01/08/2015
Ano 19 - Número 946


ARQUIVO SIMÕES

Francisco Simões
em Expressão Poética

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Francisco Simões


O ENCONTRO NUNCA COMBINADO

 

Francisco Simões, colunista - CooJornal



Nós costumamos vir ao Rio nas tardes de sábado e no domingo almoçamos sempre no mesmo restaurante. Este fica próximo ao Jardim de Alah que separa Ipanema do Leblon.

Gosto de repetir os lugares que já conheço, onde somos bem tratados e atendidos sempre pelo mesmo garçom que é nosso amigo já há alguns anos. Por coincidência há um cantor da antiga que admiro por demais que frequenta o mesmo ambiente com sua família também há anos.

Ele sempre teve uma das vozes mais bonitas da MPB além de ser uma pessoa com um caráter dos mais elogiáveis pelo que sempre eu soube.

A mesa que ele usa é perto da que nós costumamos ficar e eu sempre tive vontade de falar com ele, mas haja vergonha. Fico pensando que se me aproximo pensam logo que vou pedir autógrafo e cansá-los com histórias que acabam se tornando inconvenientes.

Ano passado não resisti à tentação e ao sairmos do restaurante e passarmos bem perto dele eu me dirigi a minha nora e disse que ela não o conhecia por ser muito jovem, e que ele é da minha geração e tem uma das vozes mais brilhantes que conheci até hoje além de ter um caráter acima de qualquer suspeita. Falei isto olhando para ele que percebeu minha intenção, sorriu para mim e disse estas palavras: “Obrigado, meu amigo”.

Eu sei que foi pouco, muito pouco, mas para mim valeu como uma medalha de ouro. Fiquei feliz e saí de lá sentindo que eu havia ganho o dia. Passado algum tempo retornamos ao Rio e novamente fomos àquele restaurante no domingo.

Ao vê-lo entrar percebi que estava doente e se apoiava no filho. Seu olhar não era o mesmo e os passos vacilantes. Tomei um choque, mas silenciei e nada disse, nem era o caso. O garçom nos confirmou o que acontecera com ele. Naquele dia eu saí do restaurante arrasado.

Após algumas semanas fomos obrigados a voltar ao Rio para eu começar a cuidar de minha cirurgia de catarata com um excelente médico que um amigo me indicara. Mais uma vez fomos almoçar no mesmo lugar de sempre no domingo.

Quando nos preparávamos para sair após almoçar percebi a chegada dele com a família. Vi que estava bem, andando normalmente e certamente se recuperara. Feliz eu chamei o garçom amigo e este me confirmou que agora ele estava bem.

Eu comecei a deixar um recado com o garçom, todavia este se adiantou, foi até o cantor e apontou para mim. Ele sorriu e então eu me levantei, fui até ele que logo me esticou a mão.

Apesar dos meus quase 79 anos me emocionei, pois senti que iria resgatar um desejo de toda uma vida. Falei com ele o que estava guardado no coração de um fã há décadas. Não poupei palavras enquanto ele me abraçava, sorria e agradecia.

Seus familiares participaram deste encontro aguardado por mim por toda uma vida também sorrindo e me cumprimentando. Meu Deus, e nem pedi autógrafo, isto não, só queria ter a satisfação de poder dizer que um dia eu falei com o grande Carlos José e que ele me abraçou sorrindo.

Além do extraordinário cantor que sempre foi, da bela voz, Carlos José possui um caráter como poucos num país onde caráter, honra e honestidade parece serem coisas em extinção.

Quando me juntei a minha esposa e saía do restaurante a emoção bateu mais forte, parece que eu despertara de um sonho.

Um fã que não pede autógrafos, mas agradece um sorriso, um abraço e assim levantara um troféu que pensara nunca ia conseguir face a minha discrição, meu respeito a alguém que eu admiro desde jovem como uma das vozes mais bonitas da nossa MPB, com certeza.

Como sou muito emotivo olhei para minha esposa e lhe falei: “Desculpa, não deu para segurar, é a felicidade que transborda após tão longa espera. Ele está bem, que bom.”

Que Deus o conserve ainda por um bom tempo para alegria de seus fãs e de seus familiares. Deixo aqui minha modesta homenagem ao magnífico Carlos José, a voz, o caráter.



Comentários sobre o texto podem ser enviados ao autor, no email fm.simoes@terra.com.br

(1º de agosto, 2015)
CooJornal nº 946



Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
Conheça um pouco mais de Francisco Simões
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