10/05/2014
Ano 18 - Número 891


 

ARQUIVO SIMÕES


Francisco Simões
em Expressão Poética

Francisco Simões

 

CHAME O LADRÃO, CHAME O LADRÃO


 

Francisco Simões, colunista - CooJornal

O título que estou usando não deverá ser estranho para todos aqueles que assim como eu viveram e muito os anos sessenta e setenta, principalmente estes. Vão se lembrar, com certeza.

Em verdade, em verdade vos digo que as palavras acima formam um refrão muito bem sacado por Chico Buarque na música “Acorda Amor”. Ele a compôs, como a tantas outras, em plena ditadura militar.

A situação narrada por ele no correr da letra tem tudo a ver com o que muitos passaram naqueles tempos, anos 70, uns sobrevivendo outros naufragando ou acordando de madrugada com “os homens subindo a escada”. Vejam este trecho da letra:

Acorda amor
não é mais pesadelo nada
tem gente já no vão de escada
fazendo confusão, que aflição
São os homens e eu aqui parado de pijama
eu não gosto de passar vexame
chame, chame, chame
chame o ladrão, chame o ladrão

Percebam que era mesmo uma situação em que de nada adiantava, por exemplo, chamar a polícia. Daí a excelente sacada do grande Chico. A segurança no caso em foco pode-se dizer que estava mais no ladrão do que na autoridade policial.

Depois de encerrado o longo período de ditadura nós mergulhamos numa grande esperança de podermos viver em democracia. Sem querer me alongar no período da transição eu lembro que acabamos tendo como presidente, face às circunstâncias do destino, alguém cujos longos bigodes não nos deixavam esquecer que ele, o próprio, fora uma das lideranças da tal Arena.

Esta nada mais era do que um dos dois únicos Partidos criados para que se levasse o regime para a tal mudança radical. Arena era o Partido que defendia os interesses daqueles que nos impunham a ditadura. O outro, o MDB, apenas fazia uma figuração, esta é a verdade. Entretanto não vou falar de história, isso não.

Após tanto empenho, passeatas, movimentos de rua sem violência, sem arruaças (como agora), com os rostos limpos a as vozes a gritar por eleições “diretas já”, perdemos no voto indireto no Congresso ainda comandado pelos “paus mandados” do regime ditatorial, alguns que ainda por aí estão a se dizer democratas.

Resumindo, iniciamos nosso frágil e neófito regime democrático com um líder que defendera antes o regime anterior, ou o autocrático. Não podia dar certo, e não deu. Nossa gente passou a tropeçar todos os meses e todos os dias numa inflação pra lá de galopante. Ela chegou a superar os 80% ao mês.

Para tentar consertar a situação resolveram depois eleger um tal “Caçador de Marajás”. O primeiro ato dele foi cassar, mas o dinheiro de todo mundo, claro que menos dos amigos mais chegados. E não foi preso, acreditem. Mais pra frente foi expurgado do poder por outros motivos e anos depois absolvido na Justiça!!

Ali também valia mais “chamar o ladrão” já que o próprio governo nos roubava com a maior cara de pau. Meteu á mão em nossas economias. Brasil, brasileiro, ainda sonhava em ser democrático e altaneiro. Todos sabem a história que se seguiu, os homens que acabaram mandando no Brasil, começando com o “topete mineiro”, passando pelo ilustre sociólogo que chamou aposentados de vagabundos, que mandou varrer muito lixo para baixo do tapete e pronto. Oh Brasil, brasileiro.

Se algo mudou para melhor a política acabou por fazer prevalecer o que tanto odiamos, os conchavos, as mentiras, que acabaram trazendo um poder maior comandado por corrupção, uma democracia com certos requintes de ditadura econômica, iludindo os menos favorecidos com programas assistencialistas, etc.

Nem precisaram baixar nenhum decreto do tipo que fez o Caçador de Marajás para começarem a levar o nosso para engordar a arrecadação do Governo. Começou com o reverenciado sociólogo passando depois para o líder sindical que se dizia “surdo, mudo e meio cego”. Este a seguir entronou uma senhora que se diz Presidenta, enquanto eu a chamo de Presidente mesmo.

Fizeram e continuam a fazer uma farra daquelas que rende até hoje e duvido que ela acabe meus amigos. Do jeito que as coisas caminham para nós assalariados, ainda mais aposentados, não seria nada surpreendente voltarmos a pedir que “chamem o ladrão, chamem o ladrão”.

Ah meu Brasil, brasileiro, querendo ser altaneiro e campeão do mundo outra vez, porém as custas da educação, da saúde deste povo que é obrigado a votar e desorientado acaba votando mesmo e nos mesmos. Também se mudarem as pessoas, os nomes do poder, sinceramente eu não creio que vá adiantar muito.

Isto me preocupa demais, pois hoje chamar o ladrão, como idealizou o gênio do Chico Buarque, pode significar continuarmos a ser ludibriados ou roubados de cima para baixo ou vice versa, etc. Ou talvez, quem sabe até nos acuda (eu disse “acuda”?! Vá lá.) a turma da marginália que antigamente era perseguida pela polícia e hoje eles perseguem a polícia. Os tempos mudaram para pior.

Ah meu Brasil brasileiro atualmente não se sabe quem é e de que lado vem o ladrão. Por incrível que pareça pode vir até do lado da lei, mas não para cumpri-la e sim para executá-lo, os exemplos estão aí quase todos os dias.

Então por via das dúvidas hoje evite chamar o ladrão, afinal ele pode estar mais perto do que você pensa e não virá com a intenção de ajudá-lo como idealizou na época o nosso Chico Buarque.

(Querendo conhecer a íntegra da letra dessa música do Chico entre por este link http://www.musica.com/letras.asp?letra=5842 )


(10 de maio/2014)
CooJornal nº 891



Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
Conheça um pouco mais de Francisco Simões
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
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