01/04/2019
Ano 22 - Número 1.119

 

ARQUIVO SIMÕES

Francisco Simões
em Expressão Poética

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Francisco Simões



ERA UMA VEZ

Francisco Simões, colunista - CooJornal



Vou falar sobre alguém que eu conheci há alguns anos, muitos anos e que tem uma vida até que semelhante a minha sobre determinados aspectos. Ele tem quase a minha idade e ainda está neste mundo como eu. Ele é apenas um dos muitos amigos que eu fiz durante minha já longa existência.

Há uns oitenta anos ele nasceu no seio de uma família feliz e teve tudo que um garoto desejaria para uma infância plena de saúde e felicidade. Claro que ao nascer ele não desconfiava, nem poderia desconfiar, de que acabaria por ser o primogênito de muitos outros irmãos e irmãs.

Naquele tempo ter muitos filhos era algo digamos normal e assim se fez aquela família com cinco meninos e cinco meninas. Meu amigo quando se encontra comigo costuma relembrar sua infância e mesmo sua juventude com muita alegria, e fala que além de ter sido um bom aluno, namorava bastante.

Rapaz magrinho, educado, porém bem falante e de fácil comunicação, ele venceu todas as etapas de vida sem jamais ter sofrido algum revés, especialmente na Escola. Eu costumo ficar calado ouvindo suas histórias de vida até porque algumas delas se parecem bastante com a minha.

Claro que ao superar a etapa de juventude, mas ainda com uma idade de pouco mais de 20 anos meu amigo já tomara a iniciativa de se casar. Seus pais se preocuparam muito com esta decisão até porque não viam na jovem que ele escolhera a mulher ideal para ser sua companheira para o resto da vida.

Conforme ele sempre me contou parece que seus pais estavam profetizando um futuro que acabou acontecendo. O bom amigo me confessou que após apenas uns 3 anos de muitas brigas e sofrimentos de várias espécies ele acabou por decidir se separar da esposa. Convenhamos que toda separação por mais que se justifique é sempre dolorosa e deixar marcas um tanto profundas.

Recordo-me dele contando que por estar em terra estranha e ainda ganhar muito pouco no emprego aquela decisão acabou por levá-lo a viver à época num quarto de serviço, ou de empregada, no apartamento de certa senhora russa que para sobreviver alugava até aquele pequeno cômodo.

A vida costuma nos oferecer altos e baixos e a dele não poderia ser diferente. Eu também tenho desfrutado de felicidade e de maus momentos nestes 82 anos de uma vida longa, mas o importante é ir vivendo e acima de tudo jamais provocar a dor e o sofrimento em quem quer que seja. Da minha parte jamais agi assim com quem quer que fosse. Parece que ele procurou seguir um trajeto de vida semelhante ao meu.

Voltando às narrativas eventuais de meu amigo recordo-me que alguns anos após o desenlace acima referido ele acabou encontrando alguma felicidade num segundo casamento. Pelo que eu me recordo o novo encontro demorou muito mais anos que o primeiro. Sei que ele nunca me deu detalhes, entretanto, de como nem por que sua segunda união também teve um rompimento meio inesperado após muitos anos.

Respeitando sua história de vida nunca indaguei a ele da razão de sua nova solidão já que quando eu contei a ele minha vida o amigo também sempre respeitou o que eu omitia, afinal eu tinha meus motivos como ele deveria ter os dele, claro. Vitórias e derrotas ora nos jogavam para cima ora para baixo. Como dizem alguns, felicidade afinal é só um estado de espírito jamais um modo de vida permanente.

Quem me lê deve estar curioso a esta altura querendo saber o que ocorreu depois, tanto em minha vida como especialmente na de meu amigo, motivo desta narrativa. Posso acrescentar que na família em que ele nasceu acabou por ser irmão de mais cinco mulheres e mais quatro homens. Pois é, dez irmãos que naqueles tempos era normal ainda mais ocorrendo numa certa família meio abastada.

Há umas semanas atrás voltamos a nos reencontrar, porém desta vez foi aqui pela internet. Trocamos algumas ideias e prometemos nos falar ao telefone o que acabou por ocorrer dias depois. Esta conversa até que foi bastante demorada, afinal decidimos por em dia, ou seja, atualizar as nossas histórias de vida.

Conversa vai conversa vem acabamos por rir que é bem melhor que chorar. Para que ficar a lamentar se às vezes a alegria se torna muito difícil! Concordei com ele que nosso futuro só a Deus pertence e o presente só a nós interessa. Sábias palavras do amigo com as quais eu tive que concordar.

Pedi-lhe autorização para fazer esta narrativa informando ao amigo que utilizaria o título acima, ou “Era uma vez”. Esta minha decisão ocorreu após ouvir dele que mais recentemente ele tivera algumas intuições de que seu fim estaria se aproximando. Como eu já disse em uma de minhas poesias... “o meu horizonte está se aproximando cada dia mais”... Ele acabou por sorrir ao telefone e se calar.

Ficamos em silêncio por alguns minutos até que meu amigo falou que gostara do título que eu arrumara. Afinal trata-se de uma história de alguém que só eu sei que existe e que chega mesmo a se confundir com a minha história pessoal.

Quem sabe proximamente eu descubro outra dessas histórias e novamente o mais normal será usar o “Era uma vez”, mas, quem sabe descubro um título diferente para nova narrativa. E que meu atual amigo tenha uma vida ainda mais longa do que agora ele está pensando.

Que levante a cabeça e vá em frente.



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Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
Conheça um pouco mais de Francisco Simões
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
http://www.riototal.com.br/expressao-poetica/francisco_simoes.htm
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