21/06/2013
Ano 16 - Número 845


 

ARQUIVO SIMÕES


Francisco Simões
em Expressão Poética

 

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Francisco Simões


ALGUÉM LEMBRA DA BANDEJA COM OS ENVELOPES?

 

Francisco Simões, colunista - CooJornal

Sei que vocês devem estar curiosos com este título que indaga algo aparentemente sem sentido ou completamente fora de propósito. Não os culpo, ainda mais se você é de uma geração bem mais nova que a minha e da de muitos amigos da antiga do BB.

Eu fiz concurso para o Banco do Brasil em minha terra natal, Belém do Pará, no ano de 1957. Quando saiu o resultado foi uma grande comemoração. Eu havia sido classificado em quarto lugar e isto era muito importante, muito mesmo. Eu fui empossado na Agência Centro de minha cidade natal em Setembro/1957.

Explico: pelas regras daquele concurso externo os candidatos aprovados até o quinto lugar tomariam posse na Agência Centro de Belém, ou seja, não precisariam se afastar de suas famílias. Os demais classificados foram designados para Agências do interior do Estado.

Recordo do dia de minha posse no Banco quando reencontrei lá o bom amigo e excelente locutor Lourival Penalber. Este era o Tesoureiro da Agência Centro e eu, como muitos sabem, vinha desde 1953 trabalhando no rádio paraense, primeiro na Rádio Marajoara e depois na PRC-5, a tradicional Rádio Club do Pará.

Já devem imaginar que a dedicação em tempo integral ao trabalho no BB para poder ganhar um pouco mais acabava atrapalhando meus planos de também continuar sendo radialista, um dos meus sonhos de porão como já contei num texto certa vez.

Consegui resistir por alguns meses, mas depois acabei tendo que optar e aí prevaleceu o que representava para mim, como dizia meu saudoso pai, a garantia de um futuro com segurança. Todos pensavam assim com relação a empregos em empresas como o Banco do Brasil, hoje, pelo que sei, esta situação mudou muito.

No começo sofri muito ao ter que tomar a decisão de abandonar minha carreira de radialista, todavia jamais larguei de mão minha paixão pelo rádio que prevalece até hoje. Tenho sempre um rádio a mão e na cabeceira, podem crer.

Alguns que me lêem já devem estar se perguntando: “Oh cara, e onde entram os tais envelopes e a bandeja citados no título?” Pois é isto contado hoje parece uma piada ou algo despropositado, porém na época, anos 50, era uma realidade, uma verdade que representava uma política econômica e um valor do dinheiro tão diferente de hoje em dia.

E creiam que sempre achamos que ganhávamos bem e pelejávamos para subir na carreira e ganhar mais, lógico. Vivíamos somente do salário do BB, podem crer, embora no caso do nosso amigo, o Lourival Penalber, ele já ocupava um lugar de destaque na Rádio Club do Pará fazia muito tempo.

Parece até que eu estou “enrolando” vocês e fugindo do tema central deste texto, mas não estou não. Eu queria somente fazer este “passeio” no tempo, ou seja, desde 1957, para falar-lhes da minha emoção ao receber meu primeiro salário já como funcionário do Banco do Brasil.

Naquele dia surgiu de repente no salão da Agência o bravo Lourival Penalber (Tesoureiro) acompanhado de um funcionário seu auxiliar. Eles iam à mesa de cada um de nós com aquela bandeja repleta de envelopes cada qual com o nome de um dos servidores sem distinção de cargo ou função.

No envelope de cada um estava todo o salário do mês, acreditem. Dinheiro em notas e em moedas. Numa folha à parte havia uma relação com nossos nomes e respectivos vencimentos a receber. Nós conferíamos o pagamento e assinávamos na relação como recebido.

Vejam que nossos salários cabiam dentro de um envelope, eram por nós recebidos com um sorriso e ninguém achava que ganhasse mal, não mesmo. Todo mês aquele cerimonial se repetia na Agência Centro de Belém.

Só vim a ter o salário creditado em uma conta-corrente quando já estava trabalhando no Rio de Janeiro, na Direção Geral, no antigo MEDIC, isto a partir de Abril/1960.

Não sei se aquele procedimento dos envelopes ocorria em todas as Agências do BB, mas mesmo assim encerro este texto com a pergunta do título endereçando-a aos colegas aposentados bem da antiga:

“Alguém se lembra da bandeja com os envelopes?”



(21 de junho/2013)
CooJornal nº 845



Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
Conheça um pouco mais de Francisco Simões
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