16/06/2020
Ano 23 - Número 1.177



ARQUIVO SIMÕES

Francisco Simões
em Expressão Poética

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Francisco Simões



MEU SAUDOSO PAI PORTUGUÊS



Francisco Simões, colunista - CooJornal

Confesso ter muita saudade de meu saudoso pai português, o Sr. Manuel Mario dos Santos, natural do Porto. Ele faleceu com pouco mais de 80 anos. Não é apenas por ele ter sido meu pai, não, mas porque tive nele um exemplo de pai que nunca usou a força para impor sua autoridade como vejo outros o fazerem.

Meu pai quando mais jovem foi remador da Tuna Luso de Belém do Pará. Ele quando ouvia alguma queixa de minha mãe ou minha avó, fosse sobre que filho fosse, nunca, jamais meu pai impôs sua autoridade pela força, jamais, repito. Quando havia necessidade ele sempre o fazia pela autoridade moral. Talvez poucos saibam o que é isto ou a tenham para se impor desta forma.

Tinha eu 5 anos quando consta que fiz algum tipo de malcriação à mesa de jantar. Naquele tempo as refeições eram feitas pela família toda reunida, e então meu avô materno, não meu pai, irritou-se a tal ponto que me tirou da mesa pelas orelhas e me levou para um dos quartos.

Ali ele me fez deitar numa das camas e mesmo chorando, pois sei que ele me amava como herdeiro dele que julgava eu fosse ser, deu-me uma surra de cinto. Ao lado da cama estavam meu pai, minha mãe, minha avó materna, minha Dindinha que viria a ser minha segunda mãe, todos chorando, entretanto meu pai não permitiu que ninguém tentasse evitar o que estava acontecendo para não tirar a “autoridade” de meu avô materno. Foi a única vez que apanhei na vida.

Como meu pai deve ter sofrido naqueles minutos e muito, ele que jamais se impôs a mim e a nenhum de meus mais nove irmãos e irmãs pela força ou pelo castigo mais cruel, jamais. É uma das lembranças que guardo dele e que me faz não só respeitá-lo sempre como ter ainda mais saudades dele do meu pai português.

Lembro que quando eu era jovem minha avó desconfiou certa vez de que eu estava fumando no segundo dos três quintais que tínhamos em casa. Mais tarde quando voltei para dentro, ao subir uma pequena escada minha avó mandou-me abrir a boca e a seguir enfiou ali parte de seu nariz confirmando sua desconfiança.

Sei que logo depois ela comunicou o fato a minha mãe. Esta quando meu pai chegou deve ter dito a ele o que se passara. O Sr. Mário, meu pai, tranquilamente pediu que à noite eu fosse até o escritório dele para conversarmos. De pronto desconfiei de que haviam me entregue ao pai.

À noite ao ver-me pediu que eu sentasse como sempre o fazia, numa cadeira ao lado dele. Primeiro me comunicou a queixa que recebera de minha mãe e a seguir, sem o dar como exemplo, contou-me que quando jovem fizera o mesmo. Queria experimentar novas sensações e também andou fumando um cigarro ou outro, mas imediatamente me disse que foi um grande erro, porém que a juventude é assim mesmo. A seguir, porém, falou-me tranquilamente dos malefícios do fumo.

Outro exemplo de meu saudoso pai foi quando certa vez ele resolveu ir assistir a um jogo de futebol entre seu time, o Tuna Luso e o Paissandu. O confronto se dava no estádio do Paissandu que ficava ali bem próximo de nossa casa. Ele me levou junto. Estávamos de pé na torcida da Tuna, claro.
A certa altura, porém, o árbitro marcou uma falta contra a Tuna e segundo meu pai ele teria invertido os fatos. Irritado ele xingou forte e rápido o juiz com um palavrão. Isto não era do seu feitio e lembrando que eu estava ali com ele de imediato me pediu desculpas e disse que não se devia fazer aquilo. Acreditem, nunca pensei que meu saudoso pai um dia me pediria desculpas fosse pelo que fosse. Isto prova mais uma vez o que digo e o que lembro do meu pai português.

Quando eu tinha meus 17 anos passei num concurso público e fui trabalhar na Rádio Marajoara, um dos meus sonhos de porão, confesso. Eram 50 candidatos e passaram apenas 2, eu e o Clodomir, meu colega no Colégio Nazaré. Nas primeiras semanas eu tinha que iniciar os trabalhos da rádio, às 6 horas da manhã e na semana seguinte “fechava” a Rádio trabalhando das 21 h até meia-noite.

Em casa havia uma das várias empregadas que era uma gracinha, além de bonita, me perdoem, mas era bem gostosinha. Eu comecei a me enrabichar por ela e pouco tempo depois nos encontrávamos escondido, principalmente à noite quando eu chegava do trabalho na Rádio Marajoara. Era mais de meia-noite, horário tardio e todos na casa estavam dormindo, tanto a família quanto empregadas.

Nossos encontros, e foram vários, se davam no porão. Imaginem o que deveria acontecer entre duas pessoas jovens que gostavam uma da outra além da forte atração física que sentíamos. Infelizmente em outro dia eu a esperei logo após o almoço no quarto dela. Uma das empregadas que já devia estar desconfiada, e talvez enciumada, de nossos encontros escondidos armou uma cilada e acabou nos flagrando no momento do ápice do que fazíamos.
Esta logo delatou o fato a minha mãe que o passou para meu pai. Resumindo, à noite no escritório dele e sentado novamente ao seu lado, primeiro percebi um leve sorriso no seu rosto. Após narrar o fato que haviam levado a ele, não me repreendeu não, ao contrário disse que na minha idade era preferível ele saber daquilo do que se eu estivesse envolvido com pilantras, bebidas, ou coisa pior.

Ele me chamou a atenção pelo descuido de ir me encontrar com a jovem no quarto dela e de dia. Falou-me que para minha mãe, esposa dele, certamente ela iria atingir a jovem empregada com a demissão, e não deu outra. Doeu-me demais saber que ela iria carregar sozinha uma culpa que pertencia a nós dois.

Mas, este foi o meu saudoso pai português, gente amiga, acreditem. Herdei dele certo dom de escrever e gostar de ler e de ouvir boas músicas. Mesmo hoje aos 83 anos, como eu gostaria de ter ainda ao meu lado aquele meu pai. Que Deus o tenha





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Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
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