12/02/2011
Ano 14 - Número 722

ARQUIVO SIMÕES


Francisco Simões
em Expressão Poética


 

          

Francisco Simões



NÃO TREMA, QUESTIONE

 

Francisco Simões, colunista - CooJornal

Vejam só a que ponto chegamos, discutir nossa língua mãe através do uso ou desuso do trema, ou pior, do comer lingüiça ou linguiça! Barbaridade, e esses doutos senhores levaram 30 anos debruçados sobre livros, tratados, cimeiras, sei mais lá o que, para decidirem o que ninguém lhes pediu que fizessem.

Poderiam ao menos ter a decência de declarar que não pretendiam fazer apenas uma revisão ortográfica coisa nenhuma. E alguns ainda acreditam nisso e até apóiam e justificam (os mesmos de sempre). Já li algumas justificativas que chegam a me dar arrepios pelo excesso de capricho no escrever altamente intelectualizado. Perdão, a mim não impressionam.

Quem mais usa a língua, falando ou escrevendo, é o povo, ou os povos, considerando brasileiros e nossos bravos irmãos lusitanos de Portugal e alhures. Pois eles nem se dignaram a nos ouvir. E somos muitos milhões. Oh gente metida que se apossa do que pertence ao povo há séculos e até em desrespeito às origens do nosso idioma, com aquela pose que o fardão já sugere, meteram as canetas e disseram: “agora é assim”.

Pois eu, na minha modesta, mas firme oposição, digo que não é não. Já ouviram falar em rebelião silenciosa, sem armas, sem bombas, sem vítimas, porém levada a efeito com seriedade, com “regimentos” de inteligência média, com a palavra como bandeira, com destreza mental no raciocínio e no argumento? Acreditem, entre nós não existem os considerados “inteligência de peru novo”, sem ofensa a ninguém.

Eu já disse em outro texto e confirmo agora, meus amigos, esses senhores pretenderam, ou ainda pretendem (mas vão ficar só na pretensão, com certeza), é unificar a escrita e por conseqüência a fala de brasileiros e portugueses. Devem ter alimentado fantasias delirantes para mergulhar numa utopia dessas. No fundo sei que nem eles, os fardões autoritários da palavra, acreditam no que decidiram, mas não vão dar o braço a torcer. Ou será que vão?!

E pensar que se existem pessoas ilustres entre eles, há também alguns “maribondos de fogo” que só lá estão pela influência política. E nós vamos baixar a cabeça inclusive para quem parece ter aposto por último a assinatura no documento e que nem domina o falar, muito menos, o escrever em nosso idioma? Que é isso, companheiro? Mais respeito, e uma consulta popular não faria mal a ninguém, nem ao vosso prestígio intelectual e político, e seria mais decente.

Agora vão ter que agüentar a reacção (como escrevem os irmãos portugueses, e eu os aplaudo) daqueles para quem suas senhorias manifestaram total desprezo e indiferença. Lembro aqui o que disse um dia o grande Oscar Wilde: "Aos olhos de quem leu a História, a desobediência é a virtude original do homem. A desobediência permitiu o progresso – a desobediência é a rebelião.”

Apesar das inúmeras manifestações que estão acontecendo, muitas de pessoas que não só escrevem nesta internet como na imprensa escrita, percebo, ao ler certas mensagens a mim endereçadas, que alguns torcem o nariz ou disfarçam o mais que podem seu desprezo a quem se posiciona contra a falsa “revisão ortográfica”.

Repito, falsa porque não foi feita exatamente com este objetivo. Alguns querem dourar-lhes a pílula e dizem, até com certa convicção, que foi “muito louvável esta preocupação em unificar nosso falar e escrever”... Será que acreditam em Papai Noel?! Não quero ferir os brios de ninguém, apenas usar o sagrado e inalienável direito de persistir no que acredito e discordar.

Não uso minhas lanças contra moinhos de vento, mas sim no embate pacífico para esta resistência ao que não nos convém. Os acomodados que mantenham suas posições, mas a nossa é mais louvável porque tem uma razão de ser, uma causa, um motivo, e por ele continuaremos a escrever como de há muito o fazemos.

Alguém de minha amizade por quem tenho muita admiração e respeito, que está também contra esta revisão ou reforma ou lá o que seja, fez-me esta observação no domingo ao descobrir algo que lamentou:

“Amigo Simões, exatamente como prevíamos o povo está preocupado em entender e usar a reforma ortográfica. Ninguém merece! ...risos... É por isso que eu digo que não adianta brigar porque, infelizmente, o nosso povo sempre se preocupa em seguir o que determinaram! Humildemente!”

Ele me mandara o endereço de certo site onde estão tentando explicar aquilo contra o que nos manifestamos. E afirmam que as suas aulas são preparadas com “muito humor e muita graça”. È, parece que julgam estar lidando com um brinquedo e ensinando a crianças! Mais adiante escreveu meu amigo:

“Estou torcendo muito por você, porque considero a sua luta muito justa! Já é tempo do Brasil reagir, mas realmente, fico muito desanimado quando vejo a "animação" das pessoas comprando dicionários e quebrando a cabeça para aprender as novas regras! Isto mostra a humildade de sempre!”

Obrigado, meu amigo, você é mais um de muitos que estão junto com tantos outros, entre os quais modestamente me incluo. Vejam que uma de minhas amigas recentes, a Gui, de Salvador, me lembrou o que disse sobre esta malfadada reforma ortográfica o prestigiado Professor Pasquale Cipro Neto, voz que não pode ser desprezada... "inútil e confusa essa reforma". – Pois é, Professor, não falamos num deserto, embora saibamos que há por aí muitos ouvidos moucos.

A mesma amiga acima, ao comentar um dos meus últimos textos, escreveu: “TRILHO A PACÍFICA DESOBEDIÊNCIA CIVIL ENSINADA POR GANDHI. NEM QUE O MUNDO TREMA EU ABANDONO O TREMA... MINHA IDÉIA NÃO FICA ÓRFÃ DE ACENTO E O MEU REESCREVER CONTINUARÁ CONSEQÜENTE CONJUGAÇÃO. TALVEZ EU ABANDONE O REELEGER.” -- Parabéns por sua lucidez, amiga Gui.

E encerro por agora com o que respondi a outro amigo, este propenso a aceitar essas “novas” regras, quando alegou que não gostaria que o acusassem de estar a escrever errado. Disse-lhe eu:

“No mais estou me lixando, meu amigo, se alguém vai dizer que eu estarei "escrevendo errado". Eu cantaria para as tais novas regras o que cantou o Chico Buarque para o General Médici nos anos 70... "Apesar de você, amanhã há de ser outro dia..." ...risos... Vou, mas volto, amigos.



(12 de fevereiro/2011)
CooJornal no 722


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
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