13/07/2012
Ano 16 - Número 795


 

ARQUIVO SIMÕES


Francisco Simões
em Expressão Poética

 

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Francisco Simões


A QUE LEVA ISSO, DETRAN?

Francisco Simões, cokunista - CooJornal

Meus amigos e amigas, eu escrevi e divulguei em Julho/2005 uma crônica sobre uma situação de exame que passei em uma das tais “clínicas especializadas” que o DETRAN seleciona. Quem quiser lê-la pode pedir que eu a envio. Minhas divergências com o DETRAN já vêm de longe e não são meras implicâncias, não, e sim críticas bem sedimentadas e que reforçarei neste texto, hoje.

Nesta semana eu tive que me submeter a mais um exame para renovação de minha carteira de motorista. Estou hoje com 75 anos. O computador selecionou uma das clínicas onde eu já fizera exame antes e fora muito bem atendido por um médico sério, correto, que não inventava detalhes para fustigar o candidato. Fui há 3 anos aprovado em cerca de 5 minutos e ainda com direito a elogio. Tudo bem.

Desta feita achei que iria encontrar o mesmo examinador, porém lá estavam duas senhoras, examinadoras, uma mais jovem, bem simpática, educada, cumprimentou a todos e sorria fácil. A outra, magrinha, não tão jovem, passou em silêncio e nem deu boa tarde a ninguém. Sua expressão era de quem parecia zangada com a vida. Tipo da pessoa que faz questão de parecer antipática, achando que se sorrir perde a autoridade. Há pessoas assim, acreditem.

Infelizmente dos três primeiros que foram chamados, logo eu fui mandado para esta segunda examinadora. Entrei, dei boa tarde, mas a resposta foi uma “ordem” para eu me sentar e colocar meus olhos na máquina do exame de vista. Comecei acertando tudo, cores, sinais e as primeiras letras, ainda de bom tamanho. Até a quarta fila acertei todas as letras quando então essas começaram a ficar pequenas demais. Acreditem, depois das pequenas vieram outras menores ainda.

Claro que fui tendo dificuldade para definir as letrinhas, e resolvi perguntar: “Senhora, me desculpe, mas a que leva isso, exigirem que tenhamos que ler com óculos para longe, letras tão insignificantes?” Resposta: “Limite-se a ler, se puder”. Senti logo o clima e me lembrei de tudo que passei há seis anos em outro desses exames. Naquele me foi exigido tanta coisa absurda que a mim parecia estar fazendo exame para ir servir ao Exército, e eu estava já com 69 anos.

Não me restou se não me esforçar para ir lendo, como pudesse, uma ou outra das muito minúsculas letras, quase imperceptíveis. Um absurdo. A cada letra eu procurava falar como todo mundo faz, por exemplo, letra “b”, de bola, letra “c” de casa, e novamente ela me repreendeu: “Limite-se a ler somente as letras”. Como eu não acertasse todas, o que seria impossível, resolvi parar.

Então a braba examinadora, em tom meio autoritário e zangado, me perguntou: “Há quanto tempo o senhor não vai a um oftalmologista verificar seus graus de lente?” Ah, amigos e amigas, aí ela se deu mal, pensou que me jogaria contra a parede e fui eu que a pus no paredão cheio de moral e de razão. Levantei a cabeça, tirei os óculos, olhei-a sério e respondi:

“Minha senhora, pensando justo no exame que eu viria fazer neste mês de Julho, em Maio fui à consulta, com minha esposa, na melhor oftalmologista desta cidade, ali na Clínica de Olhos, tão afamada, que a senhora deve conhecer. Saiba que ela fez um exame profundo e me cumprimentou porque meus graus haviam sido reduzidos, o que, aliás, já acontecera há três anos também.” A examinadora permanecia calada e me olhando. Voltei ao ataque:

“Fiz os novos óculos na Ótica Basílio, uma das melhores desta cidade, cujo dono é nosso amigo há muitos anos e ao recebê-los levei-os para a oftalmologista conferir. Tudo ok, e fui liberado. Portanto minha senhora, meus óculos estão perfeitos, talvez a exigência deste exame é que esteja....” Aí ela me interrompeu e pediu que tentasse ler mais algumas das letrinhas que com certeza nem ela leria. Ainda perguntei se ela desejava ver o papel da minha consulta com a oftalmologista, em Maio, e que estava na recepção com minha esposa. Ela o dispensou.

Neste momento pelo menos ela mostrou seu oculto lado mais educado e sugeriu que eu me levantasse e procurasse olhar, na máquina, mas usando a parte de cima dos meus óculos, na qual, segundo ela, pode-se obter um foco mais perfeito das lentes. Agradeci e continuei o teste aos trancos e barrancos.

Logo depois ela preferiu mudar a tática e jogou cores para eu identificar. Em seguida ela acendeu uma luz forte contra meus olhos para, logo depois a apagar e eu dizer a letra que estava vendo. A luz forte visa a confundir nossa vista, mas conheço o “truque”, a letra que surge vem bem na parte debaixo e se você se fixa na luz que apagou acaba se confundindo. Respondi de imediato: “Letra A”.

Apesar das críticas e reprimendas que ela me lançara durante o exame talvez tentando me confundir, sei lá, (o máximo que conseguiu foi mesmo me irritar) o fato é que ao final do exame, sempre sem sorrir ou dizer qualquer palavra amável, ela carimbou e assinou o papel e disse para eu pegar minha nova carteira de motorista na próxima segunda, renovada por três anos. Enfim parece que não fui tão mal quanto ela quis me jogar na cara antes.

Eu já passei por situações as mais diversas nesses exames para renovação da carteira de habilitação, o que prova que o DETRAN não traça uma norma de conduta para que seus examinadores a usem. Cada um age como bem lhe apetece. Repito que há uns seis anos passados só faltei ser torturado num exame como eu nunca tinha visto antes. Aliás, todos aqui odeiam o tal examinador e não é à toa. Ele não é mais exigente que outros, apenas exagerado. E continua atuando!

Pergunto então: a que leva isso senhores do DETRAN? Preocupam-se tanto com nossa visão, no entanto não dão a mínima para examinar o lado emocional dos motoristas. Não usam testes psicológicos ou semelhantes, preparados por especialistas, por quê? A grande maioria dos acidentes com mortes sabe-se que a culpa é da irresponsabilidade de quem dirige. Isso não interessa evitar?

Todos enxergam e muito bem, mas levam para o trânsito e para as estradas seus problemas pessoais e vivem a provocar catástrofes diariamente. Acordem senhores do DETRAN, esses exames não provam nada, ou quase nada. Apliquem, por favor, testes psicológicos feitos por especialistas no assunto a cada novo exame de renovação de carteira. Mas comecem já, pois já está muito tarde.


(13 de julho/2012)
CooJornal nº 795



Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
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