15/03/2016
Ano 19 - Número 976

 

ARQUIVO SIMÕES

Francisco Simões
em Expressão Poética

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Francisco Simões

Felicidade só se tem quando se ama
 

Francisco Simões, colunista - CooJornal


O título deste meu texto eu retirei da letra de uma das canções do repertório de Sílvio Brito, pessoa que admiro como gente, como compositor, poeta e intérprete.

À primeira vista a afirmação acima nos parece ser verdadeira e incontestável. No sentido da letra da referida canção que ele interpreta também. Todavia eu resolvi analisar esta assertiva trazendo para exame toda uma vida de 80 anos, seus amores, seus desenganos, seus erros, enfim uma estrada e tanto que já trilhei.

Quem na sua mocidade não teve namoricos, pequenos casos amorosos, digamos assim, que não carregavam grandes sonhos. Eu não fui exceção e confesso que namorei bastante. Não se podia colocar felicidade naqueles relacionamentos que nem sempre duravam o suficiente para crescerem.

Eles até geravam alguns sonhos, é verdade, algumas eventuais esperanças, mas jamais alimentávamos alguma felicidade no termo mais exato da palavra. Apenas a alegria jovial de mais uma conquista.

Conforme fomos crescendo, avançando na vida e na idade, mas ainda em plena juventude, surgiu enfim a namorada que começou a lançar raízes de futuro carregando uma deliciosa sensação de felicidade. Eu a amava e ela a mim também.

Não só nós como nossas famílias tínhamos certeza de que caminhávamos para uma união estável e duradoura. Pois é, tudo levava a crer sim que seríamos felizes para sempre, como se diz. De repente, nem quero aqui me justificar, pois não tenho o direito de fazê-lo, todavia confesso que este jovem se enrabichou por outra mulher que mal conhecera.

Creio que a paixão falou mais alto que o amor, um erro imperdoável, e repentinamente me vi fisgado pelo desejo, digamos assim, que superou e desprezou um amor que tanto eu como a jovem minha primeira e efetiva namorada cultivávamos para sermos felizes pelo resto de nossas vidas.

A verdade é que eu paguei caro por uma decisão açodada que me cegara nos sentimentos mais nobres e eu descobri a duras penas que em verdade felicidade só se tem quando se ama. Penei, sofri muito, porém nunca desisti de reiniciar uma nova trajetória de vida feliz. Carreguei minha cruz com sacrifício, porém com dignidade sempre.

O destino acabou me oferecendo uma segunda chance de ser feliz. Eu ainda estava ali pelos 26 a 27 anos de vida e já tinha a oportunidade de casar pela segunda vez. O amor nos envolveu completamente e nos fez ter uma vida conjugal tranquila, serena, uma vida familiar alegre que me fez recordar a que eu já tivera no passado com meus pais e irmãos.

Diz o verso de certo poeta que “ser feliz não é sempre”. Claro que todo e qualquer casal que mantém uma união estável por uns bons anos acaba por passar períodos de plena alegria, felicidade, mas também atravessar alguns momentos menos agradáveis. Faz parte da vida de todos nós.

Afinal temos que reconhecer que a vida não é sempre um mar de rosas como podemos imaginar ainda quando bem imaturos. Mesmo uma união que perdure por quase quarenta anos, como foi o caso do meu segundo casamento, a felicidade dará espaço para alguns momentos de desencantos ou tristeza ou lá o que seja. Entretanto valeu a pena ter vivido tão longo período de união.

Eu imaginava que um dia comemoraríamos as tais “bodas de ouro” (50 anos de casados) como vimos alguns casais amigos terem a ventura de fazê-lo. Ocorre que o destino, ou a vida, ou Deus, sei lá o quê, não escrevera um script para nós que incluísse tal comemoração.

Eu volto àquele verso título deste meu texto: “Felicidade só se tem quando se ama”. Ocorre que até a dita felicidade algumas vezes parece já trazer nela marcado um prazo de validade. Infelizmente nós jamais o conhecemos e talvez seja melhor assim. Quando ocorre o desfecho e perdemos o amor que até jurávamos eterno o jeito é encarar a realidade que nos é imposta repito, pelo destino, ou por Deus, ou sei lá o que.

Infelizmente isto me ocorreu na altura em que eu já estava com 67 anos. Recomeçar é bem difícil, com certeza. Felizmente eu tive a sorte de poder contar aqui em Cabo Frio com o apoio, a ajuda de uma família muito amiga. Tive também a assistência total da pessoa que me ajudou, e como ajudou, a cuidar de minha segunda esposa no longo período da doença. Devo muito e muito a ela de verdade.

Passados alguns anos e tendo aos poucos superado a dor da perda anterior que me causou um problema de pressão arterial que nunca antes eu tivera acabei percebendo uma luz no fim do túnel, isto já quase aos 72 anos de idade. Tomei coragem e me agarrei ao que seria o “passaporte” para uma vida ainda mais longa em paz, com muita amizade, mesmo sem me importar com uma eventual ausência do amor.

A vida continua e procurei recomeçar novamente de cabeça erguida sem querer desmentir a afirmativa de que “felicidade só se tem quando se ama”. Quando se quer muito bem a alguém, quando nos dedicamos de corpo e alma a essa pessoa, posso afirmar que sentimos em nosso coração o pulsar de um sentimento que até pode ser entendido como amor.

E a vida continua. Por quanto tempo eu não sei nem me preocupo, prefiro viver e deixar viverem. Afinal já estou às portas dos oitenta anos.


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Comentários sobre o texto podem ser enviados ao autor, no email fm.simoes@terra.com.br

(15 de março, 2016)
CooJornal nº 976



Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
Conheça um pouco mais de Francisco Simões
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