem que hoje isto é proibido? É, mas nem todos cumprem.

A alma não tem cor, mas os crentes, que alimentam preconceitos, a mim parecem muito hipócritas. Afinal vivem a falar que são cristãos, que são piedosos, justos, que amam ao próximo como a si próprios, e outras coisas mais. Soa, em alguns casos, como muita pregação e pouca prática.

Não me levem a mal, só me refiro aos que exercem rotineiramente o preconceito, e não pensem que sejam exceções, não mesmo. Quantos casos temos visto registrados na mídia, fora os muitos mais que não chegam ao conhecimento público.

A alma, em geral, pode não ter cor, mas, a dos preconceituosos com certeza tem, e ela deve ser, para castigo deles, justamente de um certo tom que represente o negativismo espiritual dessas pessoas.

 

(30 de outubro/2010)
CooJornal no 708


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
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