21/12/2012
Ano 16 - Número 819


 

ARQUIVO SIMÕES


Francisco Simões
em Expressão Poética

 

Follow RevistaRIOTOTAL on Twitter

Francisco Simões


A BORBOLETA MARROM

Francisco Simões, colunista - CooJornal

O relógio marcava quase 20 horas e eu fora ao quarto para fazer, como quase todas as noites, os meus abdominais. De repente tomei um susto. Algo passara raspando minha cabeça, tocando de leve em minha testa.

A primeira impressão foi de que algum morcego tivesse entrado no ambiente pela janela do quarto, mas logo esclareci aquilo. Na porta do armário, por trás de nossa cama, estava pousada uma grande borboleta, toda marrom, com as asas abertas.

Meu pensamento voou no tempo e retornou há mais de dez anos para uma cena idêntica que ocorrera na garagem da minha casa no bairro do Braga, aqui mesmo em Cabo Frio. Era então um final de tarde e eu lavava meu carro.

Eu cheguei perto dela que nem se importou com a minha presença ali. Também não a importunei. Após terminar o que fazia voltei pra dentro de casa deixando a grande borboleta marrom pousada na porta da garagem.

Mais tarde um amigo me disse que ela devia estar bastante velha, pelo tamanho, e que talvez tivesse ido até ali procurar um lugar sossegado para passar seus últimos momentos. No começo duvidei daquela versão, mas no dia seguinte confirmei o que me dissera o amigo. A linda borboleta continuava lá e estava já sem vida.

Voltando a 2012, tratei de chamar a Marlene para me ajudar no que deveria fazer. Ela achou que deveríamos deixá-la ali por algum tempo e depois, caso ela não saísse, nós então poderíamos tentar fazer com que a borboleta saísse do quarto.

Passei a fazer meus abdominais com a TV ligada vendo o jornal da BAND. Ao final deitei na cama e relaxei por alguns minutos. A amiga borboleta continuava ali pouco se importando com a minha presença e meus movimentos.

Depois nós fomos jantar na copa e passadas umas duas horas retornamos ao quarto. Vimos então que a borboleta continuava no mesmo lugar. O “retrato” era o mesmo daquele a que me referi acima há 10 anos passados, na outra casa.

Demos mais um tempo a ela enquanto assistíamos à televisão e eu, de quando em vez, vinha ao computador. Cheguei a pensar em escrever uns versos dedicados à bonita borboleta marrom, porém a inspiração não me ajudou. Preferi mesmo contar a história em forma de prosa.

O tempo foi passando mais ainda e quando já pensávamos em ir dormir Lena resolveu pegar com muita calma e muito jeito a idosa borboleta e a retirar de nosso quarto. Afinal ela poderia de repente querer sair do ambiente no escuro, durante a madrugada e seria um problema para nós. Estaria mesmo se preparando para morrer ou não?

Nós a levamos, sem que ela oferecesse qualquer resistência, para o nosso jardim e a pousamos sobre uma das flores. Permanecemos uns cinco minutos a observá-la e ela permanecia inerte.

Na manhã seguinte quando voltamos ao jardim vimos que nossa amiga, a borboleta marrom, por algum motivo que somente ela poderia explicar, não mais se encontrava sobre a flor em que a deixamos. Igualmente não a vimos nas proximidades.

Imaginamos que se tivesse morrido ali, continuaria certamente no mesmo lugar. Assim admitimos que ou ela voou para outras paragens ou preferiu um novo lugar bem sossegado para morrer já que nós a havíamos retirado do quarto.

Jamais saberemos, entretanto no fundo, no fundo, nos bateu um arrependimento pela decisão que tomáramos. E se você algum dia vir uma grande e idosa borboleta pousada em sua casa, deixe-a lá. Não lhe fará nenhum mal e você poderá estar lhe proporcionando um final feliz como ela mesma terá escolhido.

Creiam que esta é a lição que nos dá essa história verdadeira.



(21 de dezembro/2012)
CooJornal nº 819



Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
Conheça um pouco mais de Francisco Simões
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
http://www.riototal.com.br/expressao-poetica/francisco_simoes.htm
www.francisco-simoes.com

Direitos Reservados