19/08/2011
Ano 14 - Número 749

ARQUIVO SIMÕES


Francisco Simões
em Expressão Poética

          

Francisco Simões



HOMOFOBIA DE BRAÇOS COM HIPOCRISIA
 

Francisco Simões, colunista - CooJornal

Meus amigos, nós costumamos assistir ao programa CQC da TV Bandeirantes, à noite, às segundas-feiras. Como ele começa num horário meio tarde, algumas vezes assistimos à reprise que ocorre na noite dos sábados, porém em horário bem mais acessível. Eles mesclam humor com reportagem num estilo diferente de tudo embora meio copiado de outro programa da TV Argentina, o que eles assumem. CQC significa “Custe o Que Custar”.

Nós gostamos do estilo com que eles fazem as coisas, embora eu saiba que nem todos gostam. Quero só lembrar que pelo menos isto é uma forma inteligente de fazer humor, sem dúvida alguma, dando às entrevistas um toque diferente, embora sem cerimônia, para não dizer agressivo, o que não acho que seja.

Mas o que me leva a escrever este texto é para contar a vocês uma excelente reportagem conduzida naquele dia pelo Rafinha Bastos. Para quem não sabe, o Rafinha é atualmente o líder em contatos, em termos mundiais, no tal twitter, espaço que não tenho utilizado para nada. Segundo li na imprensa ele só perde para o Presidente americano, o Obama. Nunca confirmei, mas não tenho porque duvidar da informação.

Na reportagem ele fez um preâmbulo em que dizia não acreditar no que lera na mídia em geral sobre que mais de 55% da população brasileira seria contra o casamento de homossexuais. Isto eu li também na imprensa escrita e vi na TV.

O Rafinha anunciou que exibiria diversas entrevistas feitas na rua com pessoas de idades diferentes, onde prevaleceu o sexo masculino nas declarações. Em seguida começaram a passar os depoimentos, inúmeros, e todos realmente defendiam ardorosamente a união entre gays e lésbicas.

Não sei se vocês assistiram, mas em verdade, ninguém, repito, ninguém disse ser contra por este ou aquele motivo. Todos os entrevistados que eles exibiram, e foram muitos, eram a favor. Ao final o bravo Rafinha Bastos fez um comentário, mas aí já se sentiu um tom jocoso em suas palavras.

Disse ele mais ou menos isto: “Viram, como podem concluir que mais da metade do povo brasileiro é contra a união de homossexuais se escolhemos aleatoriamente pessoas na rua e todas, sem distinção, todas, homens e mulheres se pronunciaram a favor, ressalvando que nada tinham contra?” Ele preparara uma “armadilha”.

Até aí tudo ia em certa direção. Depois o entrevistador, ou o Rafinha Bastos, voltou-se para a câmera e acrescentou: “Bem, agora eu vou mostrar para vocês como foi que as mesmas pessoas opinaram, falando comigo, enquanto pensavam que não estavam sendo filmadas e eu estaria com o microfone desligado.”

Ele quis mostrar justamente que muita gente é mesmo assim, hipócrita, falsa, mente sem a menor cerimônia, de forma que algumas vezes fica difícil você avaliar corretamente certo tipo de pesquisas. O resultado foi estarrecedor, amigos e amigas. Eles voltaram com cenas das mesmas pessoas que haviam participado de todas as entrevistas na rua e apenas puseram uma mancha no rosto para elas não serem agora identificadas.

Foi um recurso inútil, convenhamos, pois se via perfeitamente o corpo, a roupa das pessoas e tudo o mais das cenas que logo antes eles haviam levado ao ar. Percebia-se perfeitamente que se tratava das mesmas pessoas que haviam se declarado amplamente a favor do casamento de homossexuais.

Todavia, ao conversarem com o entrevistador sem saberem da filmagem e do som ligado discretamente, todas as pessoas, repito, todas, sem exceção, expeliram seu preconceito, ou para ser mais “delicado”, suas opiniões severamente contrárias não apenas ao casamento de homossexuais, mas também fizeram críticas e mais críticas à preferência sexual diferente da deles e delas.

Alguns homens chegaram a fazer questão de afirmar que eram machos, que gostavam de mulher, e que achavam muito feio (para não dizer nada mais forte) um homem gostar ou viver com outro, e assim para as mulheres.

Tudo bem, eu sou hetero, já casei três vezes, vivi muitas aventuras amorosas na juventude, porém sei respeitar o direito de meus semelhantes se sua preferência sexual não é igual a minha. Agir de forma diferente é demonstrar preconceito, ou pior, neste caso, homofobia.

Hoje temos visto inúmeros casos não só de agressão a homossexuais, como ataques com morte, antecedidas de muita violência. Infelizmente a maioria dessas agressões tem ficado impunes.

Os entrevistados não devem ter gostado deste recurso usado pelo programa CQC, mas eu achei excelente porque funcionou como uma espécie de denúncia da hipocrisia reinante em nossa sociedade, que tanto tenho criticado. Já disse e repito, vivemos hoje numa sociedade doente, padecendo de mal muito grave, mergulhada em hipocrisia, em preconceitos diversos, exibindo uma agressividade, uma violência que não valoriza a vida e nem respeita seus desiguais. Salve as exceções.

Isto não vale apenas para os homossexuais, mas também para os negros, mendigos de rua que constantemente vêm sendo assassinados de forma covarde, especialmente nas grandes capitais, enfim para a minoria pobre e desamparada que já é massacrada pelos governos no que se refere à saúde, aos transportes, à educação, etc.

Parabéns à TV Bandeirantes e também à equipe do programa CQC, por sinal incansável, sempre na cola dos maus políticos também, embora eventualmente sofrendo algum tipo de agressão dos que devem satisfação ao povo e não suportam quem lhes faça cobranças de forma direta, sem rodeios nem demagogia. Nota 10.
 


(19 de agosto/2011)
CooJornal no 749


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
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