23/09/2011
Ano 14 - Número 754

ARQUIVO SIMÕES


Francisco Simões
em Expressão Poética

          

Francisco Simões



A SOLIDÃO BEM ACOMPANHADA
 

Francisco Simões, colunista - CooJornal

Há momentos como este em que me encontro agora, que não estou completamente só porque me sinto em companhia de meus pensamentos, de minhas lembranças, recordações tantas, boas, ruins, doces e/ou amargas, num instante em que as únicas palavras são as que eu escrevo.

Não há conversa, não há diálogo, estou com minhas reflexões. Apesar disso, posso dizer que me faz companhia a música que vem de CDs de música instrumental, som que usei muitas vezes nas trilhas sonoras dos filmes de curta metragem que produzi nos anos 70. Agora me reencontro com ele tantos anos depois.

Uma busca nos arquivos onde ainda habitam inúmeros LPs, os discos de antes, em pacífica convivência com CDs, ainda modernos, mas já tendendo a cair em desuso. Maldita modernidade que subestima, que desrespeita hábitos, costumes, técnicas, idéias, e olha para o passado com certa indiferença e mesmo desprezo.

Eu estou bem mais antigo, ou vivido, para não dizer velho, já ele, o som dos Mestres, é eterno, ficará para sempre nas mentes e corações que apreciam a beleza de música da melhor qualidade, aquela que toca em nossos sentimentos, que nos enleva, que nos inspira a criar.

Neste exato momento me deixo envolver pelos acordes maravilhosos de um magnífico mestre da música instrumental. Refiro-me a Andreas Vollenweider, autor, entre outras lindas peças, de “Book of Roses” e “Letters to a Young rose”.

Nenhum outro som me procura, nenhuma voz me chama, até o telefone respeita meu momento de paz absoluta. Hoje é tão difícil conseguir-se paz e especialmente silêncio se estamos no meio da civilização. Eu estou neste instante entre paredes e janelas bem fechadas do meu apartamento nesta Ipanema que resiste a perder o que lhe resta de belo.

Para a “Garota”, de Tom e Vinicius, também o tempo passou. Deliu a imagem da menina linda que os inspirou a compor, embora pelo mundo afora aquela canção seja até hoje muito reverenciada. No Brasil muitos andam a pisar com desrespeito na herança esplendorosa que temos em nossa MPB, construída por músicos e poetas da melhor qualidade através de décadas.

É domingo, são quase 15 horas, há sol lá fora e o vento sopra forte e frio. Estamos quase às portas do final do Inverno.

Não me importo de estar só se estou tão bem acompanhado pelas lembranças que não ficaram para trás, não, mas que representam o meu passado, vida que ficou no tempo, porém que nunca apagaremos. Triste de quem tem vergonha do que viveu.

A vida é uma lição permanente, constante, devemos estar atentos aos seus sinais. Julgo que devemos aprender muito mais com nossos erros e acertos do que com o que outros procurem nos ensinar.

Exemplos podem ser bons, bem intencionados, todavia não existe lição melhor que aquela que aprendemos a tirar de nós mesmos. Machado de Assis escreveu em suas “Páginas Recolhidas”... “Comecei a aprender a parte do presente que há no passado, e vice-versa”.

Agora o Andreas Vollenweider também se retirou de minha companhia. Há tanto que escolher para eu continuar escrevendo e ouvindo. Decidi-me por lançar ao ar neste pequeno quarto/escritório, enquanto permaneço só, o som do antigo CD... “Musiques de Nuit”. Agora ouço o suave “Nocturne”, de Chopin.

Logo se seguem os acordes de “When all is Quiet”, de Michael Cettel. Só tenho ouvidos para este delicioso piano. Nada me falta neste momento, a solidão está perfeita. Até parece que consigo entender melhor a felicidade. Uma foto na parede me arremete ao passado, a emoção percebe se aflorarem sentimentos adormecidos.

É impossível controlar, a lágrima pede desculpas e vem umedecer uma das teclas que eu estou usando. Bendita lágrima, já me fizeste companhia por longo tempo, lembras? Eu estava então sem rumo, parecia que tudo terminaria ali, mas não, depois descobri vida onde a morte me abandonara sozinho.

Descobri o sentido maior da solidariedade, e mesmo aos tropeços fui me soerguendo. Sobrevivi, reencontrei-me e pude seguir caminhando.

Ouço agora o ruído da chave girando na porta da sala. Minha esposa, sua irmã e a filha voltam de uma incursão a algumas lojas.

Desperto para o real. A razão toma o lugar do meu devaneio. O som ainda permanecerá por alguns minutos, mas minha solidão bem acompanhada está interrompida.



(23 de setembro/2011)
CooJornal no 754


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
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