01/12/2019
Ano 22 - Número 1.151


ARQUIVO SIMÕES

Francisco Simões
em Expressão Poética

Venha nos
visitar no Facebook

 

Francisco Simões



ESTOU DE LUTO



Francisco Simões, colunista - CooJornal


Gente amiga, eu nasci no ano longínquo de 1936, tendo hoje 83 anos de vida. Confesso que me encontro de luto e não é de hoje apenas, mas já vem de longe. Apenas cada dia meu luto mais se torna real, pois ainda ouso ter sentimentos bons, amar, ter fé na vida, ser amigo, crer no semelhante, respeitar opiniões divergentes, participar de bons debates e, que me desculpem os amigos ateus, acreditar em Deus, apesar de tudo.

Confesso que hoje chego a balançar quando quero acreditar ser este nosso mundo “de Deus”, como sempre ouvi dizer durante minha longa vida. Será mesmo? Sou cristão, católico, mas muito realista mais do que alguns possam pensar, acreditem.

Quando eu era criança em minha terra natal, Belém do Pará, ouvi sempre meus pais e meus avós dizerem que um dia nós viveríamos num país e num mundo muito melhor do que aqueles em que estávamos então. Acreditei, esperei, e continuo esperando, esperando faz é tempo e cada dia eu o sinto mais distante.

O que me levou hoje a escrever este texto em verdade foi, para além de tantos desânimos tantos desencantos, assistir pela TV a uma cena real ocorrida em Niterói. Uma senhora, moradora de rua, bem magrinha, se dirigira a um senhor que passava e pediu-lhe uma esmola. Dizem que foi um real. O valor não importa, ela era uma simples pedinte.

O cidadão que passava sequer se abalou e nada disse a ela. Apenas com a mão direita sacou rápido uma arma que ele carregava por debaixo da camisa e atirou nela, covardemente, friamente, à queima roupa, algumas vezes. Decidiu que deveria matá-la tal como se fosse um deus do mal, aquele que deve decidir coisas assim.

Em seguida o que se viu por outra câmera de segurança da mesma rua foi ele guardando a arma e seguindo seu caminho como se nada tivesse acontecido. Se você está pensando que mesmo terrível trata-se de um caso isolado, puro engano, amigo ou amiga. Você sabe que não é, infelizmente estes casos se repetem demais atualmente.

Outro dia alguém se aproximou de um grupo de moradores de rua e lhes ofereceu uma bebida. Eles aceitaram, não sabiam que a mesma continha veneno. Parece que morreram todos que beberam. Foi o que li na imprensa e ouvi na TV.

Uma boa amiga, pessoa da maior confiança, outro dia me contou que passava pela rua quando ela viu dois homens se desentenderem. O motivo da discussão não ficou evidente, mas de repente um deles, segurando uma raquete de tênis numa das mãos golpeou covardemente o outro. Este caiu ao chão sangrando e o agressor seguiu caminhando como se nada tivesse acontecido. Mais um covarde impune.

E na véspera de escrever este texto vi na Tv um senhor, professor, que apenas por ser negro, ao passar por uma rua viu outro homem de repente começar a xingá-lo de “macaco”. A repetição agressiva e mal educada daquela expressão fez com que o professor tentasse falar com seu gratuito agressor. De repente o outro sacou de um canivete e tentou ferir o professor apenas por sua cor de pele ser diferente da dele. Absurdo dos absurdos. E pessoas assim se julgam ainda seres humanos!!

Tenho acompanhado nos noticiários da imprensa escrita, na internet e na TV muitos e muitos casos geralmente de um homem agredindo ou matando mulheres ou crianças além de mendigos. O pior é que com o homem, o covarde, o assassino de mulheres e crianças além de moradores de rua, muitas vezes dos próprios filhos, nada depois acontece. Pagam uma fiança e pronto. Que país é este?

Claro que agora sendo incentivado sei lá por quem o uso de armas, dizem que para sua defesa pessoal, muita gente vem se armando e atirando em qualquer coisa, aí incluímos mulheres, crianças, idosos, mendigos, desafetos, seja porque motivo for, até por discordâncias no clima do futebol. E assim caminha nosso país e nossa humanidade com outro meio louco a comandar a maior nação do Mundo.

Sinto no ar pelo que eventualmente leio em “comentários” ao final de certas notícias, provavelmente tirados das tais redes sociais, agressões gratuitas, palavreado chulo, uma escrita impregnada de erros básicos e desacertos propositais ou não. Uma lástima. Sinto-me como um ET num mundo que não é mais o meu.

Hoje não se pode pensar diferente, ter opinião diferente, pois se nos expomos falando ou escrevendo sinceramente o que nos vem “de volta” é uma agressão das mais violentas e sórdidas. Se não pensamos igual a certas pessoas, se não temos opiniões idênticas a deles, meu Deus, lá vem agressão quando não nos ameaçam e coisas tais. Não mais se debatem ideias, já era infelizmente. Lamentável.

Parece que caminhamos a largos passos para aquilo que eu já vivi, embora alguns queiram desmentir sua existência, algo como o tal regime de exceção. A mim não interessa isso, afinal sou um democrata desde que nasci, orientado que fui por meu pai português que me formou com bom gosto para música, para leitura, para hábitos e costumes, um pai que me deixou muitas saudades.

Parece estarem a querer impor uma só opinião, uma só verdade seja em que sentido for. Isto eu não aceito, não mesmo. Assim sendo, amigos e amigas, aplaudam ou me vaiam, mas afirmo que eu estou de luto pela falência do ser humano que ainda seria feito à imagem e semelhança de Deus. Não do meu Deus.



Comentários sobre o texto podem ser enviados diretamente ao autor, no email fm.simoes@terra.com.br 








Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
Conheça um pouco mais de Francisco Simões
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
http://www.riototal.com.br/expressao-poetica/francisco_simoes.htm
www.francisco-simoes.com



Direitos Reservados
É proibida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização do autor.