07/12/2012
Ano 16 - Número 817


 

ARQUIVO SIMÕES


Francisco Simões
em Expressão Poética

 

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Francisco Simões


HOMENAGEANDO QUEM MERECE

Francisco Simões, colunista - CooJornal

Por diversas vezes já rendi tanto aqui como em meu site pessoal minha modesta homenagem a várias pessoas que foram e/ou ainda são importantes em minha vida. Colegas, amigos de infância, alguns da antiga guarda do Banco do Brasil, outros que têm se destacado seja como contistas, escritores, poetas, etc.

Felizmente alguns eu tenho conseguido homenagear em vida, embora outros eu tenha feito questão de homenageá-los “in memoriam” por tudo que representaram ou que influíram em meu viver ajudando-me desinteressadamente para que eu conseguisse alcançar certos objetivos. É o caso do homenageado de hoje.

A última vez que falei com ele foi num telefonema para Belém no ano de 1985. Eu programava minha aposentadoria e precisava do testemunho de alguns com os quais eu trabalhara no rádio paraense para ganhar mais uns quatro anos a que tinha direito pelo INSS. Cheguei a ligar para uns cinco e embora uns dois tenham feito questão de dizer que não se lembravam de mim ele me acolheu com uma alegria que só verdadeiros amigos sabem expressar após tantos anos sem nos vermos ou falarmos.

Já contei que desde criança eu montara a minha “rádio no porão” e ali brincava de locutor. Montei microfone com pedaço de pau, lata furada, usava recortes de jornais com notícias, anúncios e algumas crônicas. Ali ia nascendo aos poucos o radialista de depois. O sonho tinha força suficiente para chegar a ser real um dia.

Mas como nos conhecemos? Como se iniciou aquela amizade para toda a vida? Eu era ainda bem jovem, estava com 16 anos, e me inscrevera no programa de calouros da recém inaugurada Rádio Marajoara. Foi numa tarde de sábado que, carregando minha então forte timidez, subi naquele palco pela primeira vez. O comandante do programa era Jaime Bastos com quem tempos depois eu acabaria trabalhando. Mas quando telefonei em 1985, este disse “não se lembrar de mim”.

O Programa de Calouros colocava todos, como se diz popularmente, no mesmo saco. Eu concorria como um simples locutor comercial, outros cantavam ou tocavam instrumentos etc. Resumindo eu consegui ser finalista, ou melhor, fomos dois os finalistas, eu e um jovem que tocava e muito bem uma gaita de boca. Minha “torcida organizada”, especialmente a feminina, estava sentada nas primeiras filas, todavia eu necessitava de muito mais que aquilo para ser vencedor.

Concorrer como locutor contra um magnífico instrumentista era muita pretensão achar que eu ganharia. Deu a lógica, perdi para ele. Fiquei em segundo lugar. Ocorre que na platéia estava sentada aquela pessoa que eu não conhecia um radio ator e locutor da mesma Rádio Marajoara. Ao final do programa, percebendo minha decepção, ele se aproximou de mim e elogiou minha participação. Disse que eu tinha uma bonita voz, que eu levava muito jeito para ser locutor.

Perguntou se eu realmente queria chegar a atingir este objetivo ou estava ali apenas de passagem? Contei a ele todo o meu esforço desde criança e que ser radialista era um sonho que eu perseguia. Então ele me perguntou se eu aceitava a ajuda que ele pudesse me dar para alcançar o objetivo. Afirmou que dali a alguns meses a Marajoara iria ter que realizar o segundo concurso para locutor a fim de completar seu quadro e até lá ele pretendia burilar o que eu ainda tinha de forma meio embrutecida na voz.

Aceitei e assim em alguns dias eu comparecia à rádio, autorizado por ele, sempre nos horários em que ele trabalhava. Eu permanecia na cabine, sentado em frente ao amigo que, quando acabava de ler seus textos e colocava música para tocar mandava o homem da técnica abrir o microfone internamente. Imaginem minha expectativa sentado ali como um profissional, diante de um microfone inglês dos melhores da época, a ler textos verdadeiros. O amigo ia para a sala ao lado, onde ficava o técnico de som, e lá ouvia minhas leituras.

Vez ou outra ele me elogiava, mas havia momentos em que vinha puxar-me as orelhas quando percebia algum deslize meu errando ao ler algo. Se preciso ele me xingava, mas logo depois sorria. Jamais deixou de me incentivar, de me indicar como me posicionar ante o belo microfone ou como usar as entonações de voz. Essa etapa de treinamento no estúdio da própria rádio durou um bom tempo, porém meus familiares nem desconfiavam do que eu estava fazendo.

Não esqueçam que eu ainda freqüentava o Colégio Nazaré cursando o Científico, como se chamava naquele tempo. Meus pais não aceitavam a idéia de eu trabalhar enquanto estudava para não me prejudicar. Por isso eu nada podia dizer-lhes. Certo dia foi anunciado pela Rádio Marajoara seu segundo concurso para locutores. Às escondidas eu me inscrevi. Algumas irmãs minhas só estarão tomando conhecimento desta minha decisão agora, lendo esta crônica, acreditem.

Foram 50 os candidatos inscritos e submetidos a diversos testes, porém apenas dois foram aprovados, o Clodomir Colino, já ator da Marajoara e meu colega de turma no Nazaré sendo o primeiro aluno da turma, e eu. Clodomir já partiu desta vida e também foi homenageado por mim já algum tempo atrás. Era apenas o começo de uma longa caminhada até o profissionalismo.

Se Clodomir foi o primeiro a me cumprimentar, pois soube do resultado junto comigo, o seguinte foi o amigo homenageado que tanto me ajudara para eu poder concretizar o meu sonho de porão. A Rádio ainda nos submeteu a um período de teste prático por longos três meses.

Um dia um de nós abria a programação da emissora, trabalhando das 6 às 8 horas da manhã, e no dia seguinte fazíamos a parte final da programação diária, das 22 até meia-noite. Notem que durante esses três meses a emissora nada nos pagou e nem nos considerava ainda como profissionais. Somente assumimos após nos aprovarem no longo período de testes práticos já atuando na Rádio Marajoara.

Reconheço que para além do meu esforço pessoal, do meu empenho desde criança para realizar este sonho, aquele amigo teve fundamental importância no meu sucesso, se posso dizer assim. Os treinos a que ele me submeteu valeram e muito, com certeza. Perdi como calouro, todavia venci como profissional de rádio. Mas devem estar curiosos: como se chamava aquele grande amigo?

Ele era locutor profissional, radio ator da melhor qualidade, professor a nível universitário e falava fluentemente diversos idiomas. Seu nome: Gelmirez de Melo e Silva. Era casado, separado e tinha um filho. Como ninguém é perfeito, sei que alguns torciam o nariz para ele. Havia nessa atitude algum preconceito, um tanto de inveja, e muita intolerância.

Alguém com as qualidades que acima enumerei e que se preocupou com outro semelhante a ponto de sacrificar parte de seu tempo para ajudá-lo e conduzi-lo ao seu sonho tão sonhado eu só posso agradecer e homenageá-lo mesmo sabendo que já está em outro plano há alguns anos. Valeu amigo Gelmirez.


(07 de dezembro/2012)
CooJornal nº 817



Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
Conheça um pouco mais de Francisco Simões
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
http://www.riototal.com.br/expressao-poetica/francisco_simoes.htm
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