01/11/2015
Ano 19 - Número 958


ARQUIVO SIMÕES

Francisco Simões
em Expressão Poética

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Francisco Simões


Rubem Alves sempre esteve com a razão
 

Francisco Simões, colunista - CooJornal



Certa vez ao ler textos do nosso saudoso escritor, poeta, teólogo, pedagogo e filósofo Rubem Alves, falecido em 19/07/2014, embora sempre o aplaudisse eu acabei discordando dele quando eventualmente o Mestre falava sobre sua idade, sobre a velhice que o alcançara já há alguns anos.

Ele costumava ser muito contundente ao se referir aos “efeitos” que a idade avançada lhe impunha. Salientava as limitações, especialmente as físicas, claro, afinal sua mente permanecia lúcida, muito lúcida, e ele não deixava de criar, de produzir, de escrever.

Alguns poucos textos que li nos quais Rubem Alves falava de sua velhice, com todas as letras, eu confesso hoje talvez não tê-lo entendido corretamente, ou faltou-me competência para alcançar os motivos, as razões de suas críticas com tons de meio desabafo ou quase lamentações.

Eu lia e me vinha uma vontade de discordar de seus argumentos, mas afinal quem sou eu para ter a audácia de me insurgir contra o que ele dizia já que afinal ele falava de sua vida, de seu dia a dia, e certamente talvez sofresse um pouco com as tais limitações físicas. Da minha parte ao pensar na crítica eu estabelecia alguma comparação com a minha realidade de idoso, realidades que não eram iguais evidentemente.

Um dia arrumei coragem (maldita coragem) e então escrevi e divulguei um texto no qual eu o criticava por tudo que ele alegava ao se sentir “velho”. Jamais desrespeitei o seu talento a sua imensa bagagem literária, isso não. Eu somente achava que o Mestre Rubem exagerava ao se autocriticar justo, como ele dizia, “por ser velho”.

Mergulhei num julgamento que hoje considero eu não tinha o direito de fazê-lo. Também eu já caminhava no meu futuro e assim avançava na idade ou, como ele dizia, eu também estava ficando velho ou idoso.

Sei que agora é muito tarde para eu me penitenciar do que escrevi à época, sempre o respeitando e aplaudindo, mas discordando dos tais argumentos que a velhice lhe impunha. Hoje cheguei aos 79 anos, estou mesmo batendo às portas dos 80, idade na qual Rubem Alves faleceu por falência múltipla dos órgãos no ano passado.

Após enfrentar determinados fatos e situações e ter proibições para me exercitar como sempre o fiz, gosto e preciso fazer, passei a entender o alcance das palavras do Mestre naqueles artigos sobre sua idade.

Não que eu me sinta mergulhar em alguma depressão, isso não, entretanto de repente percebo que a expressão ser velho não diminui ninguém, não nos deve abater no ânimo de continuar a produzir no que gostamos de fazer, mas a própria vida nos faz sentir e entender que afinal chegamos a um patamar em que nosso horizonte, como eu digo, está cada dia mais próximo.

Isto pode ser traduzido, claro, como que já invadimos a última etapa de nossa existência. Se alguns hoje têm conseguido alcançar mais de 100 anos de vida, uns poucos até produzindo e muito lúcidos, outros nem tanto. Afinal não somos imortais.

Ultimamente alguns fatos e ocorrências despertaram minha atenção para eu poder hoje afirmar que sou sim idoso, ou que estou ficando velho mesmo. Nada depreciativo nesta afirmação, porém só o fato de avançarmos no tempo, na idade, é natural que a existência nos limite algumas atividades.

Talvez esta lucidez tivesse levado o Mestre Rubem Alves a falar de si como velho algumas vezes rejeitando o que outros tentam nos atribuir como “qualidade” ou “vantagens” justamente por sermos velhos. Hoje, repito, fui precipitado ao criticá-lo em certo momento o que me deixa uma desagradável sensação de ter sido injusto com ele. Não me perdoarei.

Por esta e por outras é que eu decidi antes de divulgar este texto mandar para todos da minha lista um pps excelente contendo um magnífico e sincero desabafo de Rubem Alves quando escreveu “Ganhei Coragem”. Quem não o leu procure que o encontrará em sites de busca com certeza. Garanto que vale a pena. Eu o tenho no meu arquivo.

Lendo aquele documento entendemos como temos sido covardes quando acatamos tudo que alguns nos empulham, enfiam-nos goela abaixo, e ficamos calados ou de cabeça baixa sem termos coragem de dizermos um sonoro não ou de afirmarmos que nosso gosto, nossa preferência é bem diferente. Afinal pensar diferente, gostar diferente, é um direito inalienável que todos temos e quem não nos aceita como somos, como pensamos, pois que vá para os quintos do ... é isso aí.

Encerro usando o título desta crônica: “Rubem Alves sempre esteve com a razão”. E que ele me desculpe, me perdoe esteja onde estiver.




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Comentários sobre o texto podem ser enviados ao autor, no email fm.simoes@terra.com.br

(15 de setembro, 2015)
CooJornal nº 952



Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
Conheça um pouco mais de Francisco Simões
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