29/06/2012
Ano 16 - Número 793


 

ARQUIVO SIMÕES


Francisco Simões
em Expressão Poética

 

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Francisco Simões


IPANEMA, DE MAL A PIOR

Francisco Simões, cokunista - CooJornal

Na nossa mais recente ida ao Rio, com estada de duas semanas em Ipanema, tomei alguns choques que se traduziram em grandes decepções ao andar pelas ruas, especialmente a Visconde de Pirajá.

Um dia fomos procurar uma tradicional sapataria naquela avenida, entre a rua Aníbal de Mendonça e a Henrique Dumont, onde sempre comprei meus chinelos, sapatos e tênis. Ainda no ano passado, 2011, quando lá estivemos, adquiri mais um.

Chegando ao local onde deveria estar a referida sapataria percebi que ela sumira. Aquela loja tão antiga que eu freqüentei por décadas não mais existia. No lugar dela está agora uma (ou mais uma) Droga Raia. Acontece que bem ao lado desta há, já há muito tempo, outras duas lojas da Drogaria Pacheco.

Significa que em poucos metros de um mesmo quarteirão temos três vendedores de remédios porque nosso povo deve estar realmente muito, mas muito doente. E logo nos quarteirões seguintes encontramos mais Farmácias, e quantas! Temos por aqui, no Brasil em geral, a cada quarteirão, tantas Farmácias quanto em Paris os franceses têm de Livrarias, sabiam?

Bem perto da sapataria fechada havia outra loja que agora foi substituída por uma agência do Banco Itaú. Em verdade o que mais encontramos hoje em dia em nossas ruas são Bancos e Farmácias. Se você ainda não se dera conta, preste atenção.

Mais adiante, do outro lado da Visconde, fomos até uma padaria e confeitaria, também tradicional, cujos donos eram portugueses e nossos conhecidos. Quando lá chegamos, outro espanto: não se vende mais pão ali, mas sim remédios também. Agora há lá uma filial da antiga Farmácia Venâncio que tem se espalhado aqui pela zona sul. Não há dúvida de que nossa gente deve estar muito doente, amigos.

Nós temos alguns poucos lugares eleitos para ali fazermos nosso lanche ao meio da tarde. Gostamos de ir aonde somos reconhecidos, bem atendidos, e nos oferecem o que nós gostamos e de boa qualidade. Em toda Ipanema temos talvez somente umas cinco lanchonetes ou confeitarias dessas.

Uma delas, onde até jantamos algumas vezes, é, ou era, o Chaika, logo ali após a Igreja de Nossa Senhora da Paz. Antigo, tradicional e simpático, ali, no passado, quatro casais costumavam se reunir para jogar conversa fora enquanto jantavam. Éramos eu e minha saudosa segunda esposa, além dos amigos Renato Campos, Floriano Albuquerque e Leoncídio Carvalho e suas esposas.

Ali também conheci pessoalmente, há cerca de uns onze anos, a amiga Irene Serra e seu marido, o Luís Guedes (Rio Total). Com Marlene também lanchamos e jantamos no Chaika algumas vezes. Naquele dia eu pedira à Lena para irmos lá matar saudade, mas quando olhei para o outro lado da rua, nova surpresa: não há mais o tradicional Chaika. Pelo que soubemos já está fechado há meses. Será que colocarão lá nova Farmácia?!

Outro dia íamos passeando novamente pela Visconde na direção da Praça General Osório. Logo há uns 5 quarteirões da nossa Aníbal outro susto, e este foi mesmo dos grandes. Quase na esquina da famosa rua Vinicius de Moraes havia, há muito tempo, a Livraria Letras e Expressões. Eu a visitava quando vinha ao Rio. Depois inauguraram uma bem maior aqui perto de nós, a Livraria da Travessa. Não confundir com a filial do Leblon que fica num lindo Shopping.

Mas quando nos aproximamos da Vinicius eu confirmei a suspeita que minha boa vista me denunciara á distância: a Livraria Letras e Expressões já era. Alguém adivinharia o que está agora no lugar dela? Pois é, mais uma filial da Drogaria Venâncio. Devíamos vender mais livros do que medicamentos, mas nosso povo não precisa de cultura, talvez precise mesmo muito mais é de remédios.

Pensar que há mais de dez anos eu senti muito quando vi fecharem a Livraria Siciliano, então localizada logo após a Aníbal de Mendonça, na Visconde de Pirajá. No referido lugar logo inauguraram uma loja de roupas femininas. Foi no ano de 1999. Achei que deveria me manifestar e escrevi a poesia “Cultura de saia curta”.

Vou apresentá-la a vocês aqui embaixo enquanto me despeço esperando que na próxima volta a Ipanema eu não tenha que ver a rua Visconde de Pirajá também com o nome mudado. Quem sabe, não é?

A minha cidade, a minha rua,
Estão ficando mais pobres,
Estão ficando mais nuas.

Despiram-nas de alguns teatros,
Cinemas, já nem sei quantos,
Mas ainda me causa espanto.

E entre um estupro e um assalto,
A cultura, de mãos para o alto,
Assistiu a um assassinato:
Fecharam outra livraria.
Contos romances, poesias, que dia!

Nem as prateleiras respeitaram,
No seu lugar penduraram
Peças, mas de roupas femininas.

A indiferença passa e nem disfarça,
E a minha rua ficou mais nua
Para bem vestir as meninas!


(29 de junho/2012)
CooJornal nº 793



Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
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