15/08/2017
Ano 20 - Número 1.041

 

ARQUIVO SIMÕES

Francisco Simões
em Expressão Poética

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Francisco Simões

“A ERA DOS FESTIVAIS”

Francisco Simões, colunista - CooJornal



Outro dia minha grande amiga Irene Serra, responsável pelas maravilhosas edições desta revista Rio Total onde tenho a honra de escrever há mais de 20 anos, perguntou-me o que eu achara da reportagem sobre “Música” que ela colocara na revista e que tinha como autor Cândido Luiz de Lima Fernandes, economista e professor universitário na cidade de Belo Horizonte.

Eu lhe disse que além de gostar muito tive a oportunidade de relembrar uma fase maravilhosa de minha vida, não obstante os dissabores da ditadura então reinante neste país. Hoje estou às vésperas dos meus 81 anos, (aniversario no dia 17/agosto), mas quase ao final de 1964, com apenas 28 anos, eu casara com minha segunda e saudosa esposa Zezé, que Irene chegou a conhecer.

Nossa primeira morada foi num pequeno prédio de três andares, sem elevador, que ainda existe, ali na Aníbal de Mendonça, quase esquina com Visconde de Pirajá. Justamente no ano seguinte, ou 1965, a TV Excelsior, que ficava há cerca de meio quarteirão de onde morávamos em Ipanema, anunciou que promoveria o primeiro Festival da MPB.

Contei então à Irene o que agora vou revelar a vocês, pois sei que talvez nenhum dos meus amigos leitores que acompanham meu trabalho no CooJornal desta revista conhece mais esta de minhas muitas facetas de vida. Imaginem que de repente veio-me a inspiração de compor uma música e tentar inscrevê-la naquele Festival. Realmente era muita petulância de minha parte, mas tentar não custa nada, claro.

Assim, eu criei “Vida e morte de um capoeira”. Tanto fiz a música como escrevi a letra. Quando a dei por concluída, eu mostrei aos nossos cinco sobrinhos, irmãos e filhos de minha cunhada, Jomar, até porque cada um deles tocava algum instrumento. Chegaram a formar um conjunto à época.

Seus nomes, Glauco, Márcio, Gilsinho, Paulinho e Sérgio. Glauco mais tarde acabou se realizando como músico, um excelente violinista e tocou tanto na Orquestra Sinfônica Brasileira como na Orquestra Sinfônica do Teatro Municipal. Também gravou com diversos artistas da maior projeção na MPB. Minha ideia era que Glauco me ajudasse no arranjo da música e depois gravássemos a dita cuja.

Ensaiamos em diversos fins de semana na casa de Jomar. Discutimos muito sobre detalhes, mais da música do que da letra. Enfim, chegamos à conclusão de que já poderíamos gravar definitivamente e assim o fizemos num gravador amador. Peguei a fita, juntei com a letra escrita numa folha de papel, e quando a coragem bateu mais forte fui até a TV Excelsior e a inscrevi.

Depois veio a fase de seleção das músicas que participariam do Festival. Alguns músicos e maestros renomados compunham a comissão de seleção. O tempo foi passando, quando certo dia eu recebi um telefonema no BB – DESED, onde eu já trabalhava. Era um amigo da antiga de Belém, Fernando Lucas.

Nós trabalháramos tanto no BB como na Rádio Marajoara onde ele, o Fernando, era cantor e dos bons, isto nos anos cinquenta. O amigo se encontrava como eu no Rio de Janeiro, porém ele trabalhava na Ag. Cinelândia. Eu soube que ele continuava a cantar além de trabalhar no BB.

De imediato, o amigo me disse que esteve presente nas sessões de seleção das músicas que participariam do I Festival da TV Excelsior. Acompanhou tudo e se surpreendeu quando viu anunciarem minha música. Ele reconheceu o nome e ao ouvir a gravação se irritou. Afinal tudo estava em clima de total amadorismo. A partir daí recebi um esporro do amigo Fernando.

Explico: o amigo cobrou por que eu não falei com ele sobre a música e não pedi que ele a gravasse profissionalmente. Afinal, segundo ele, a música era boa e eu teria mais chance se a apresentasse com os cuidados do profissionalismo. A seguir ele justificou: "Tua música ficou disputando uma vaga até o final e teve certo Maestro, cujo nome agora me foge, que a teria defendido muito nos debates, apesar de tudo.”

Segundo o amigo, só fui derrotado no último momento, quando ficaram umas três músicas disputando a última vaga. Ele insistiu que se tivesse sido gravado profissionalmente eu teria mais chances até de participar do Festival. Confesso que fiquei emocionado, todavia não pude deixar de desabafar pra cima do amigo cantor.

Eu lhe disse: “Amigo, sendo tu um cantor profissional e me conhecendo em Belém, além de bancário como locutor, produtor de programas e escritor de crônicas diárias no rádio, nunca como compositor, darias alguma chance a mim se eu te dissesse que compusera uma música e queria inscrevê-la no Festival?” Ele se irritou mais ainda e cheguei a julgar que eu é que estava errado. Se eu me recordo, a seguir ele desligou o telefone. Nunca mais nos vimos ou falamos.

Talvez ele tivesse razão e assim posso ter jogado fora uma chance de ter pelo menos uma música num Festival de tal gabarito como o da TV Excelsior. Se ainda houver tempo eu peço desculpas ao Fernando Lucas por não ter confiado no amigo de tantas décadas e tê-lo talvez julgado mal. Se errei, que ele me perdoe, esteja onde estiver.


(Para lerem a reportagem sobre os Festivais entrem por http://www.riototal.com.br/musica/)




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Comentários sobre o texto podem ser enviados ao autor, no email fm.simoes@terra.com.br

(15 de agosto, 2017)
CooJornal nº 1.041



Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
Conheça um pouco mais de Francisco Simões
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
http://www.riototal.com.br/expressao-poetica/francisco_simoes.htm
www.francisco-simoes.com



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