
Um presente à terra que manteve em seu coração, desenhando com letras o cenário
marcado na alma. Essa foi a sensação ao terminar de ler os originais de Hector
da Costa Freitas. Bajeense, nascido no final do século XIX, radicado no Rio de
Janeiro, onde faleceu na década de 70.
Dois livros de poesia, inéditos: “Sangas e Coxilhas” e “Orgia das Sombras”,
guardados por Hiuje, filha, que não conseguiu publicá-los antes de falecer.
Colocou em cláusula testamentária a edição dos mesmos. O amor filial encontrou,
assim, uma forma de realizar o sonho.
Convidada pelo espólio para organização das obras, não me satisfiz só com o
trabalho editorial que contou com a participação da designer Eleonora Machado
(capa e layout), da escritora Särita Bárros (revisão) e da bibliotecária Nelci
Jeismann (catalogação). A curiosidade para saber um pouco mais sobre o poeta
despontou. Com máscara e luvas, pesquisei em jornais antigos encontrando agulhas
num palheiro. A primeira descoberta foi compartilhada com o diretor do Arquivo
Público de Bagé, Dr. Claudio Lemieszek... Textos primorosos nos indicando a
contribuição de Hector ao mundo literário. Depois, acesso a livros lançados na
década de 30: O Filho da Revolução (romance, 1934, RJ) e Terra Encantada
(poesia, 1938, RJ), este localizado num sebo via internet que também nos mostrou
por onde anda Hector*. A pesquisa cresceu. Sarita Barros passou a fazer parte
desse universo e, recentemente, apresentamos o resultado ao Núcleo de Pesquisa
Histórica Tarcísio Taborda e na noite do lançamento...
Noite de lua cheia. A afetiva recepção pela invernada mirim do CTG Pampa e
Minuano. A emoção da mestre de cerimônia, Maria de Lourdes Collman, demonstrando
intimidade com as obras lançadas... As locuções elegantes do advogado do
espólio, Dr. Fernando Lobato Dias, e do Secretário Municipal de Cultura Sapiran
Brito. A interpretação das poesias de Hector por Milena Abott, do movimento
tradicionalista do Rio Grande do Sul... Sua voz preenchia o ar qual ave
canora... A comunidade cultural da cidade admirada diante do poeta esquecido
através do tempo, retornando aos 15 anos da Associação dos Amigos da Biblioteca
e aos 200 anos de Bagé.
Sangas e Coxilhas, escrito na década de 50, contém 43 poemas, a maioria longos.
Retrata o pampa de sua mocidade, de carretas e conversas longas “à beira do
fogão”:
Por sobre as brasas a chaleira chia.../ As labaredas para o ar se vão/
E o ar rendilham de ouropéis em chama./Quente, espumoso corre o chimarrão,/
Que ascende n'alma a sacrossanta flama,/ Que aviva a mente, como o sol o dia.
Orgia das Sombras, com 33 poemas, mais condensado, agridoce, elaborado no final
da vida. Revela vivências no Rio de Janeiro, religiosidade e um pot-pourri de
sentimentos:
Meus pecados, Mãe Dileta,
São apenas fantasias,
São pecados de poeta.
A festa encerrou deixando uma sensação boa no coração. Custamos a deixar o
ambiente, conversando sobre os diversos momentos. Pena que os personagens
principais da noite não estavam presentes. Ou estavam? Mistério.
* www.falandodetrova.com.br/Hector
http://geleiras.blogspot.com.br/2009/03/trovas.html
Outras informações em
www.culturasulbage.com.br
O espólio de Hiuje Sarmento Freitas doou parte da edição a escolas e
bibliotecas.
A renda total pela venda dos livros é beneficente
Para adquiri-los, entrar em contato com
http://www.caminhodaluzbage.com.br/
(11 de maio/2012)
CooJornal nº 786
Sonia Alcalde é escritora e poetisa
Autora do livro "Estações do Eu", entre outros.
Membro do Cultura Sul
Bagé, RS
alcalde@alternet.com.br
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http://www.riototal.com.br/expressao-poetica/sonia_alcalde.htm
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