11/10/2013
Ano 17 - Número 861


 

ARQUIVO SIMÕES


Francisco Simões
em Expressão Poética

 

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Francisco Simões

 

DOIS PRA LÁ DOIS PRA CÁ, JÁ ERA?


 

Francisco Simões, colunista - CooJornal

Muitos devem saber que parte do título acima eu retirei de uma linda canção composta por João Bosco e Aldir Blanc, sendo um dos grandes sucessos do repertório da saudosa Elis Regina. Eu amo Elis e para fãs como eu ela jamais morreu, estará sempre em nossos corações e em nossa lembrança.

Mas por que eu usei aquele título neste texto? Não, eu não vou falar sobre Elis Regina. Ocorre que Marlene, minha esposa, está tendo aulas de dança duas vezes por semana e eu a acompanho sempre. Ela sabe dançar, mas desejou se aperfeiçoar, daí se justificar a intenção.

Fico sentado olhando tudo, observando o que o professor diz e faz e pede que os alunos e alunas repitam. Ele é um dançarino excelente e quando resolve dar alguma demonstração usando sua esposa como par vale a pena assistir. Eu já disse isso a ele pessoalmente. Depois da aula faço rápidos comentários com Lena. A primeira música que toca no começo da aula é sempre esta: DOIS PRA LÁ, DOIS PRA CÁ.

Outro dia ao terminar a aula o mestre anunciou que no domingo seguinte iria promover um bailarico e convidou a todos, avisando que poderiam levar parentes e/ou amigos. Disse também que naquele caso não haveria regras usadas nas aulas, a dança seria livre.

Ouvi aquilo, mas não imaginei até onde poderia ir aquela liberação, digamos assim. Como Lena ficou por de mais animada para comparecer eu não poderia frustrar seu desejo e assim também a acompanhei. O bailarico ocorreu no mesmo espaço onde são ministradas as aulas, apenas o ambiente estava meio diferente, ou seja, poucas luzes, escurinho como convinha.

Confesso que eu esperava encontrar lá um ambiente do tipo que nós temos sempre quando vamos ao Rio e dançamos na AABB Lagoa, ao som do excelente conjunto “Telhado Branco”. Outro dia divulguei um texto sobre eles. Só esqueci que na AABB, naquelas noites de eventuais sábados, a presença é quase maciça de gente da tal “boa idade”, ou da minha, e da de tantos amigos da antiga.

O estilo de dançar é em grande parte como eu gosto, ou seja, dois corpos juntinhos, passos tranqüilos, às vezes com rosto colado, mas nada de piruetas ou cabriolas. Refiro-me aqui ao que se costuma ver quando o Fausto Silva promove a tal “Dança dos Famosos.” Não gosto do que vejo e acho estar mais para academia de ginástica do que para dança, sinceramente. Porém dizem que hoje é assim.

Não acredito porque já vi outros ambientes onde o pessoal dança como eu aprendi e até hoje uso o mesmo estilo. Afinal quando vou dançar com Lena não pretendo bancar o Fred Astaire, seguramente o maior dançarino de todos os tempos que se exibia em filmes americanos. Ele era um profissional da dança e o que fazia se justificava. Sempre adorei vê-lo dançar.

Hoje o que tenho visto em certos ambientes são más imitações de Fred Astaire. Alguns jogam as damas para longe e a puxam de volta, ou então fazem tantas piruetas com elas que a mim algumas vezes parece mais uma luta, mal comparando, do que dança. Desculpem, é a minha opinião e modestamente eu entendo de dançar.

Podem até me criticar, chamar-me de ultrapassado, ou usarem adjetivos vários que me coloquem na posição de quem está fora do seu tempo, tudo bem, só lembro que nem tudo que se diz ou se faz moderno hoje em dia é bonito ou de bom gosto, muito pelo contrário.

Mas, voltando ao bailarico a que comparecemos outro dia esperei pararem com músicas de forró e tocarem algum bolero ou samba canção. Eu gosto de forró, é ritmo nosso, mas muitos se empolgam e acabam transformando o salão num joga pra lá joga pra cá, num rodopio sem fim e aí repito, eu estou fora. Ao se iniciar o primeiro bolero da noite saí com Lena para dançar.

Escolhemos o canto do fundo do salão já para não atrapalhar os “atletas da dança”, pois até no ritmo consagrado do “dois pra lá, dois pra cá” alguns deles decidem abusar de piruetas e assemelhados. Entendam que eu não tenho nada contra o que fazem, digo mesmo que para assistir até que é interessante, porém se estou dançando, aí, meus amigos, a coisa muda de figura.

Percebi depois que de tantos casais que estavam na pista apenas eu e Lena além de mais dois pares dançávamos nos passos que não são da antiga, não, vêm de lá, sim, mas já foram eternamente consagrados e vejo a grande maioria do “telhado branco” bailar como eu aprendi quando jovem e exerço até hoje.

Se eu vou a um concurso de dança, não posso reclamar de nada. Afinal ali cada par procura exibir o melhor do seu talento dançando. Trata-se de dançarinos exímios que mostram toda a sua técnica em busca de um sucesso no referido certame. Eu assisto e aplaudo claro.

Minhas palmas são sinceras, minha admiração verdadeira, todavia não traduzem qualquer sentimento de apoio ao estilo quando nos encontramos num salão apenas para dançar, nos divertir, saboreando o estar junto com nossa dama repartindo o espaço com outros casais e não nos exibindo.

Eu iniciei este texto com a pergunta se o “Dois pra lá, Dois pra cá” já era, agora digo que não. Dançar junto, com rosto colado ou não, especialmente em ritmos como bolero, samba canção e outros semelhantes, transcende o ato de dançar e nos faz flutuar em rápidos momentos de amizade, amor, carinho, aquilo que pelo menos eu vou buscar quando me determino a entrar com minha dama no salão.

Em ritmos tidos como “mais quentes” há que manter a mesma postura embora os passos devam seguir um compasso mais rápido seja no samba, seja no chorinho, seja em música de forró. Em resumo, eu procuro sempre dançar no estilo tradicional e respeitando uma resistência menor que hoje a idade me impõe. Estes limites ou respeitamos ou teremos que agüentar conseqüências, com certeza.

Francisco Simões. (Outubro / 2013) (Use o link abaixo e escute o “Dois pra lá, Dois pra cá” com Elis Regina: http://letras.mus.br/elis-regina/88460/  )



(11 de outubro/2013)
CooJornal nº 861



Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
Conheça um pouco mais de Francisco Simões
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
http://www.riototal.com.br/expressao-poetica/francisco_simoes.htm
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