01/09/2014
Ano 18 - Número 905


 

ARQUIVO SIMÕES

Francisco Simões
em Expressão Poética

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Francisco Simões

 

A RAZÃO E O CORAÇÃO


 

Francisco Simões, colunista - CooJornal


Outro dia a razão decidiu ter uma conversa franca com o coração. Quis saber se ele se importava de responder a algumas perguntas. O coração, meio cansado e desconfiado, aceitou o que considerou uma espécie de desafio da razão.

Esta começou pedindo desculpas se algumas vezes havia atrapalhado decisões que o coração iria tomar alertando-o nem sempre talvez sendo a dona da verdade. O coração respondeu que poucas vezes se arrependeu de não ter dado ouvidos a seus conselhos, mas admitiu que outras vezes ele recuou justo por lhe ter dado ouvido.

A razão admitiu que no passado, quando o coração ainda era bem jovem, deixou de agir, de aconselhá-lo até porque na juventude geralmente se age mais com o coração do que com a razão. Aí esta perguntou se ele, o coração, tivera muitos amores, paixões, frutos de desejos em grande parte e que pudessem ter-lhe provocado problemas. Sem titubear o coração admitiu que algumas vezes sim.

Havia muita verdade naquela afirmação, com certeza, mas nem tudo que o coração incentivou o corpo a fazer viera a tomar o caminho do arrependimento. Se houve casos em que a dificuldade se fez presente o prazer venceu com larga margem qualquer prejuízo provocado eventualmente em nome do amor. Doces tempos de uma mocidade antiga e bem vivida.

O coração admitiu ter vivenciado os meandros do desejo desde muito jovem embora algumas vezes os tivesse confundido com amor. Era natural que muitas e muitas vezes a razão fosse ignorada por ele visto que o despertar de sentimentos assim quando a vida ainda está a começar é muito forte.

Ademais o coração confessou que o corpo que o abriga contou com a ajuda de algumas “professoras” que mais por amizade do que por outro instinto ensinaram-lhe aos poucos o caminho que leva ao desejo, ao prazer. Naqueles momentos jamais o coração quis ouvir a razão, e nem tinha por que.

A certa altura a razão recriminou o coração quando este, mais amadurecido, ignorou alguns alertas, alguns avisos mostrando que o coração caminhava célere para um perigoso precipício. Houve um silêncio meio longo e cabisbaixo o coração admitiu ter tomado realmente o caminho errado. Isto o levou depois a pisar em espinhos, pois sozinho enveredou por um calvário que o conduziu a um longo sofrimento. Enfim este acabou servindo como um dolorido aprendizado de vida.

A razão respeitou a confissão sincera do coração e sentiu em suas palavras o tom de arrependimento. Procurando levantar o moral do coração a razão lembrou-lhe que afinal a vida ofereceu-lhe nova oportunidade de caminhar ao lado da felicidade. O coração sorriu, mas admitiu que, mesmo feliz, ele driblou algumas vezes a razão embora esta tentasse novamente evitar que ele, coração, se deixasse levar por cantos de sereia que poderiam arruinar sua nova vida de amor e paz.

Encontros escondidos, desejos ilícitos satisfeitos, algumas vezes colocando mordaça na razão o coração deixou-se levar pelos impulsos preocupando a razão que perdia espaço naqueles momentos. Por pouco em raros encontros daqueles o coração confessou novamente que quase se deu mal, pois falsos amigos tentaram preparar armadilhas para ele, mas a sorte o ajudou. A razão suspirou fundo: menos mal.

O coração disse ter sido traído por pessoas que estimava e que respeitava, todavia nesta vida nem sempre alguém que se diz amigo merece esta classificação, como realçou a razão. E é verdade mesmo, pois o coração de há muito percebe que da sua antiga relação de amizades poucos hoje ainda manifestam a recíproca verdadeira e fiel. A razão lembrou-lhe então que certo poeta já dissera que amigo não se conhece, mas se reconhece. Hoje o coração tem comprovado esta máxima.

Curiosa, a razão indagou onde foi parar aquela felicidade da qual ele, o coração, usufruiu, mesmo com alguns desvios de comportamentos seus, durante algumas décadas. Num silêncio sepulcral o coração transmitiu à razão o final infeliz e os tantos momentos de solidão e de dor a que o destino o submeteu. Se acreditasse em karma ele diria que teve que pagar por muitos dos seus passos em falso, todavia é difícil crer em algo onde a outra pessoa paga com a sua vida pelo que nós fizemos.

Após alguns momentos nos quais prevaleceu um vazio total de palavras o coração resolveu confessar que novamente a vida lhe ofereceu outra oportunidade. A razão demonstrou curiosidade, pois também com seu envelhecimento muito de sua ação vinha ficando embaçada e já nem tinha certeza se ele, o coração, nesta fase tão avançada de seu viver, ainda lhe dava ouvidos.

Disse o coração que é justamente quando alcançamos idades que a maioria não consegue que parece a razão atuar mais e melhor, além de ser muito mais respeitada por todos, ou quase todos. Segundo alguns seria ela a idade da razão. Nesta fase da vida o coração, embora tivesse companhia e cuidados de outro coração que esteve por perto dele por muitos anos, chegou a recear por um futuro incerto, inseguro e uma velhice meio desamparada.

Felizmente confessou o coração que mais uma vez ele parecia recomeçar a viver já em idade tão avançada. A razão pediu que ele agradecesse à vida, pois lhe permitira um recomeço que nem a todos é oferecido. Neste ponto a razão se fez um pouco mais curiosa e indagou se o coração vivia em paz e amor.

Este nem titubeou e afirmou que qualquer recomeço sempre costuma passar por adaptações e com ele não foi diferente. Realçou, entretanto nada ter a reclamar da vida e sim agradecer sempre ao outro coração que o acolheu, o apóia, o compreende e divide com ele momentos de alegria e tristeza.

Ou seja, sua vida retornou aos trilhos já há algum tempo e espera cumprir o restante do seu prazo neste plano com paz e felicidade sabendo que eventuais altos e baixos fazem parte do script do destino de cada um. Naquele momento a razão percebeu que o coração respondera tal e qual ela também o faria.

A razão e o coração se entreolharam e entenderam que daqui pra frente não deverá haver mais desencontros entre eles. A esta altura da vida razão e coração se entrelaçam e atuam em total harmonia.



(01 de setembro/2014)
CooJornal nº 905



Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
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