12/07/2013
Ano 16 - Número 848


 

ARQUIVO SIMÕES


Francisco Simões
em Expressão Poética

 

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Francisco Simões


DISQUEI ERRADO MAS ACERTEI

 

Francisco Simões, colunista - CooJornal

O que lhes vou relatar hoje é a mais pura expressão da verdade. Uma pequena história de tantas verdadeiras que já lhes contei aqui nesses quase treze anos de convivência na internet, escrevendo e divulgando.

Aconteceu há cerca de uns quase vinte anos. Eu decidi telefonar para um dos meus bons amigos da antiga do Banco do Brasil. Peguei o telefone e ao digitar os números não me dei conta de que havia errado em um deles.

Bendito engano o meu. Após o telefone tocar por umas quatro vezes alguém atendeu. Ouvi a voz de uma senhora que anunciou: “Residência do Sr. Mário Lago.”

Tomei um susto, bendito susto. Eu que como quase todo o Brasil sempre tive na figura de Mário Lago um dos maiores expoentes da cultura artística e literária do Brasil jamais pensara em ter a oportunidade de estar em contato com ele.

Parei de falar por uns segundos e a senhora repetiu duas vezes a palavra “Alô”, “Alô”. A seguir ela disse que o Mário Lago não se encontrava em casa, e que se eu quisesse falar com ele deveria ligar mais tarde.

Antes que ela desligasse tratei de me refazer do susto, do bom susto, e falei rápido: “Minha senhora, me desculpe, não é um trote não, realmente eu liguei errado e para minha felicidade a ligação caiu aí. Perdoe-me, por favor.”

Educadamente a senhora disse compreender e que era natural aquilo acontecer, pediu que eu não me preocupasse. Diante de tanta atenção e gentileza resolvi falar um pouco com ela, eu senti necessidade de desabafar o que estava guardado no meu peito por muitas décadas. Já explico.

Nos anos 50 quando eu trabalhava na rádio Marajoara, em Belém do Pará, então pertencente aos Diários Associados, certo dia chegou lá o novo Diretor Artístico. Imaginem que era nada mais nada menos que Mário Lago, também bastante mais jovem, claro, todavia já com uma brilhante carreira de ator, compositor, poeta, Diretor, e muito mais.

Para todos nós foi uma honra inigualável, acreditem. Pertencíamos a uma equipe que estava construindo um rádio diferente, mais avançado tecnicamente, tendo uma forte concorrente que era a tradicional PRC-5, a Rádio Club do Pará, onde também trabalhei.

Pedi licença à senhora que me atendera e relatei a ela o que agora lhes conto. Expliquei que aquilo fora ainda nos anos 50 e muitas décadas já se haviam passado. Estávamos então nos anos 90. Ela educadamente me ouviu com atenção e achou muito interessante a coincidência.

Sendo eu um emotivo incurável naturalmente que me deixei envolver num clima que para muitos pode parecer apenas pieguice. Lembrei que com toda a fama que Maio Lago já desfrutava, mesmo nos anos 50, seu relacionamento com os locutores, atores e atrizes da Rádio Marajoara foi sempre de um respeito, uma amizade como não tivemos de outros que por lá passaram.

No meu tempo de rádio se tivemos outros Diretores competentes e amigos dos seus dirigidos por outro lado faço justiça a Mario Lago porque assim como ele tinha a facilidade na comunicação jamais impôs alguma ordem, algum procedimento usando de argumento autoritário.

Nós todos além de o admirarmos muito o respeitávamos por exercer uma liderança amplamente democrática nos permitindo eventualmente até discordar de algo desde que tivéssemos argumentos convincentes.

Voltando ao telefonema e após a senhora ter-me ouvido pacientemente apresentei-lhe novo pedido de desculpas, mas não resisti a solicitar que ela contasse depois ao Mario Lago, caso julgasse que não fosse inconveniente, o que acontecera e quem eu era. Claro que jamais esperaria que ele se lembrasse de mim.

Ao desligar senti um misto de alegria e frustração. Alegria porque pelo destino, sem querer, eu estivera tão próximo de um dos meus maiores ídolos, e frustração porque eu tinha certeza de que ia ser muito difícil arrumar coragem para falar com ele se a oportunidade me chegasse a tanto. Eu sou assim.

Não gosto de atitudes de tietagem, embora neste caso o falar com um astro da grandeza de Mario Lago se justificasse pelo que o passado (anos 50) me presenteara. Todavia, minha timidez e meu imenso respeito a ele teriam com certeza me “derrubado”.



(12 de julho/2013)
CooJornal nº 848



Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
Conheça um pouco mais de Francisco Simões
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