25/04/2014
Ano 18 - Número 889


 

ARQUIVO SIMÕES


Francisco Simões
em Expressão Poética

Francisco Simões

 

FALANDO DO SILÊNCIO


 

Francisco Simões, colunista - CooJornal

Hoje eu estava meio sem assunto para escrever e então pensei e pensei muito até que me ocorreu esta idéia de falar sobre o silêncio. Vou justificar.

Eu poderia falar de futebol, de Copa do Mundo, mas pensei bem, em toda Copa eu e muitos milhões de brasileiros sempre estamos atentos e torcemos pela nossa seleção, claro. Todavia este ano a nossa Copa vai se misturar, ou já está se misturando, com a política e isso não é nada bom.

Eu imagino que este ano o futebol mundial a ser disputado neste país mais do que nunca estará colocando a Pátria de chuteiras como disse o saudoso Nelson Rodrigues. Com certeza eu vou preferir falar do silêncio, me perdoem.

No silêncio eu me concentro, medito, e não me deixo influenciar por tantas baboseiras que estarão circulando por esta internet. Aliás, já começou o “desfile” de verdadeiros “carros alegóricos” escritos com letras de vários tamanhos, de várias cores, montagens as mais variadas, dizendo isto e aquilo, fazendo denúncias sem provas contra este ou contra aquele candidato ou Partido. Tiroteio de todos os lados que alguns chamam de “caça às bruxas”.

Isto me causa náuseas, sinceramente. Prefiro então meditar e falar do silêncio. Finjo que eu não vi que não li apago e vou em frente. O silêncio não me faz mal à saúde já essas intrigas da política me tiram do sério e não vou deixar que isto aconteça neste ano. Eu só leio artigos sérios, com autoria expressa, que determinados amigos selecionam e me enviam. O resto para mim é lixo, desculpem.

Com licença, permitam-me alguns minutos de absoluto silêncio..... eu relaxo, medito, mergulho num espaço que poucos conhecem, mas está à disposição de todos, sempre. Não é fugir da realidade, porém dar um tempo para, como se diz, recarregar nossas baterias. Pena que depois eu acordo novamente.

Aí eu vejo uma divulgação muito grande, bem ampla sobre as tais “retomadas de territórios” no Rio de Janeiro, creio que idéia do ilustre Secretário de Segurança que é quase meu vizinho na mesma rua em que tenho um apartamento em Ipanema. Aliás, ele dispõe de dois carros de polícia colocados à porta do prédio em que mora 24 horas por dia. Quanto aos demais mortais...

Nunca entendi porque eles invadem as comunidades, ou as retomam dos bandidos, mas não se preocupam em prendê-los, em tirá-los de circulação. Comentei sobre isso um dia e fui até criticado por pessoa que respeito muito. Aliás, a tal retomada da comunidade da Maré pelo Exército, com muitos homens e tanques, já foi dito que durará até Julho deste ano. Coincidência, pois ali terminará a Copa. E aí??!!

Antes que eu fale demais e fuja do meu objetivo de manter em evidência o silêncio, digo que tenho recebido mensagens de amigas e amigos que moram nas serras cariocas e que, assim como aqui em Cabo Frio, parece estarem a sofrer com a influência, ou má influência, de fugitivos que vão se alojar nessas cidades. E creiam que a coisa está piorando por aqui, piorando e muito.

De quando em vez tem havido choques entre polícia e bandidos que muitas das vezes chegam a pedir que os moradores não saiam de casa face aos tiroteios, acreditam? Aconteceu outro dia com a esposa do filho de Lena e eles tiveram que vir dormir em nossa casa. Cabo Frio de há muito deixou de ser o paraíso que amei.

Enquanto isso eles pregam no Rio a tal “pacificação”, mas não dizem que ela ocorre desconsiderando o sofrimento de outros que moram na periferia, em outros bairros e em cidades diversas do mesmo Estado. Nós que nos lixemos, pois.

Poxa, lá ia eu fugindo do meu assunto principal, falar do silêncio, apenas do silêncio, hoje. Vou retomar a minha concentração. O problema é que quem escreve e tem uma observação sagaz do que se passa a sua volta, está sempre atento a tudo tem dificuldade em fugir para o irreal, mergulhar no silêncio, mas eu conseguirei.

Ai o telefone toca e eu atendo. Minha concentração foi interrompida. Pior: do outro lado da linha entra uma gravação e trata-se de propaganda eleitoral. Reconheço a voz do candidato ao Governo do Rio. Não podendo dizer-lhe o que penso dele o jeito é desligar de imediato, relaxar e voltar à concentração. Demorei um pouco até baixar minha irritação com algo que é um desrespeito aos cidadãos.

Finalmente eu volto ao silêncio. Aos poucos mergulho através da concentração numa meditação que vai me salvando desta realidade às vezes insuportável. Repentinamente sou despertado por um som bem alto, muito alto mesmo, penso ser algum serviço de alto falante, mas não, não é, vem de uma casa, do outro lado da rua, para onde se mudaram vizinhos há poucos dias. O som era de funk, e da pesada. Não posso colocar aqui a letra de uma das “músicas” porque eu estaria sendo mal educado e agressivo com meus leitores. Não faço isso.

Se eu disser que não gosto vão me chamar de preconceituoso, sim porque hoje ter bom gosto é correr este risco. Ademais, quem não tem o talento de Cartola, de Vinicius de Moraes, de Chico Buarque, de Tom Jobim e de tantos outros excelentes compositores e poetas da MPB apela para o mau gosto. Pior é que a mídia diz que qualquer lixo é sucesso e o rotula de “manifestação cultural”!! Vivemos numa lixeira global da qual procuro fugir constantemente para não adoecer o meu bom gosto refinado. Vade retro.

Deito no sofá, procuro relaxar novamente, vou me desligando deste mundo aos poucos. Retorno aos anos 60 e 70 quando pratiquei yoga (com o aberto, não o ô fechado como pronunciam hoje). Fiz Âsanas (Hatha Yoga), respiração completa e profunda, relaxamento, meditação, etc. Fui um aplicado discípulo do Mestre Hermógenes de Andrade através de vários de seus livros. Hoje creio que ele esteja com 92 anos ainda vivo e saudável.

Minha mente mergulha outra vez no silêncio e salta no espaço. Eram outros tempos, a vida fluía num ritmo não alucinante como agora, meus momentos da paz antiga hoje são apenas saudade, mas o silêncio renova minha harmonia com o universo, entrego-me aos poucos ao relaxamento completo. Estou no silêncio infinito onde nada do mundo real me atinge. Esta é a morada da paz universal.


(Se alguém desejar conhecer o Mestre Hermógenes, pesquise, por favor, no link abaixo. Ele conhece o silêncio melhor que ninguém. Paz e amor. http://oglobo.globo.com/rio/mestre-de-ioga-mais-respeitado-do-pais-ganha-biografia-critica-egoesclerose-5473873 )

 

(25 de abril/2014)
CooJornal nº 889



Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
Conheça um pouco mais de Francisco Simões
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
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