16/12/2019
Ano 22 - Número 1.153



ARQUIVO SIMÕES

Francisco Simões
em Expressão Poética

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Francisco Simões



NATAIS DIFERENTES



Francisco Simões, colunista - CooJornal

Gente amiga, eu sei que nesta edição do Coojornal o Natal deverá estar em evidência como todos os anos, afinal é justo e natural. Ocorre que muitas pessoas olham para o Natal pensando talvez num ambiente feliz, cheio de alegria e comemoração. Entendo isto também.

Eu, quando criança, também acreditei em Papai Noel, comemorei o Natal junto com minha família como muita gente ainda continuou a fazer. Afinal comemora-se na data do Natal o nascimento do Menino Jesus, eu sei disso e também me sinto incluído na tal comemoração. Eu sou cristão.

Ocorre que a vida me foi ensinando que nem tudo são flores, que a vida não é cor de rosa, como eu acreditara na infância. Inclusive o dia de Natal passou depois de algum tempo a não me despertar a mesma alegria de antes. Afinal eu fui conhecendo melhor a realidade a minha volta.

Hoje atingindo esta idade de mais de 80 anos e posso afirmar que até bem antes eu já não era dos mais entusiastas nas comemorações natalinas. As músicas voltadas para as festas de Natal ao contrário do que ocorre com muita gente, a mim entristecem. É verdade, não sei bem o motivo, mas eu me sinto para baixo quando ouço as referidas canções.

Não tem nada a ver com o fato de eu ter acompanhado o falecimento de meus avós, de meus pais, de alguns dos meus irmãos e irmãs, éramos 10 no começo, hoje estamos reduzidos a seis, entre homens e mulheres. Também já faleceram duas esposas minhas anteriormente. Não consideraria isto algo como que a me entristecer justo numa época tão festiva. Não, não é isto não, não pode ser isto.

Afinal todo mundo perde entes queridos, vê falecer pais, filhos, amigos, esposas etc. Algo se passa comigo que até hoje eu não sei explicar o motivo. Os que acompanham meu trabalho já devem ter lido até mais de uma vez meu premiado poema “É Natal”.

Seus versos narram a existência de 3 pessoas que eu denominei na poesia de José, o homem doente que perambula por uma praça em Ipanema, ou perambulava, além da senhora que chamei de Maria e que vivia sentada à porta da Igreja Matriz, doente e pedindo esmolas, além de Jesus um menino pobre que colhia com uma pequena lata os trocados que algumas pessoas boas lhe davam. Foram os personagens que eu escolhi como integrantes do meu poema “É Natal”.

Eu tenho amigos católicos, espíritas, evangélicos, ateus etc e nos damos muito bem. Aliás, se há duas coisas que eu não costumo discutir é religião e futebol. Política também, mas no momento está difícil escrevermos algo que alguém não comente nos provocando e de certa forma nos tirando do sério. Mesmo assim eu saio de lado, pois em política não compensa torcer por este ou aquele lado, afinal eles sempre levam vantagem.

Mas voltando ao Natal que é mais saudável, de qualquer das maneiras, estamos entrando célere no ambiente natalino. Eu abri meu coração neste texto e digo a verdade sem querer ofender muito menos agredir seja quem for. A propósito resolvi deixar aqui embaixo o poema que citei acima para que possam ler ou reler os versos que usei desenhando como me ocorreu certo dia o ambiente de Natal. Apenas isto. Então aqui vai o meu premiado “É Natal”. Até outro dia.


É NATAL



É Natal,
Mas talvez nem todos saibam,
Talvez porque não caibam
No Natal.

Seu nome é José,
Ele não tem Maria
Já teve um dia
Hoje é só o Zé.
O Zé lá da praça
Que fala sozinho
Ou fala com os anjos,
Que fala baixinho
E sorri pra menina
Um anjo que passa
Que não fala com o Zé.
Ninguém sabe quem é,
As flores, o vento,
Os grãos de areia
Entendem José.
Os pássaros também.
A praça limita seus passos
Mas não seus pensamentos.
Sua mente alceia, alceia,
E passeia muito além.
Ninguém conhece o José,
José não conhece Belém.
A árvore de Natal na praça
Para José não passa
De uma alegria iluminada
Que pisca e pisca pra ele,
Que pisca e pisca, mais nada.

Seu nome é Maria
Da porta da igreja,
Está ali todo dia,
Talvez só Deus a veja.
A igreja é de Deus.
Ela ouviu a história
Dos bondosos Reis Magos.
Eles passam pra lá,
Eles passam pra cá,
Sem mirra, incenso ou ouro.
Para ela são Reis Magos
Que não lhe dão afagos,
Que não lhe dão presentes.
Nada ouvem por mais que peça
Pois, toda aquela gente
Leva nos pés muita pressa.
Sem pressa tocam os sinos
O seu anúncio etéreo:
“Nasceu o Deus-Menino”.
Plantam-se ceias nas mesas,
Ouvem-se coros, orquestras,
Mas Maria não tem mesa,
Maria nem tem janela
Só tem a porta da igreja
E uma natalina certeza
De que a noite que agora boceja
Vai dormir sem lhe trazer festa.

Seu nome é Jesus,
Jesus, menino, 10 anos.
Ele não tem segredos
Apenas certezas miúdas
E muitas mágoas graúdas
Que esmagam a criança
E constroem sua cruz.
A boca gelada de silêncio,
Silêncio que grita mais alto
Que a voz das passeatas,
Que esconde o seu medo.
Escolaridade: mendicância.
Ele povoa a cidade
Entre tantos Jesus,
Entre tantos contrários,
Sem mangedoura, sem berçário,
Carregando sua fragilidade
Sem cobrar o que a vida
Há muito lhe deve: a infância.
Jesus, 10 anos, menino,
Por ele passam os sonhos
De tantos que levam planos
Na cabeça, nos passos,
No olhar, no sobressalto.
Nas mãos de Jesus uma lata
Onde cabe o seu espaço,
Onde fecha o seu destino.

É Natal
Mas eles não sabem,
Talvez porque não cabem
No nosso Feliz Natal.

(Dezembro/1998)




* Esta poesia ganhou o prêmio de Melhor Crítica Social na 4ª e na 6ª edições do Concurso “Expressão da Alma”, no Rio de Janeiro, além de diversos outros prêmios importantes em vários concursos literários.




Comentários sobre o texto podem ser enviados diretamente ao autor, no email fm.simoes@terra.com.br 








Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
Conheça um pouco mais de Francisco Simões
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
http://www.riototal.com.br/expressao-poetica/francisco_simoes.htm
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