15/08/2015
Ano 19 - Número 948


ARQUIVO SIMÕES

Francisco Simões
em Expressão Poética

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Francisco Simões


Conversando com a solidão
 

Francisco Simões, colunista - CooJornal


Hoje resolvi mergulhar em recordações desde minha infância no que concerne a minha relação contigo, cara solidão. Sei que lembrarás de mim e de nossos momentos, algumas vezes agradáveis e outras meio torturantes.

Embora tendo tantos irmãos e irmãs com o tempo, eu que sou o primogênito de uma família que teve 10 filhos, desde muito pequeno recordo que procurei muitas das vezes estar só contigo para poder brincar como eu gostava, fazer as coisas como eu idealizava sem a interferência de ninguém. Para isso eu precisava estar só, ou seja, apenas tu eras minha testemunha daqueles momentos, tu, solidão e o silêncio. Tive uma infância feliz.

Estivesse eu brincando no grande pátio de nossa linda casa, em Belém, à tarde, quando eu tinha aula no Colégio Nazaré apenas pela manhã; ou procurasse eu me isolar em outros locais já percebendo em mim aquilo que mais tarde eu conheceria como desejo, apenas tu sabias do meu auto aprendizado. Nisso sabes que eu fui bem precoce, pois já pelos 8 a 9 anos eu usava meu corpo para me satisfazer. Nesses momentos nada melhor do que estar realmente só.

Houve o tempo em que este pequeno quieto e meio calado procurava refúgio em certa zona do nosso imenso porão, em casa, ora para fazer alguns exercícios além das corridas, da barra, do aparelho de remar e outros, eu montara ali a minha rádio do porão. Ser radialista tu sabes que era um dos meus sonhos desde a infância. Naqueles momentos eu não queria ninguém me bisbilhotando, por isso eu buscava o silêncio que tu me proporcionavas.

Fui crescendo ao mesmo tempo em que outros irmãos e irmãs iam nascendo, mas eu sempre encontrava uma forma de estar contigo, solidão, no afago de tua cumplicidade, tu que testemunhaste muitos dos melhores momentos do meu viver naqueles antigos tempos.


Já chegando aos 15 anos, enfim conheci o lado real e maravilhoso do desejo, quase amor. Quantos foram os momentos em que eu fugi para o porão a fim de estar só embora esperando a chegada de quem foi minha primeira “professora”, amiga, quase amante, quase namorada. Solidão, tu te lembras daquele quarto, daquela rede?

Ciente de que minhas fugas começavam a despertar ciúme e certa inveja em alguém procurei sempre ser cauteloso e a rede de dormir de um dos quartos do porão me abrigou muitas vezes. Deliciosas lembranças daquele tempo em que o desejo passara a ser compartilhado, a dois, quando minha parceira entregava-se de corpo e alma às nossas “aulas de amor”, fosse de dia fosse à noite.


Eu sabia do risco que corríamos embora nada fizéssemos que prejudicasse alguém, mas a inveja costuma atrair a vingança. Embora tu, solidão, nos abrigasse sempre no teu silêncio cúmplice, um dia a inveja nos flagrou e logo veio sua reação vingativa. O castigo caiu justo na parte mais fraca, minha parceira e amiga foi despedida. Até hoje lamento tal infelicidade que ajudei a causar a ela.

Posteriormente a vida foi me levando para meu futuro e eu que o sonhara em paz e felicidade vi-me arrastado novamente para os teus braços, solidão. O grande erro fui eu mesmo que cometi.

Desta vez nossa convivência foi muito doída, sofrida, ou como dizem, parece que paguei muitos pecados passados. Nunca deixei que minha família soubesse do que acontecia comigo estando tão distante deles numa cidade estranha e novamente só. Qualquer separação, ainda que necessária, deixa sempre suas feridas e dói demais.

Um dia a vida ou o destino decidiu me compensar aquele castigo oferecendo-me uma felicidade na qual tu, solidão, não cabias. Foram longos anos nos quais a paz e o amor te mantinham distanciada de mim. Mal eu sabia, porém, que a vida às vezes costuma ser feita de momentos felizes e não de felicidade completa. Acabei aprendendo mais esta dura lição após quase quatro décadas que vivi sem precisar recorrer a ti, amiga solidão.

Entretanto de repente me vi de retorno à tua convivência. O silêncio agora não era propriamente cúmplice, mas um algoz que me torturava no vazio de uma existência sem razão até mesmo para viver. Este período durou cerca de quatro anos.

Foi quando tu, solidão, percebendo que eu caminhava para um fim triste e iminente, um dia me indicaste um provável caminho da salvação. Abriste mão de tua estada comigo mais uma vez e me entregaste ao anjo que me salvou e acabou conduzindo sua vida junto comigo.

Embora eu já me encontrasse no que costumam chamar de “reta final” entreguei-me de corpo e alma a esta nova chance de um viver saudável, em paz, procurando ser feliz e distribuir felicidade. É como tenho levado a vida no tempo que me resta.


Quanto a ti, amiga solidão, espero só te encontrar novamente naquele momento em que todos os seres viventes entregam-se a ti por ser apenas o que lhes resta.



Comentários sobre o texto podem ser enviados ao autor, no email fm.simoes@terra.com.br

(15 de agosto, 2015)
CooJornal nº 948



Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
Conheça um pouco mais de Francisco Simões
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