28/09/2012
Ano 16 - Número 806


 

ARQUIVO SIMÕES


Francisco Simões
em Expressão Poética

 

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Francisco Simões


O TEATRO DO HORÁRIO ELEITORAL

Francisco Simões, colunista - CooJornal

Sempre que programam eleições logo somos “presenteados” com o Teatro do Horário Eleitoral. No fundo o contexto, ou a “peça”, é sempre a mesma, podem eventualmente entrarem novos “atores” e “atrizes”. Geralmente está mais para teatreco (teatro insignificante, ordinário, teatrelho, como diz o dicionário).

Os atores candidatos a cargos majoritários, no caso atual o de Prefeito, interpretam sempre um papel do bom moço. Sorriem com uma facilidade impressionante, nem sei como não têm câimbras nas bochechas.

Adoram abraçar e beijar senhoras, crianças e gente de mais idade. Faz parte do roteiro da peça teatral. Como eu disse acima o contexto é sempre o mesmo e os textos dos atores e atrizes também. Eles só não gostam quando em entrevistas fazem perguntas que exigem respostas que os levam ao ridículo ou ao descrédito. Adoram entrevistas combinadas, tudo certinho. A mentira como tema central.

A gente já sabe de cor o que eles vão dizer em toda representação. Os da situação lembram suas “grandes obras” ainda que a impostura seja uma tônica, porém precisam repetir e mais repetir o mesmo texto. Há sempre quem acredite, daí...

Se podem se reeleger o texto adrede preparado lembra ao público que em quatro anos não deu para realizarem tudo que pretendiam e pedem mais quatro para “completar” as tais obras. Esta palavra tem vários sentidos, e vocês podem levá-la para aquele que melhor lhes convier.

Eles visitam comunidades muito carentes, paupérrimas, não deixando de salientar que já estiveram em piores condições, mas que logo tudo vai melhorar. Aí é que entra a necessidade de mais quatro anos, percebem? Só não dizem que, se eleitos jamais voltarão àqueles lugares, claro. Faz parte do contexto, sempre.

Os pobres coitados, atores coadjuvantes, em troca de alguns caraminguás, elogiam o ator principal do horário, ressaltam suas qualidades, outros lhe dão aleluias, e juram que sem ele, ou ela, tudo poderá ser bem pior. E há sempre quem acredite. Pobres sequazes sem direito a opinião própria.

Alguns que sempre se odiaram, que tiveram desavenças no passado, que eram, digamos, inimigos figadais, de repente resolvem unir forças, dar seu apoio a quem juraram jamais sequer olhar. Sempre há alguma “moeda de troca” que não é revelada na peça, ou no contexto, ao público, evidentemente. Mas o acerto chega depois, caso dê certo.

O pundonor, a honradez, a ética, a dignidade, e mesmo a vergonha na cara não chegam a ser considerados até porque os atores ou atrizes que agem daquela forma sequer alguma vez exerceram aqueles sentimentos. Não esqueçam que esta peça teatral tem como pano de fundo a política.

E nos vão impondo aquele teatro de péssima qualidade todo dia, três vezes ao dia, por mais de um mês. É comovente, para quem se comove com qualquer asneira dita, feita ou mostrada, as cenas em que alguns daqueles atores aparecem em companhia de seus familiares.

Isto é mais antigo que andar pra trás, mas alguns atores ainda apelam para este “recurso”. Vide atores das eleições em Cabo Frio. A família reunida mostra o próprio retrato apelativo quando faltam argumentos.

Os atores e atrizes de segunda linha, que pretendem alçar vôos para cargos do tipo vereador/a, se nos massacram com tanto mau gosto também são massacrados pela falta de tempo para tanta gente dar seu “recado”. O nível, se existe, é muito, mas muito baixo mesmo. Uma lástima.

O público que consegue assistir a um espetáculo daqueles, dependendo dos fracos atores e atrizes e seus “desempenhos”, classifica aquilo de teatro de comédia. Um desfile de baboseiras, algumas tão ligeiras que nem dá tempo de se saber de quem se trata. Um teatrinho da pior qualidade como soe ocorrer em todas as eleições.

Muitos atores e atrizes de segunda linha sequer têm chance de falar, são apenas mostrados, é o teatrinho mudo imposto por haver muito, mas muito mais candidatos do que cargos. O teatro do ridículo atinge o seu auge. Entre tantas tolices proferidas quando um desses atores ou atrizes chega a falar anotei uma que é um “primor”: “Defenda os animais, vote ....” e ele só disse o número.

Outro usa o seu apelido pessoal e brada: “Tonelada neles, gente...” Ouvi outro ser apresentado como “O Manuel do pastel...” e uma jovem, vestida com uniforme da Limpeza Urbana, afirmar até com muito orgulho: “Gari, sim..” e a seguir disse apenas o seu número. Outro, sorrindo mandou esta jóia: “Se não tem nenhum, vote no Nahum...” E nós como ficamos?!

Nesse desfile interminável de informações que não dizem nada, que não justificam qualquer candidatura, que não nos garantem absolutamente nada sobre o preparo do ator ou atriz candidatos você votaria em pessoa assim apresentada?

Alguém talvez me dissesse (ou já me disse) que excluí-los é ser “elitista”!!! Meu Deus, então você votaria no Tiririca? Concordou com a eleição dele para Deputado Federal? Você que preza tanto o seu voto faria isso?

Se for pela ficha limpa, sinceramente acredito que a do Tiririca seja limpíssima, um humorista e palhaço honrado e engraçado, ou competente no que faz. E ele teve a coragem, ao ser eleito, de declarar na primeira entrevista que eu ouvi: “Eu não entendo nada disso, não faço a menor idéia do que terei que fazer, etc...”

Aí está um cara verdadeiro, autêntico, mas que no máximo deve estar em Brasília “administrando” um Gabinete com dezenas de amigos que deve ter nomeado para seus secretários, já que ele tem direito a isso. É o que você quer para o Brasil?

Não esqueça que Tiririca foi um ator do teatro do Horário Eleitoral paulista que dizia apenas isto repetidamente: “Vote em Tiririca, pior do que está não fica.”

Aqui eu desço o pano deste teatrelho deixando com todos vocês muitas dúvidas, incertezas, um embaralhar de idéias e opiniões, sabendo que votem em quem votarem, considerando o quadro atual desta política brasileira, logo estarão reclamando e botando novamente a culpa no povo. É mais cômodo, o povo tem as costas quentes, o povo é que não sabe votar, né? E você, sabe? FIM.



(28 de setembro/2012)
CooJornal nº 806



Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
Conheça um pouco mais de Francisco Simões
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
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