06/12/2013
Ano 17 - Número 869


 

ARQUIVO SIMÕES


Francisco Simões
em Expressão Poética

 

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Francisco Simões

 

PENA DE MORTE E OS COMENTÁRIOS




 

Francisco Simões, colunista - CooJornal

Quando escrevi e divulguei sobre o tema “Pena de Morte” há duas semanas aqui no CooJornal procurei sondar opiniões e consegui algum êxito. Até o momento em que começo a escrever este novo texto já recebi 25 mensagens comentando o tema.

Apenas cinco defenderam a aplicação da pena de morte em casos de extrema violência. A maioria, porém justificou sua posição contrária à pena de morte alegando motivos religiosos. Alguns disseram claramente acreditar que somente a Deus cabe dar e/ou tirar a vida de alguém.

Realço, por outro lado, que houve também quem justificasse ser contra a pena de morte por motivos que a mim parecem razoáveis e muito justificáveis, ou seja, pela falta de confiança não só em nossa polícia em geral como em nossas autoridades. Eu mesmo andei argumentando nessa mesma direção no meu texto e ainda permaneço em dúvida. Essas foram três variações dos comentários.

Respeito todas as opiniões que a mim foram endereçadas, porém não abro mão do direito inalienável de também opinar sobre os vossos comentários tenham eles defendido qualquer das posições já por mim referidas acima.

Os poucos que defenderam a pena de morte foram bem incisivos e deram exemplos insofismáveis. Alguns até pessoais, como eu mesmo poderia ter dado já que fui assaltado uma vez com revólver na cabeça e em outra oportunidade ameaçado com barra de ferro por dois drogados, em Ipanema. Escapei em ambas por pura sorte. 

Vamos aos que alegaram motivos religiosos. Eu estudei em Colégio de Irmãos Maristas, portanto de origem católica, durante sete anos. Lembro-me que os professores nas aulas de Religião, nos ensinaram realmente entre tantas coisas que apenas Deus pode dar a vida como apenas Ele a pode tirar de alguém. Foi assim que aprendemos. Claro que eu era muito jovem.

Bem, como vocês podem deduzir, eu não sou ateu. Fui criado na religião católica, tive passagens pelo espiritismo, o que me acompanha até hoje, assim como tenho freqüentado eventualmente, para acompanhar minha esposa, uma determinada e tradicional Igreja Evangélica. Lena, por sua vez, sempre está comigo quando vou à missa. Sou cristão, mas não sirvo como exemplo de nada.

Disse e repito que tenho dúvidas, muitas dúvidas independente do que me ensinaram através dos anos de minha infância e juventude. Com o passar do tempo comecei a pensar por mim mesmo e a formar juízo um tanto diferente do que aprendera no catolicismo, e no espiritismo. Confesso que este me influenciou muito e já falei sobre o assunto em textos divulgados aqui.

Voltando ao tema “Pena de Morte”, na crônica eu disse que sempre fui contra, todavia com o avanço avassalador da violência, de um crime chamado de “organizado” por nossos governantes e vendo a sociedade indefesa ser massacrada diariamente com marginais matando impunemente homens, mulheres, crianças, ainda que esses nem reajam a assaltos, passei a repensar o assunto.

Estou hoje entre aceitar e/ou recusar, porém neste caso usando os mesmos argumentos dos que disseram em seus comentários não confiarem em nossas autoridades, incluída a Justiça em todos os seus níveis. Contando comigo, apenas mais três amigos argumentaram neste sentido em 25 comentários que recebi. Confesso que eu esperava mais posicionamentos idênticos a esses.

Repito que respeito todas as opiniões a favor ou contra a pena de morte, mas me permitam os que alegaram ser contra por motivos religiosos, visto entenderem que somente a Deus é dado tirar a vida a alguém, colocar-lhes uma pergunta para a qual nem espero alguma resposta.

Não sou teólogo, portanto minha indagação será como a de uma pessoa comum, que tem religião, que crê em Deus, mas tem muitas dúvidas. Afinal que Deus é este no qual cremos, o qual nós respeitamos se nós vamos admitir que Ele permita bandidos matarem covarde e impunemente tanta gente? Só Ele tem o direito a nos tirar a vida? Poderia eu cometer o absurdo de achar que a bandidagem usa a mão de Deus para matar tantos inocentes? E nós devemos nos conformar com isso?

Alguém poderia dizer: “É um Deus que nos deu o livre arbítrio.  Não é um Deus ditador que impõe o que ensinou.  Cada um plante o que lhe parece adequado.” Mas se nós levamos uma vida reta, professamos nossa fé, se usamos bem nosso livre arbítrio e de repente somos agredidos até dentro de casa, assassinados fria e covardemente ou vemos tirarem a vida de pessoas queridas, não me é permitido sentir revolta ou mesmo reagir, se puder? Devo perdoar e amar o assassino?

Perdoem-me os que sejam tão apegados a sua religião, que pode até ser a minha, mas eu jamais posso aceitar crime sem punição, e não apenas crime de morte, mas tanta bandalheira que se espalha por este país afora que tantos criticam, porém logo vão votar em alguém e ajudar a perpetuar este estado de coisas. Na minha visão não se deve misturar religião com justiça ao fazer juízo de castigo.

Um dos amigos que se disse favorável à pena de morte me deu exemplos de países e de cidades onde viveu e onde a aplicação desta sentença mudou para melhor a vida local. Citou EUA e China e realçou que em Cingapura, por exemplo, após a adoção de penas mais severas contra ladrões e assassinos “... hoje as leis e penalidades são duríssimas até com estrangeiros. Mas tudo funciona, a cidade é limpíssima, ordenada, disciplinada e as pessoas educadíssimas...” Outro amigo confirmou essa informação por também ter estado em Cingapura por um tempo.

Voltando ao Brasil devo concluir pelos comentários que recebi que a bandidagem deverá continuar a agir impunemente. Se forem apenas presos sabemos que logo algum advogado encontrará brechas na lei para soltá-los e quanto aos menores, estes então continuarão a agir mais impunemente ainda. Isto é, assistimos a tudo, nos horrorizamos, nos queixamos, porém nada faremos de mais efetivo para impedir que a violência amanhã comande definitivamente este país.

Aí eu digo: Que Deus se apiade de nós, pois somente contra a nossa sociedade vale a pena de morte já decretada há muitos anos pela bandidagem. Amém.

 
(06 de dezembro/2013)
CooJornal nº 869



Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
Conheça um pouco mais de Francisco Simões
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