15/07/2015
Ano 19 - Número 944


ARQUIVO SIMÕES

Francisco Simões
em Expressão Poética

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Francisco Simões


AMIZADE ACIMA DO CLUBISMO

 

Francisco Simões, colunista - CooJornal


Quem me conhece bem sabe que sou brasileiro, mas filho, neto e bisneto de portugueses. Vivi em Portugal aos 10 anos com meus pais e os irmãos que já haviam nascido, isso em 1947 logo após o final da II Guerra Mundial.

Sempre me considerei um cidadão luso-brasileiro e como tal torcedor do nosso Vasco da Gama, claro. Torço, porém jamais tive ódio por outros clubes ou senti raiva quando times como o Flamengo chegam a ser campeões, de forma alguma. Alguns não me entendem, mas sou assim mesmo. Vou explicar porque digo isso.

No ano de 1998 foi a quarta vez que fui passar longo período em Portugal após ter-me aposentado. Um amigo sempre me alugava um apartamento em Lisboa e lá eu ficava morando por alguns meses. Era como um renascer, um reviver enquanto fugia por bom tempo do que acontecia por aqui sendo que hoje está ainda pior.

Ocorre que aqui em Cabo Frio eu tenho uma casa no bairro do Braga, perto das dunas que ficam entre nós e a praia. O condomínio é grande, tem muitas casas e uma delas pertence ao valoroso Rondinelli, antigo craque do Flamengo. Ele mora em S. Paulo, porém vem muito a esta cidade. Fizemos ótima amizade à parte o nosso clubismo.

No ano de 1998 quando estava novamente morando por uns meses em Lisboa descobri que outro grande craque que fora ídolo do Flamengo nos tempos antigos e depois se notabilizou no meu Benfica, em Portugal, havia inaugurado um restaurante num lindo prédio recém inaugurado e que ficava relativamente perto de nós.

O sentimento de amizade falou mais alto que as diferenças clubísticas. Pensei em fazer uma bela surpresa ao Deus da Raça do Flamengo, que foi o nosso bravo Rondinelli. Na época em que este jogou pelo rubro-negro teve como mestre, como ele mesmo sempre me disse, o Mozer em quem muito se espelhou.

Certo dia eu fui até o restaurante do Mozer, em Lisboa, e conversando com uma tia dele fiquei sabendo que somente à noite ele estaria ali. Expliquei a ela o meu plano com o qual ela concordou de imediato e disse que me ajudaria. Antes que eu voltasse ao restaurante ela já explicara tudo ao Mozer que logo se lembrou do grande amigo e seu discípulo do passado no Flamengo.

Ao chegar lá mais tarde já me esperava um envelope com propaganda do referido restaurante e dentro dele um belo postal com linda e emocionante mensagem escrita pelo próprio Mozer e dirigida ao Rondinelli. Fiquei muito feliz com a atitude do Mozer e confesso que não esperava outra coisa dele.

Agradeci sabendo que aquela singela lembrança iria mexer com o coração do grande Deus da Raça rubro-negra, meu amigo Rondinelli. Ao voltar ao Brasil e vindo a Cabo Frio tramei como faria a entrega daquilo ao bom vizinho. Fomos à praia e ao retornarmos dela tratei de jogar um pouco de água nas flores do nosso pequeno jardim enquanto aguardava o aparecimento do amigo.

De repente ele surgiu na porta da casa dele que fica a três casas da minha. Fui até sua presença caminhando devagar, cumprimentei-o, ele me perguntou pela viagem e aí eu lhe anunciei que tivera a audácia de tentar lhe fazer uma grande surpresa. Rondi não entendeu e nem desconfiou do que seria, todavia mostrou-se interessado pela surpresa.

Foi quando eu lhe entreguei o envelope vermelho que por fora trazia um belo selo do Flamengo por mim colocado. Ele abriu bem devagar sem desconfiar de nada. Emotivo como eu sou antes dele ver o singelo presente o amigo já percebia que eu estava todo arrepiado. Foi difícil segurar a emoção diluída em lágrimas quando Rondinelli começou a ler o que Mozer lhe escrevera, do próprio punho e de coração.

Acreditem, amigos e amigas, eu vi naquele momento o Deus da Raça, aquele ex-atleta ainda forte jogando suas peladas, não conseguir esconder sua emoção, já que ele era muito grato ao Mozer por tudo que ele lhe ensinara quando este, Rondinelli, começava a jogar no Flamengo.

A seguir ele releu tudo, me olhou fixo e seus olhos provaram que um deus também sente emoções humanas. Deu-me um abraço e ali o clubismo se fundiu na amizade que sempre vence quando há respeito e lealdade de ambas as partes. Valeu demais minha lembrança, fez duas pessoas felizes, com certeza, sem falar no grande Mozer.

Assim sou eu, amigos e amigas, prezo demais uma amizade leal, verdadeira, sincera, que com certeza dura para além da vida terrena. Hoje eu moro em outra casa, em outro bairro há apenas 2 km, porém ainda mantenho minha casa do Braga e quando lá vou sempre pergunto pelo amigo Rondi.

Esta é uma de minhas muitas histórias verdadeiras que eu nunca contara aqui. Agora botei este assunto em dia. E não esqueçam, procurem colocar sempre a amizade acima de qualquer clubismo.



Comentários sobre o texto podem ser enviados ao autor, no email fm.simoes@terra.com.br

(15 de julho, 2015)
CooJornal nº 944



Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
Conheça um pouco mais de Francisco Simões
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