16/05/2020
Ano 23 - Número 1.173



ARQUIVO SIMÕES

Francisco Simões
em Expressão Poética

Venha nos
visitar no Facebook

 

Francisco Simões



ADEUS, CARLOS JOSÉ



Francisco Simões, colunista - CooJornal


Como vocês sabem eu vivo já há alguns anos aqui na cidade praiana de Cabo Frio. Costumava passar alguns períodos no Rio de Janeiro no bairro charmoso de Ipanema. Íamos sempre num domingo e ao lá chegarmos almoçávamos num restaurante há poucos quarteirões de casa.

Certa vez percebi que o antigo cantor Carlos José, com sua família, por mera coincidência costumava também almoçar no mesmo restaurante e no mesmo horário em que nós íamos. Mais, eles sentavam numa mesa próxima a nossa. Aquilo mexeu com meus brios.

Sempre fui um fã ardoroso da bela voz e do homem que era o Carlos José. Não me contive e acabei por escrever uma crônica contando como se dera o “encontro” nunca combinado e que jamais poderia sê-lo. Afinal Carlos José nem me conhecia. O texto foi divulgado aqui mesmo neste Coojornal desta linda revista Rio Total de Irene Serra.

Tempos depois da divulgação daquele texto nós voltamos ao Rio e a Ipanema. Claro que no referido domingo da chegada lá fomos como sempre almoçar no dito restaurante. De repente chegou o brilhante cantor de tantas décadas acompanhado de sua família.

Tive uma ideia e a passei ao garçom que sempre nos servia. Eu pretendia imprimir a referida crônica e a entregar ao Carlos José apenas querendo dizer a ele que eu o admirava não só pela bela voz que encantou multidões como pelo homem que ele era.

Ocorre que sou meio tímido e fiquei com receio que ele imaginasse que eu fosse pedir autógrafo, o que detesto, ou tirar foto com ele, o que também não é do meu feitio. Assim pedi ao nosso garçom que falasse com ele e perguntasse se ele se importava de eu fazer o que desejava.

Diante do consentimento do bravo Carlos José, eu fiquei muito honrado e tratei de imprimir o texto já divulgado. Na vez seguinte em que nós nos encontramos no mesmo restaurante, cheio de receio, pedi ao nosso garçom que perguntasse ao cantor se eu podia entregar-lhe um envelope no qual se encontrava minha crônica.

Finalmente chegou o dia, o esperado domingo, em que eu olhei para Carlos José e me enchendo de coragem me levantei e fui até à mesa dele. Pedi desculpas pela interrupção já que ele falava com a esposa, e fiz a entrega do referido envelope. Eu me surpreendi com a recepção tão amistosa dele, pois se levantou e me deu um longo abraço ao que eu correspondi. Seus familiares sorriram e participaram do ato com rápidos aplausos.

Aproveitei para falar da minha longa admiração por ele e do quanto ele fazia falta atualmente mais ausente nos meios de comunicação. Carlos José me surpreendeu ao dizer que nos próximos dias ele ia participar do belo programa da Tv Cultura conduzido por Rolando Boldrin. Fiquei feliz, pois seria uma oportunidade de matar a saudade de tão bela voz.

Logo retornei a minha mesa e meu coração disparara, pois jamais imaginara que um dia participasse daquele encontro com um dos meus maiores ídolos da MPB. Passado pouco tempo realmente eu o vi dando entrevista ao grande Boldrin, pessoa por quem também tenho grande admiração. No mesmo programa Carlos José cantou alguns de seus sucessos. Sou emotivo e não contive umas poucas lágrimas.

O tempo passou, nós demoramos a voltar a Ipanema e quando o fizemos ele e sua família não compareceram ao tal almoço. Eu não sabia que aquele fora o primeiro e único encontro que eu ia ter com Carlos José.

Hoje, antes de escrever esta crônica, fiquei sabendo do seu falecimento. Fiquei triste, muito triste, e relembrei que Carlos José nascera em S. Paulo, mas desde cedo viera para o Rio de Janeiro. Aqui, tempos depois, acabou estudando Direito e acabou se formando advogado. Felizmente depois ele resolveu usar sua voz, mas cantando. E como cantava bonito.

Eu nasci em 1936 e ele em 1934, ou seja, Carlos José era cerca de dois anos mais vivido que eu. Quando passamos por esta pandemia entre tantas notícias tristes considero que esta é uma das que mais me tocaram com certeza. A MPB está ainda mais pobre, perdeu um dos grandes ídolos que fez sucesso por tantos anos com sua bela voz e seu repertório maravilhoso.

Descanse em paz Carlos José.





Comentários sobre o texto podem ser enviados diretamente ao autor, no email
fm.simoes@terra.com.br 






Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
Conheça um pouco mais de Francisco Simões
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
http://www.riototal.com.br/expressao-poetica/francisco_simoes.htm
www.francisco-simoes.com



Direitos Reservados
É proibida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação eletrônico ou impresso sem autorização do autor.