29/01/2011
Ano 14 - Número 720

ARQUIVO SIMÕES


Francisco Simões
em Expressão Poética


 

          

Francisco Simões



O RECONHECIMENTO DO MÉRITO – EUZÉBIO
 

Francisco Simões, colunista - CooJornal

Nesta passada terça-feira, por volta das 20 horas do Brasil, e 22 horas de Portugal, tive a felicidade de assistir, ao vivo, transmitido pela RTPI, emissora Portuguesa Internacional, um maravilhoso programa, diretamente do Coliseu dos Recreios, em Lisboa, de homenagem ao maior jogador do futebol português de todos os tempos: Euzébio.

Como benfiquista que sou, desde os 10 anos, não podia haver para mim naquele momento felicidade maior, sinceramente. Como me tornei benfiquista? Fôramos morar por um ano em Portugal, eu e os irmãos que já haviam nascido, mais nossos pais, no ano de 1947, logo após a II Guerra Mundial. Um dia meu saudoso pai, Mário Santos, levou-me ao Porto para ver o grande clássico Benfica x Porto.

Meu pai era tripeiro, digo, nasceu na cidade do Porto. Pensava que eu fosse ser mais um torcedor das cores azul e branco. Mas cá o Chico, como criança, na época, encantei-me com a cor vermelha das camisolas do time do Benfica e principalmente com o lindo emblema que os jogadores carregavam ao peito. Foi mesmo uma paixão à primeira partida. O jogo terminou em 4x4.

Mas, voltemos ao programa a que me refiro acima. Foi uma festa mesmo a grande. Muitos jogadores do passado, não só portugueses como de outros países europeus, além de craques do presente que lá puderam estar, compareceram ao belo Teatro Coliseo de Lisboa. Dirigentes de clubes europeus, inclusive o brasileiro Leonardo, ex dirigente da Inter de Milão e hoje técnico do Milan, da Itália. Outros mandaram mensagens gravadas, aí incluído o atual Presidente da FIFA.

Um grande jogador português do passado, Carlos Coluna, hoje na altura dos seus oitenta e tal, que chegou a jogar com Euzébio, contou o que quase ninguém sabia: como Euzébio chegou em Portugal e como foi ter no Benfica. Resumo da história: a mãe dele o mandara de Moçambique, ainda criança, aos cuidados do Carlos Coluna pedindo que este cuidasse dele. Havia interesse em que Euzébio fosse treinar no Sporting, porém sua genitora fazia uma exigência: queria um determinado valor, muito pequeno, para que ele vestisse a camisola sportinguista, e que atendesse a suas eventuais despesas.

Como cá também acontece, alguma cabeça “mais iluminada” do Sporting não aceitou e disse que primeiro ele mostrasse um bom futebol para depois vestir tal uniforme. Resultado, sabendo da história, disse o Coluna que um Diretor do Benfica ofereceu aquele pequeno valor para que o menino Euzébio treinasse no time vermelho. A mãe concordou e assinou documento autorizando tudo.

Assim, aquele que muitos anos depois, em 1966, seria chamado pelos ingleses de “Pantera Negra”, tornou-se não só jogador do Benfica como se revelou posteriormente o maior jogador de Portugal de todos os tempos e um dos maiores do mundo. Em toda a sua carreira Euzébio teria feito 1.137 golos.

Na mesma época em que Pelé começava a atingir seu auge pelo time do Santos, no Brasil, Euzébio brilhava a grande nas Taças Européias, isso nos anos 60. Por quatro anos o Benfica chegou às finais da Copa da Europa, sendo que nos anos de 1961/1962, tornou-se campeão europeu.

Sobre a Copa do Mundo da Inglaterra, em 1966, Portugal vinha vencendo a todos os seus adversários, inclusive ao Brasil que fora Campeão do Mundo em 1962. Entretanto, no jogo contra a fraca Coréia, os portugueses foram surpreendidos no primeiro tempo que terminaram perdendo por inesperados 3x0. No intervalo levaram os devidos puxões de orelha e ao voltar ao gramado viraram o jogo e venceram por 5x3. Portugal acabou chegando à partida semi-final justo contra os ingleses. Parecia que esses teriam que vencer aquela Copa a qualquer preço.

Na última hora trocaram o estádio do jogo contra Portugal levando-o para o Wembley. Este, antes, estava reservado para a final. Com uma arbitragem um tanto confusa Portugal perdeu o jogo e acabou ficando com o honroso terceiro lugar. Enquanto isso, quem se lembra, como eu, os ingleses metiam a mão nos alemães, na final. Valeu até gol sem que a bola tivesse entrado na baliza. Filmes da época comprovam este fato. Nem preciso responder quem foram os campeões!!

Voltando novamente à homenagem ao grande Euzébio, me emocionei ao ver determinadas figuras do passado, ligadas ao esporte português, que conheci em minha juventude. Um deles o excelente narrador esportivo Arthur Agostinho. Que bela voz, parece ainda estar em forma. Sou por demais emotivo e não resisti às lágrimas que insistiam em falar do que eu sentia naquele momento. Jogadores que formavam o grande esquadrão do Benfica, da época, entre eles o meu xará Simões. Quanta saudade, quantas recordações.

O excelente humorista, comediante, inteligente, com larga cultura geral, o Hermann José, também se fez presente e tomou umas rápidas vaias amigas ao “provocar” a platéia enaltecendo qualidades de seu time de coração, o F. C. do Porto. Chegou a dizer, com sua irreverência habitual: “Me convidaram, agora vão ter que me agüentar, pois”... E todos explodiram em risada. A seguir leu pequeno texto e depois cantou, junto com mais dois atores, uma música em homenagem ao Euzébio. Foi muito aplaudido ao final, como não podia deixar de ser.

O apresentador daquela linda homenagem foi o excelente Malato, um dos melhores na atualidade da TV portuguesa, junto com uma jovem cujo nome me foge agora. Curiosamente o bom Malato é torcedor do Sporting. Em Lisboa a grande rivalidade esportiva é justo entre Benfica e Sporting, assim como por aqui Vasco e Flamengo, ou Grêmio e Internacional, Cruzeiro e Atlético Mineiro, etc..

O caso de Euzébio, entretanto, naquele momento, não despertava nenhuma paixão clubística, mas sim nacional. Estava a ser homenageado o maior dos ídolos do esporte português. Euzébio também aniversariava, completando 69 anos de idade, naquele dia e completava cinqüenta anos desde que começou a jogar como profissional. O Coliseu estava lotado. Meus olhos não desgrudavam da TV, meu coração, um pouco acelerado, compartilhava também da minha forte emoção. Euzébio tentou enxugar os óculos e os olhos que não escondiam sua imensa felicidade daquele momento.

Euzébio é reverenciado não apenas por seu imenso sucesso como atleta, jogador de futebol, como já disse acima, com certeza um dos melhores de todos os tempos, mas também pelo seu caráter e atitudes outras em apoio ao esporte tanto em Portugal como além fronteiras. À RTPI os meus aplausos.

A Euzébio da Silva Ferreira, o tão decantado “Pantera Negra”, apelido que pegou fácil, o meu modesto e tão distante abraço, encurtando a distância dos dois lados do Atlântico.

O meu muito obrigado por tudo que ele fez também pelo meu time português do coração, opção que fiz aos 10 anos de idade, no estádio do Porto, o Sport Lisboa Benfica.

Assistindo àquela justa e maravilhosa homenagem, lavei minha alma, revi muito do meu passado, tanto distante como mais recente, quando vivi por quatro longos períodos em Lisboa nos anos de 1989/92/95/98.

 

(29 de janeiro/2011)
CooJornal no 720


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
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