01/03/2016
Ano 19 - Número 974


ARQUIVO SIMÕES

Francisco Simões
em Expressão Poética

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Francisco Simões

Aposentadoria
 

Francisco Simões, colunista - CooJornal



Quando jovem sempre pensei que era melhor eu começar a trabalhar logo que pudesse, mas jamais imaginei que isto me favoreceria em termos de uma aposentadoria precoce. Com 14 e 15 anos não fazemos planos para esta fase de nossa vida que acaba por nos ocorrer. Eu queria era ter o meu dinheiro por pouco que fosse sem depender dos meus pais.

Todavia quando eu tinha 16 anos, mesmo cursando ainda o científico num Colégio bem exigente, o Nazaré, em Belém, conduzido por Irmãos Maristas, e estando a caminho de ser convocado para servir o exército, tratei de me inscrever num programa de auditório da então recém- inaugurada Rádio Marajoara.

Claro que o fiz escondido de meus pais, pois eles jamais o permitiriam. Fui até o final no julgamento, mas em teste como locutor fiquei em segundo lugar, afinal o vencedor era exímio tocador de gaita de boca. Muito justo. Mesmo assim nunca desisti de tentar entrar para o rádio que era uma de minhas paixões, e o é até hoje.

No ano seguinte realizaram um concurso para completar a bela equipe de locutores que a Marajoara já possuía. Isto foi em 1953. Acreditem que dos 50 candidatos apenas 2 foram aprovados, meu saudoso amigo e colega de turma no Colégio Nazaré, o Clodomir Colino e eu. Eu acabara de completar 17 anos e logo assumi como locutor profissional. Quanto orgulho por conseguir integrar uma equipe de profissionais do mais alto gabarito.
 
Ao saber disso meu pai se preocupou, achava que eu podia me prejudicar nos estudos, afinal cursava ainda o terceiro ano científico. Some-se a tudo isto que meses depois fui convocado e servi por um ano e meio no CPOR, na Infantaria. Jamais fui reprovado nem no Colégio Nazaré nem no curso de oficiais do CPOR.

No rádio logo eu estava escrevendo crônicas diárias pelas quais recebia um valor em cachê além de produzir um programa humorístico que me rendeu o prêmio, em certo ano, de Melhor Produtor Humorístico do rádio paraense. A preocupação de meu pai se converteu em orgulho. Sempre tive o apoio dele especialmente na escrita.

Trabalhar no rádio era a realização de um sonho meu ainda de criança, todavia eu tinha pela frente outro desafio: atender a um desejo de meu pai Manuel dos Santos. Ele insistia para que eu fizesse concurso para o Banco do Brasil, entendia que o BB me garantiria um futuro mais tranquilo. E ele estava certo, pelo menos até alguns anos passados.

Em 1957 me submeti ao tal concurso e fui aprovado em quarto lugar no geral. Esta classificação me garantiu permanecer em Belém junto a minha família e não ir para o interior do Estado. Aguentei atuar no rádio e ser bancário por alguns meses, depois tive que decidir e optei, ainda que meio triste, por ficar só no BB.

Trabalhei na Ag. Centro de Belém apenas pouco mais de 2 anos e a seguir me transferi para o Rio de Janeiro em 1960. Com a ajuda de outro saudoso amigo, o Germano Lopes, comecei a atuar em Departamento da Direção Geral do BB e assim continuei, de Departamento em Departamento, até minha aposentadoria, ou mais 28 anos.

Este texto tem a ver com o fato de que agora no dia 25 do mês de Fevereiro, próximo passado, eu completei 30 (trinta) anos de aposentado do BB. Alguns colegas não se conformavam com minha decisão já que eu ocupava um ótimo cargo no Gabinete da Presidência da PREVI do BB e ainda nem completara 50 anos de vida. Entretanto eu já tinha 34 anos de contribuição para o INSS e muitos planos a realizar pós-aposentadoria.

Em verdade caso eu não tivesse tomado aquela decisão em 1986 decerto me arrependeria. Minha então esposa logo 15 anos após ficou doente com um câncer que acabou por vitimá-la um ano e meio depois. Mas tive tempo suficiente para conseguir antes uma entrevista na TV Manchete com o saudoso Clodovil Hernandez e a seguir realizar várias exposições de minhas “Fotografias Artesanais”. Ela sempre me apoiou.

Igualmente eu planejara antes umas viagens com ela à Europa com base em Portugal, Lisboa, pois pretendia voltar à terra do meu pai e do meu avô e à aldeia de Salreu onde na infância eu vivi um ano com minha família em 1947. Acabamos morando em Portugal por 4 longos períodos. Já contei essas aventuras em diversos textos publicados aqui mesmo no Coojornal da revista RIO TOTAL.

Voltei a este assunto hoje porque não me conformo com a atitude de muitos jovens que eu conheço alguns inclusive que estão bem perto de nós, e que sequer se preocupam em aprender uma profissão, fazer algum concurso, enfim trabalhar ou se formar em algo mesmo chegando aos 20 anos de idade. Lamentável. Encaram a vida com uma irresponsabilidade que me assusta visto que não terão pais nem tios nem avós por toda a sua existência.

Quando conversamos com eles demonstram total desinteresse pelos exemplos que damos o que mais nos assusta. No mundo atual as oportunidades são raras, a necessidade de empenho é muito grande e as “tentações” para um descaminho estão aí. Chegando aos 80 anos de idade tenho muitos e bons exemplos para dar, mas parece mesmo que eles não se interessam. Torço muito pelo futuro deles, pois o meu já chegou faz tempo. Apesar dos pesares não tenho muito de que me queixar.

Trinta anos de aposentado do Banco do Brasil sinceramente é mesmo para comemorar. A vida me pregou algumas peças, mas me trouxe compensações que têm me ajudado a continuar nesta estrada. Saúde e paz para todos que me lêem.



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Comentários sobre o texto podem ser enviados ao autor, no email fm.simoes@terra.com.br

(1º de março, 2016)
CooJornal nº 974



Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
Conheça um pouco mais de Francisco Simões
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
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