14/10/2011
Ano 14 - Número 757

ARQUIVO SIMÕES


Francisco Simões
em Expressão Poética

          

Francisco Simões



NA FILA DOS IDOSOS E OUTROS

Francisco Simões, colunista - CooJornal

O fato que lhes vou contar nunca me acontecera antes com a intensidade que este se deu. Lamentei, mas não fugi da raia, como se diz.

Estávamos num supermercado aqui de Cabo Frio, conhecido como FRICARNES. Ele se situa no bairro de S. Cristóvão, bem perto aqui de onde moramos.

Como minha esposa fora pegar mais uns dois produtos eu me dirigi com meu carrinho de compras para a fila que chamo de “Parque de Diversão”, a fila dos idosos, os que estão na segunda ou terceira “infância”, claro. Não havia ninguém.

A jovem caixa começou a me atender e eu tratei de avisá-la que minha esposa estava vindo com outro carrinho de compras. Quando a caixa terminava de marcar os meus produtos aproximou-se da mesma caixa outro senhor como eu, com o “telhado branco”.

A jovem logo o avisou de que minha esposa estava vindo com mais compras e eu confirmei o fato para ele. Nisso Lena encostou seu carrinho, cheio, e o puxei para perto de mim. O tal cidadão teve uma reação que não se justicava.

Ao ver que Lena não era idosa apontou para a placa e chamou a atenção da caixa. Claro que aquilo me incomodou, afinal ele fora avisado do fato por nós dois. Achei que deveria dizer algo e assim o fiz.

Tendo a atenção das pessoas que estavam na fila ao lado repeti para o referido senhor que eu também era idoso, que tenho 75 anos e que Lena era minha esposa. O sujeito olhou para ela, olhou para mim, e de repente riu de forma desrespeitosa, talvez querendo fazer algum tipo de insinuação.

Puxei minha Carteira de Identidade e fiz questão que ele olhasse nela minha data de nascimento. Fiz só isso, pois preferi admitir que o tal cidadão estaria pensando que eu tentava ajudar uma amiga, não idosa, e não agindo por algum tipo de preconceito. Ele não se aproximou, mas eu insisti para que olhasse minha Carteira.

Finalmente, meio sem graça, ele veio e olhou meu documento. Eu ainda lhe disse que não tenho nenhuma vergonha em dizer a minha idade, daí pedi que fizesse as contas e concluísse que realmente acabo de completar 75 anos. Assim eu estava na fila certa. Ele concordou, mas não pediu desculpas.

Mais, disse a ele, para que todos ouvissem, que eu não tinha culpa se minha esposa é bem mais nova do que eu, pelo contrário, até me orgulho disso. O cidadão entrou na fila ao lado e virou as costas para mim. Ganhei alguns sorrisos da outra fila.

Sinceramente não me agrada fazer aquele tipo de coisa, mas levar desaforo para casa, ainda mais na forma como aconteceu, meu pai ensinou que eu jamais deveria aceitar. Afinal o outro idoso desrespeitou mais à minha esposa que a mim.

Pulando para um exemplo bem negativo de outro idoso pelo seu comportamento reprovável, conto-lhes ao que assistimos, no Rio, no balcão de uma Drogaria, em Ipanema. Essa é mais uma história de idoso mal formado.

Enquanto eu era atendido por uma jovem, ao meu lado um cidadão de idade meio avançada gritava de forma absurda e descortês com a sua atendente. Esta apenas lhe pedira que anotasse num formulário o sexo e a idade. Aquilo é uma exigência atual e legal para a compra de certo medicamento antibiótico.

A esposa do mal educado pedia em tom de voz bem baixo, creio que envergonhada, que ele parasse com o escândalo desnecessário. Mas o grosseiro cidadão, alto e forte, berrava ainda mais forte e insistia que não colocaria o sexo muito menos anotaria sua idade no formulário.

Vali-me do fato de estar ali, bem perto dele, ombro a ombro, e perguntei a minha atendente se eu também precisava anotar minha idade para a compra que estava fazendo. Ela sorriu e me explicou que a exigência para o outro produto era recente, mas de lei. E afinal bastava ele anotar seu sexo e idade, apenas isso.

Falei para ela, de propósito, que eu não tinha nenhuma vergonha em declarar minha idade se necessário fosse e disse que tenho 75 anos. O cidadão se fez de despercebido, porém explodiu novamente com todos os megatons de sua falta de educação. A seguir ameaçou e cumpriu a ameaça.

Anotou no formulário que tinha apenas ... 50 anos. Quanto ao sexo deixou em branco, claro que em branco ficou também a atendente sem saber o que mais fazer. Aconselhada pela colega tocou o assunto pra frente. Ficou-me a dúvida mais atroz: por que ele se recusava a assumir o sexo que tem, ou deve ter?! Isto só sua esposa poderia esclarecer.

Ao chegarmos à caixa para pagarmos o que eu comprara lá novamente encontramos o dito “Hulk” da terceira idade agora a criar outro caso com a jovem que só queria receber o dinheiro e dar o troco. Pois foi no troco que o cidadão arrumou mais um motivo para esbravejar.

Falta de educação não é privilégio de ninguém, de nenhuma raça, de nenhum sexo, nem de qualquer faixa etária, claro.


(14 de outubro/2011)
CooJornal no 757


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
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