28/06/2013
Ano 16 - Número 846


 

ARQUIVO SIMÕES


Francisco Simões
em Expressão Poética

 

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Francisco Simões


DESCULPEM, MAS EU VOU CONTESTAR

 

Francisco Simões, colunista - CooJornal

O assunto que abordarei hoje em verdade costuma gerar polêmica, embora muitos o aceitem como verdade incontestável. Perdão, mas eu tenho opinião diferente e vou defendê-la agora neste texto.

Atenderei de imediato à curiosidade daqueles que simplesmente ao lerem o título de uma crônica já querem alcançar o assunto a ser abordado ou a ser debatido.

Quem já não ouviu alguém afirmar que nos dias de hoje vive-se muito mais, tem-se uma vida mais longa do que em tempos de antanho? Estatísticas e mais estatísticas, estudos aprofundados, costumam ser exibidas por pessoas gabaritadas nos veículos da mídia em geral na tentativa de provar esta tese.

Afirmam que atualmente as condições de vida, os avanços da ciência médica, favorecem uma existência mais longa, mais saudável, etc e tal. Não quero faltar ao respeito a nenhum defensor desta tese que aparentemente não pode ser contestada, todavia farei a minha contestação.

Para início de conversa convenhamos que as pessoas que vivem nesses tempos de agora, tão elogiadas por já terem ultrapassado os oitenta, os noventa, e mesmo os cem anos, não nasceram hoje nem ontem. Essas pessoas vêm de longe, ou de muito longe, do tempo em que os “entendidos” afirmam se vivia muito menos que atualmente. Estou certo ou errado?

O fato de hoje em dia termos muitos avanços que podem até facilitar o viver na minha visão aqueles que estão vivendo muito e muito mais que as próprias projeções de vida, deixando de fora a genética de cada um, já chegaram hoje, ou ao presente tempo, com uma idade bem avançada, ou não? Eles, como diriam alguns, não são propriamente “deste tempo”, mas chegaram a ele e muito bem.

Explico melhor: eu, me avizinhando dos 77 anos, e tantas pessoas que estão aí acima de 90 e mesmo de cem anos, tivemos nossa infância e juventude, fases de certa forma bem decisivas para se ter ou não uma vida mais longa, em outro tempo que ficou bem longe no passado. Naquele em que as tais “estatísticas” insistem em afirmar que não se vivia muito.

Na minha família, e não só nela, meus pais, avós, bisavós e triavós alcançaram mais de 80, alguns, e outros mais de 90 anos. Isto somente num tempo em que, repito, insistem em dizer que “se vivia menos”. É verdade que a ciência médica e outros meios nos ajudam hoje em dia, mas o que vejo é que muitos dos nascidos nos anos atuais morrem tão cedo, muitos nem chegando aos 30 ou aos 40 anos.

Consultem as estatísticas. Hoje nós temos além dos fatores que nos podem “ajudar” a viver mais também outros, e muitos outros, que não tínhamos antes e que nos levam justamente para o túmulo bem mais cedo. Haja vista o incremento cada ano maior da violência urbana (assaltos, tráficos de drogas, seqüestros, violência no trânsito, menores e maiores matando impunemente, etc.)

As estatísticas não mentem, basta lê-las com uma visão isenta de conceitos mal formulados ou mal interpretados ou tendenciosos. Os tempos modernos se nos oferecem eventualmente uma vida mais confortável, garanto que mais fácil ela não o é. De forma alguma. As facilidades para a juventude cair em desgraça, em descaminhos tantos que estão aí especialmente através das drogas e outros mais, derrubam facilmente as teses a que me refiro.

Se no passado muitos morreram tão cedo até por doenças que ainda eram incuráveis outros muitos ultrapassaram esse obstáculo e com o passar dos anos vieram se encontrar agora neste chamado “tempo moderno” mantendo uma vida bem longa, saudável, porém que devemos reconhecer não se deve exclusivamente às tais “vantagens” dos tempos atuais, muito pelo contrário.

Deixando de lado a genética de cada pessoa, repito mais uma vez, é indubitável que os fatores que levam à morte hoje em dia chegam a ser em número, gênero e grau muito mais cruéis que algumas doenças que no passado tiraram a vida de tantos. Na minha visão nem dá para se estabelecer alguma comparação. Afirmo isto respeitando opiniões contrárias, mas jamais deixando de dizer o que minha percepção, em quase oito décadas de vida, me ajuda a esta conclusão.

Se no passado aconteceram doenças que chegaram a matar milhões de pessoas, pestes na época incuráveis, quantas novas doenças não têm surgido, nestes chamados “tempos modernos”, que estão a ceifar vidas e mais vidas sem considerar outros fatores por mim já relacionados acima?

Perdoem-me os que discordarem de mim, faz parte do debate democrático, todavia vejo com certo pessimismo o quanto de viver terão muitos dos nascidos nestes tempos modernos, sinceramente.

Muitos de nós, hoje no time do que alguns chamam de “telhado branco”, viemos dos anos trinta, dos anos vinte, ou pouco mais. E novamente eu lhes peço perdão, mas eu, pelo menos eu, não vejo com bons olhos o futuro dos seres humanos num mundo que ainda não aprendeu inclusive que podemos viver em paz.

Falar, discursar, os líderes mundiais falam e discursam hipocritamente, pois estão sempre a maquinar alguma guerra. O sistema econômico e político vigente atualmente pelo mundo afora tem dado muitas mostras de seus erros, aí incluída a ganância de certas nações e certos governantes que, se puderem “engolirão” países e povos sempre com o falso pretexto de “guerrear pela paz”.

Por esses e outros motivos duvido que os nascidos hoje possam vir a contar no futuro (se tiverem futuro) com um mundo melhor. Nós viemos de longe e chegamos até aqui, eles irão até onde? Esta é a minha contestação.

(Não sou analista político, nem economista, muito menos historiador ou cientista, apenas um humanista autodidata.)



(28 de junho/2013)
CooJornal nº 846



Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
Conheça um pouco mais de Francisco Simões
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