03/06/2011
Ano 14 - Número 738

ARQUIVO SIMÕES


Francisco Simões
em Expressão Poética

          

Francisco Simões



HORRIPILANTE MUNDO NOVO

 

Francisco Simões, colunista - CooJornal

Amigo, você já foi assaltado algum dia? Já ficou com um revólver, por uns 20 minutos, encostado na sua cabeça? Nem dentro do seu carro? Não? Pois olhe, pela lei das probabilidades da realidade atual, cuidado, o cerco pode estar se fechando.

Eu já passei por isso e nem queira saber como me senti. Aconteceu em plena cidade do Rio de Janeiro, em 1985, num estacionamento pago, ao lado do antigo Tribunal do Júri. Contei o ocorrido na crônica “Meu primeiro assalto”. Mas, vamos em frente em nossa “conversa”.

Você já esteve a perigo em outras ocasiões e escapou de assaltos que eram iminentes? Também não? Ihhh, mais atenção ainda, sua invencibilidade pode estar com data marcada para terminar. Não lhe desejo mal algum, a vida é que nos proporciona essas situações.

Imagine que já escapei de duas situações semelhantes a que me refiro acima. Numa delas foi por pura intuição, do contrário eu, minha então esposa e mais um antigo amigo, já falecido, teríamos sido assaltados na Avenida Marginal, em S. Paulo, à noite, quando voltávamos de um Festival de Filmes de Curta Metragem. Meu amigo queria seguir em frente, achou que eu exagerava quando chamei a atenção para o perigo iminente, porém depois ele confirmou que se não tivéssemos pedido ajuda numa casa próxima, por onde passávamos, não escaparíamos dos bandidos.

Em outra ocasião, também em S. Paulo, e igualmente voltando de outro Festival de Cinema, na cidade de S. Bernardo do Campo, no qual eu conseguira o segundo lugar com meu filme “A Última Essência”, em curta metragem, nós estivemos novamente expostos, de madrugada, no bairro do Ipiranga, ao esperarmos por um táxi para voltar pro hotel na cidade. Até ali nós havíamos ido de carona.

A cena de perseguição que sofremos minutos depois, dentro de um táxi, seguidos pelos bandidos em outro carro, foi digna de cinema também. Momentos de aflição e grande suspense. Graças à habilidade do motorista do táxi, e ao seu conhecimento das ruas por onde passamos, ele conseguiu despistar os marginais e chegar ao hotel, na capital, sem qualquer arranhão. Mais um lance de pura sorte. Essas duas situações ocorreram nos anos 70.

Você já pensou em um dia estar, por exemplo, a fazer uma deliciosa caminhada no calçadão de Ipanema, num lindo final de tarde, e de repente ser ameaçado por dois sujeitos, bêbados ou drogados, porém “armados” com uma barra de ferro, seguindo-o de perto e dizendo a todo momento que o iriam arrebentar? Se você corresse ou parasse eles com certeza não hesitariam em agir, todavia não sei como consegui tanto sangue frio e continuei caminhando como se não entendesse o que eles falavam. Não esbocei qualquer reação.

Foi aí que surgiram alguns casais vindo no sentido contrário, caminhando também, e os dois “valentões” covardes recolheram a quase agressão e se mandaram para outra rua. Eu estava em companhia de Marlene, então minha amiga e que cuidava de mim. Escapamos por muito pouco. Foi no ano de 2004.

Agora me diga, gente boa, se por acaso você já viveu momento de terror, de puro pânico, à luz do dia, acordando de sua sesta ao escutar seus cachorros latindo nervosos por ouvirem o que parecia fogos em profusão?! Só que eram tiros, e tiros da pesada. Tudo acontecendo em frente à sua casa. Já passou por isso?

Pois nós também vivemos uma situação dessas recentemente e ao ver o medo estampado nos rostos de toda a nossa família percebemos que não se está mais seguro em parte alguma. Um grito foi ouvido durante o tiroteio, depois um carro saindo em disparada e a seguir silêncio total, absoluto.

Escondidos no fundo da casa nós aguardávamos que a emoção nervosa voltasse ao normal. Você se percebe completamente indefeso, mesmo sem ter nada a ver com o fato acontecido. Minutos depois vizinhos começaram a surgir na rua, comentários variados, a polícia compareceu, mas preferimos nos manter longe daquilo tudo. Não era conveniente se envolver em nada.

O que realmente aconteceu? Tentativa de execução?! Depois ela foi confirmada. Não importa. O rádio e a TV nada comentaram. Você já se imaginou numa situação idêntica? Ah, nem quer saber de nada? Pois olhe, abra seu olho, gente boa, pelo que tudo indica você não tem mais nenhum lugar totalmente seguro, nem em sua casa. Você duvida? Pois vou lhe contar só mais uma historinha.

Outro amigo, que ainda está aí para confirmar, porém jamais eu o identificaria, há algum tempo atrás acordou de manhã com três marginais, dentro do seu quarto, apontando revólveres para ele e a esposa. Felizmente roubaram o que queriam e foram embora sem machucar ninguém.

Cheguei a dizer ao tal amigo que se ele tivesse uma arma, digamos, embaixo do travesseiro, e pensasse em usá-la, com certeza eu teria perdido um grande amigo naquele momento. A vantagem dos marginais é justamente a surpresa e se você ainda for se mexer para pegar uma arma... já era, meu bom amigo, já era.

Usei como título deste texto “Horripilante Mundo Novo”, lembrando do livro que li nos anos 70, “Admirável Mundo Novo”, no qual Aldoux Huxley faz uma crítica da sociedade futura que ele previa. Entretanto o mundo em que estamos mergulhados agora ultrapassa as “previsões” do autor em termos de horror.

Nem que tomássemos o tal “soma” diariamente, conseguiríamos viver alguma paz ou fora da realidade que nos cerca por todos os lados. Portanto se cuide, amigo, e boa sorte.
 

(03 de junho/2011)
CooJornal no 738


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
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