30/03/2012
Ano 15 - Número 780


 

ARQUIVO SIMÕES


Francisco Simões
em Expressão Poética

 

Follow RevistaRIOTOTAL on Twitter

Francisco Simões


O QUE É SER VELHO?

Francisco Simões, cokunista - CooJornal

O titulo desta crônica pode parecer a alguns uma pergunta sem sentido. Calma, gente, eu mal estou começando a me expressar. Em verdade vou colocar minha opinião sobre o assunto, passeando antes pelo que eu li numa bela entrevista do Dr. Paulo Niemeyer Filho, neurocirurgião, dada à revista “PODER”.

À pergunta que lhe foi feita: “O que fazer para melhorar o cérebro?” o ilustre entrevistado deu esta magnífica resposta com a qual concordo plenamente. Leiam, por favor, com toda atenção e reflitam nas palavras dele:

“Você tem de tratar do espírito. Precisa estar feliz, de bem com a vida, fazer exercício. Se está deprimido, reclamando de tudo, com a auto-estima baixa, a primeira coisa que acontece é a memória ir embora; 90% das queixas de falta de memória são por depressão, desencanto, desestímulo. Para o cérebro funcionar melhor, você tem de ter alegria. Acordar de manhã e ter desejo de fazer alguma coisa, ter prazer no que está fazendo e ter a auto-estima no ponto.”

Alguém mais apressadinho já deve estar a se perguntar: “o que tem isso a ver com a velhice?” Pois eu lhe respondo que tem tudo, amigo ou amiga, tem tudo. Os conceitos que ele exprime acima são válidos para toda uma vida não apenas para jovens ou quem tenha até uns quarenta anos, de forma alguma.

Aplique as sugestões do nosso Dr. Paulo Niemeyer Filho a você, se já passou dos sessenta, ou a nós que já ultrapassamos os 70 e seguimos em frente. Claro, se você é uma pessoa saudável e deseja viver o quanto puder sempre mais e melhor.

Entregar-se simplesmente porque sua vida já está bastante longa é um contra-senso. Por isso discordo toda vez que alguém me manda algo falando da velhice como se fosse uma condenação da própria vida. Desculpe você é que se condena se agir contrariamente ao que diz o entrevistado.

Repare que ele realça que você “deve estar de bem com a vida... tem de ter alegria... e a auto-estima no ponto.” Entenderam direitinho? Quanto a fazer exercícios tenho visto muita gente que já está para lá dos sessenta e alguns que já venceram até os oitenta anos ou mais a se exercitar nos limites do que lhes é possível, porém jamais desistindo de ser ativo porque se considere velho.

Nesta internet alguns parecem sentir prazer em repassar coisas que falam dos mais avançados em idade como velhos decrépitos, como se fossem inúteis ou condenados a um viver arrastado. Outros ainda acrescentam que “ser velho é muito triste”!! O pior é que vejo gente da minha idade ou próximo a ela (eu tenho 75 anos) que encampam essas opiniões e chegam até a estimular que não se faça exercícios entre outras sandices.

Há certo escritor, por sinal renomado, respeitado aqui e alhures, que quando resolve falar dele próprio, por já ter uma idade avançada, geralmente escreve textos nos quais realça seus problemas com a idade, “valoriza” o que ele diz não poder fazer por ser velho.

Jamais o li em algum trecho que, em respeito ao seu próprio corpo, o renomado escritor dissesse algo que considera bom em ter vivido tanto, nem mesmo pelas experiências que acumulou. Algo cheirando a masoquismo, ou como diz o dicionário: “Prazer que se sente com o próprio sofrimento.”

Este tipo de atitude eu acho triste. Certa vez escrevi uma crônica onde ousei “analisar”, na minha visão, o que o referido escritor dizia em seu texto “A Gente é Velho”. Vejam que ele se referia a ele próprio. Fiz minhas humildes e despretensiosas críticas às posições que ele assumira justo, por ser velho. A mim ficou a impressão de que ele valoriza mesmo, e muito, somente o que ele considera negativo em ter muita idade, ou em ser mais vivido.

Um grande amigo meu, professor, grafotécnico, psicólogo, escritor de contos, gente da melhor qualidade, hoje com mais de oitenta anos, ao ler minha crônica a que me refiro acima, escreveu-me isto: “Amigo Simões, lembro uma frase que li há tempos: "Não paramos de nos divertir por ficarmos velhos. Envelhecemos por pararmos de nos divertir." E a seguir o sábio amigo acrescentou: “Ficamos velhos quando paramos de sonhar. Ter idade, não é motivo para ficarmos velhos...”

Quando escrevi e divulguei aquela crônica que o renomado autor certamente jamais leu ou se interessou por lê-la, eu tinha apenas 71 anos. Recordo-me que a certa altura eu disse:

“Na minha modesta experiência de vida, 71 anos, viúvo duas vezes, caindo e me levantando outras tantas, aposentado há 20 anos, mas não deixando de trabalhar nunca, e jamais fugindo ao direito de viver, qualquer que seja a idade que Deus me conceda por merecimento ou castigo, digo que é velho quem pensa como velho, quem age como velho, portanto quem assume postura de velho.” Neste caso conheci pessoas que com apenas quarenta anos já pareciam anciãos.

Voltando à entrevista do Dr. Paulo Niemeyer Filho destaco mais esta resposta dele quando lhe perguntaram: “Existe algum inimigo do bom funcionamento do cérebro?” – Meus amigos, a resposta foi mesmo direto ao ponto:

“Todo exagero. Na bebida, nas drogas, na comida, no mau humor, nas reclamações da vida, nos sonhos, na arrogância, etc. O cérebro tem de ser bem tratado como o corpo. Uma coisa depende da outra. É muito difícil um cérebro muito bom num corpo muito maltratado e vice-versa.”

Afirmo que não existe nenhum desdouro em se ter muita idade, ser mais vivido que a maioria, ou mesmo usando o termo que tantos apreciam e é verdadeiro, ser velho, de forma alguma. Até há pouco tempo as empresas andavam a desprezar os funcionários mais antigos e até programavam aposentadorias, dando-lhes algum “incentivo” em dinheiro, valorizando os mais jovens.

Agora isso também mudou, estão a chamar de volta pessoas que já estavam aposentadas e se valendo de sua experiência, de seu conhecimento acumulado, e naturalmente de seu talento, estes orientam funcionários mais jovens que têm muito a aprender com eles, os mais velhos. A mídia tem noticiado muito este fato.

Termino da mesma forma como eu fiz em Novembro/2007 quando escrevi me dirigindo ao ilustre mestre das palavras cujo nome agora omitirei. Disse eu:

“Para encerrar, um acordo: sei que você não vai mesmo tomar conhecimento do que escrevi, então eu continuo seu fã, seu leitor, respeitando-o como mestre das palavras, e você, caro ....., esquece este “veio” que ama a vida, e que teve a pretensão de se meter nos seus assuntos. Afinal você tem todo o direito de se considerar velho, pronto.”
 

(30 de março/2012)
CooJornal nº 780



Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
http://www.riototal.com.br/expressao-poetica/francisco_simoes.htm
www.francisco-simoes.com

Direitos Reservados