22/06/2012
Ano 16 - Número 792


 

ARQUIVO SIMÕES


Francisco Simões
em Expressão Poética

 

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Francisco Simões


O SILÊNCIO IMORAL

Francisco Simões, cokunista - CooJornal

Desculpem, mas talvez fosse melhor eu ficar calado. Afinal o que eu vou dizer diante do quadro que está aí, que se repete quase diariamente nos noticiários das TVs e é transmitido ao vivo pelos canais do Senado e da Câmara? E tantos escrevem, e tantos falam, críticas ferozes e de que tem adiantado? Estariam preparando mais uma pizza, esta certamente gigante, envolvendo partidos governistas e da oposição?

Confesso que não só estou cansado, muito cansado, como minha desilusão com esta classe de governantes, incluídos os políticos, de ambos os sexos, já ultrapassou a raia do suportável. Não dá mais. A disposição de luta de minha juventude ficou na poeira do tempo.

Baixei sim minhas “armas”, joguei ao lixo minha ilusão de mais de 7 décadas quando ouvi tantas vezes meus pais e avós repetirem que este seria o país do futuro. Eles acreditavam, e nem brasileiros eram, eram portugueses.

O futuro está aí, mas e daí? Sinto-me esgotado de ver tanta “cara de pau”, de ouvir tantas mentiras que juram serem verdades, de assistir a conchavos, acordos espúrios, posições controversas que, sem qualquer cerimônia, formam alianças as mais vergonhosas. E o povo? Sempre à margem de tudo.

Sim, mas chegam as eleições e nossa gente volta a ser “obrigada a votar”. Felizmente eu não sou mais, pois aos quase 76 estou fora desta listagem. Ocorre que se ainda obrigado fosse, repito o que tenho dito, me consideraria obrigado, sim, mas a comparecer à seção eleitoral. Apenas isto.

Você não entendeu? Pois eu lhe explico. Dentro da cabine eleitoral qualquer um faz o que bem entender com o seu voto. Inclusive pode tomar atitudes que antes condenaríamos, porém agora vemos serem as mais convenientes.

Usar o voto como “arma” para demonstrar o seu repúdio a este estado de coisas, a essa politicagem rasteira, vergonhosa, indecente, porque corrupta ao extremo, porque zomba de todos nós, eleitores “intimados a votar”. Sabemos que nossos políticos quando começam a ver eventualmente a “coisa preta”, as diferenças se unem e as divergências viram convergências de interesses espúrios.

Você ainda acredita em oposição política neste país? Cuidado, de repente você pode se descobrir crendo até em Papai Noel, meu bom amigo, minha boa amiga. Nenhum deles está a fim de puxar a corda que pode amanhã “enforcar” o pescoço alheio, pois sabem que a seguir podem eles passar de algozes, a vítimas. Apenas fazem um joguinho de cena, tal como atores fingidos e péssimos intérpretes.

Afinal não tem santo nesse cenário político que aí está. Eu sou daqueles que já acreditei, sim, já acreditei em pessoas que hoje me provocam asco. Os que eu condenava antes confirmo agora que também não são flor que se cheire, pois dividem interesses comuns com os mesmos que eles atacam tantas vezes.

Sinceramente eu começo a crer que o tal Cachoeira não passa de uma miragem, de algo que está ali, sentado, com aquela expressão cínica, zombeteira, mas verdadeiramente não existe.

Afinal após tantas denúncias, tantas e eventuais comprovações por gravações de telefonemas, muitas provas contundentes, denunciados juram que nunca o viram, que nunca falaram com ele, que nunca fizeram qualquer negócio com o dito cujo, quando muito o cumprimentaram no dia do aniversário dele... Ué, não se conheciam, jamais tiveram contatos, mas sabiam o dia do aniversário do cara?!

Gente amiga, vocês me conhecem há muito tempo, me respondam, por favor: eu tenho cara de palhaço? Eu sou um mentecapto, um néscio?

Depois de ver tantos “habeas corpus” favorecendo pessoas denunciadas que deveriam depor, mas que a própria Justiça lhes dá o direito a não falar, depois de ouvir repetidamente até o principal acusado num processo interminável de milhares de páginas, gravações, etc e tal, dizendo com a fisionomia de um “inocente” que usaria o tal direito constitucional de ficar mudo, isso durante horas, que mais nos resta fazer? Pra que tanta palhaçada? E quanto custa a nós cada sessão daquelas?

Então as leis, a nossa Constituição, e a própria justiça preservam assim com tanto denodo “direitos” de supostos bandidos, corruptos ou assassinos? Por quê? Por que pessoas denunciadas por variados delitos e que pertencem ao grupo do “colarinho branco” conseguem sempre o apoio de advogados caros e competentes?

Claro, afinal eles podem pagar. Talvez o fruto do crime, ainda não comprovado, deva ajudar de alguma forma, em certas vezes, e quando sua “inocência” acaba sendo comprovada (!!), os ilustres causídicos ganham mais prestígio.

Ou acham que um ex Ministro da Justiça, antes baluarte na defesa dos direitos humanos de pessoas atingidas pelo golpe militar, que elaborou o processo que levou o Governo de Collor de Melo ao “impeachment”, tão comemorado por nosso povo, estaria agora sentado ao lado da tal “miragem” chamada Cachoeira como seu advogado, por quê? Por acreditar na provável inocência do influente e provável corrupto? Como dizem popularmente: me engana que eu gosto!

Afinal se eu fosse dizer tudo que penso da tal Lei que dá guarida a “direitos” de pessoas suspeitas, como de todos os denunciados por provas e evidências tantas obtidas pela Polícia Federal, com a autorização da Justiça, entre outros documentos, eles que têm permanecido calados no ambiente das CPMI e das Comissões de Ética, eu é que poderia ser “julgado mal”. Assim sendo guardo no meu peito a minha revolta maior.
 

(22 de junho/2012)
CooJornal nº 792



Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
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