01/05/2015
Ano 18 - Número 934


ARQUIVO SIMÕES

Francisco Simões
em Expressão Poética

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Francisco Simões


APENAS SETE ANOS

 

Francisco Simões, colunista - CooJornal

Logo que a gente nasce alguém se apressa a nos dar uma palmada para nos fazer chorar. É algo que não pode falhar. Pergunto: por que não podemos vir ao mundo dos vivos com alguém nos dando primeiro um beijinho tentando nos fazer sorrir? Por que tem que ser logo na pancada?

A vida começa ali e também ninguém nos diz que um dia morreremos, e se disser nada entenderemos ainda. Mas é a única coisa certa. A vida pode ser mais ou menos longa, mas um dia acabará esbarrando na morte.

Então entre o nascer e o morrer por primeiro dependemos de nossos familiares, eles nos guiam, nos encaminham para o viver, pois este é preciso. Conforme o tempo passa em nós vamos, como dizem alguns, nos tornando gente.

Conforme crescemos vamos participando de outros grupos de seres viventes, seja entre os amigos que vamos fazendo na infância e na juventude, assim como entre os colegas durante os anos em que, como dizem outros, nos preparamos para a vida. Estudar é preciso.

Um dia casamos, formamos família, ou outra família e vamos recomeçando a história dos seres humanos. Nos dividiremos então entre os familiares e o trabalho, seja este qual for. E tome obrigações e responsabilidades.

Nem sempre a vida escreve um script de acordo com o que sonhamos ou desejamos. Uns dizem que acima de nós está um Deus que tem suas razões, seus desígnios para administrar o nosso destino.

Outros afirmam haver outra vida além dessa que conhecemos daí justificarem também a reencarnação. Parece, segundo estes, que todos nós temos um carma a cumprir, em quantas encarnações, não sabemos e quando isto pode parar, muito menos temos ciência. Respeito todas as manifestações religiosas como também procuro entender a posição dos que são ateus.

Eu me considero cristão, mas jamais admito debater sobre o tema religião. Só posso afirmar o que ocorreu neste meu longo viver até agora. Um namoro que daria em casamento e que de repente foi por mim rompido. Logo a seguir um casamento que nunca esteve nos meus planos, todavia um impulso mais forte me fez mergulhar numa relação que fracassou em pouco tempo. Conheci então a solidão mais doída, mais sofrida, mais cara de todas, isto ainda em plena juventude.

Nadei sozinho, remei sozinho, estando numa cidade estranha sem familiares e raros amigos. A vida ou o destino um dia me fez chegar a um porto sereno que me inspirava segurança e que realmente me despertava um forte sentimento de amor. Foi o primeiro amor que pulsou como verdadeiro, como capaz de nos levar a um destino certo que justificava alimentarmos sonhos de uma vida feliz.

Com o tempo fomos aprendendo que a felicidade também não é eterna e é feita de momentos. Que ela costuma ser temperada com dor e sofrimento, porém o amor vai superando as dificuldades que não projetamos nem procuramos, porém algo como destino, carma, ou Deus, sei lá nos impôs.

Vimos amigos serem felizes, outros nem tanto, separação, doença ou morte aconteciam. Alimentávamos uma fé muito forte e procurávamos viver o dia a dia, pois como também dizem “o futuro a Deus pertence”.

Após algumas décadas que nos permitiam sonhar com as tais bodas de ouro (50 anos de casados) sentimos na carne os tais desígnios de Deus. Nosso script de vida estava nas últimas páginas sem que aparentemente nada fizéssemos para merecê-lo. O castigo era pesado demais, mas por quê? Se Deus é amor por que nos torturava? Isto ficará sempre sem resposta e dizem que devemos aceitar.

Mergulhamos outra vez num sombrio período de solidão sem perspectiva inicial de mudança daquele quadro. O futuro era incerto o sofrimento não. Seria novamente o tal de carma? Se era, eu acho que já estava escrito que teríamos nova chance de vida o que somente se revelou alguns anos após. Uma nova oportunidade de caminhar a dois, de um viver solidário numa reta final bem desenhada.

Quando escrevo este texto, neste dia 11/Abril/2015, recordo que esta nova fase de vida completa hoje 7 (sete) anos. Aos 78 anos de vida, vendo o horizonte cada dia mais perto, nos foi oferecida uma terceira chance de sobreviver, ir além, porém jamais sentir o prazer antes sonhado de uma boda de ouro.

Acho que eu devo agradecer talvez a Deus ou ao destino, ou aceitar esta nova oportunidade de um carma que está me concedendo, até hoje, pelo menos, mais sete anos de um recomeçar a dois que me permite agora me voltar também para tantos outros destinos que de certa forma passam a depender de mim.

Ou como repetiu outro dia um grande amigo ele sim um cristão convicto e praticante: “Amigo, Deus nos dá a cruz que podemos carregar.” Então vou cuidar de ir levando a minha, agradecendo esta nova oportunidade de poder viver e ser útil.

 

Comentários sobre o texto podem ser enviados ao autor, no email fm.simoes@terra.com.br

(01 de maio, 2015)
CooJornal nº 934



Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
Conheça um pouco mais de Francisco Simões
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