04/09/2010
Ano 13 - Número 670



 

Amigos da Cultura









SONIA ALCALDE
ARQUIVO





Seus poemas em
Expressão Poética

 

 

 

 

 

Sonia Alcalde



BOM PRA CACHORRO

 

Sonia Alcalde, CooJornal

Janeiro. Um calor de lascar. A loja de animais estava cheia. Cheia de pessoas comprando. De animais esperando serem comprados. Cheia de vendedores. De caixas? Não, a maioria estava em férias. Longas filas volteavam entre as gaiolas, ao lado de prateleiras com multi-cheiros tornando o ambiente mais desagradável. Comida para peixe, passarinho, gato, cachorro, remédios para matar pulga, vermes, carrapato. Um mundaréu de verdes tentando um toque ameno, sem conseguir eliminar o ar nauseabundo.

Eva estava na fila para pagar. Uma lerdeza de dar nojo. Passou a observar um cãozinho à venda – filhote de pastor alemão. Gaiola pequena para seus movimentos. Fez coco, tentou mudar de lugar, para longe. Só a cara afastou-se das fezes, a cauda toda borrada... Que fazer? Só esperar que alguém lhe atendesse, como as pessoas na fila.

Quase, quase desistindo, Eva lembrou que ali era mais barato. Mas, estava duro de aguentar. Ouviu barulho de ventilador. Buscou com o olhar, queria pegar um arzinho diferente. Onde está? Perto do caixa. Muito pequeno, mal dava pra moça, para os outros nem pensar.

Só mais um pouquinho... Que tortura!

Junto às prateleiras com ossos para cachorro (aqueles que parecem mas não são), duas mulheres. Aproveitando a parada da fila, pegavam o tal osso, outros tantos divertimentos e apetrechos ao embelezamento dos pelos. Eva passou uma linha nas vizinhas: modernézimas, vistosas, superbronzeadas... Sem ter mais o que fazer, prestou atenção no que diziam:

– Eu prefiro mais dar comida pra cachorro do que para os guris que batem na porta.

O prefiro mais do que doeu no ouvido de Eva, não tanto pelo erro gramatical, mas pelo humano rejeitado. Nada contra os animais. E se arrepiou no desprezo explícito que continuou na fala da outra:

– Eu também. Eles pegam o que a gente dá, escolhem, jogam fora o que não querem sujando a frente da casa. O cachorro não. Qualquer comidinha raspa o prato.

Quis entrar na conversa. Recuou. Não ia consertar o mundo...

∞∞∞∞∞∞∞∞

Entre um papo e outro, Eva nos relatou o fato, com suas ponderações, tão logo saiu da loja. Na hora criticou aquelas duas. Depois se flagrou em lembranças idênticas, dando pão duro, reclamando até dos farelos que deixavam na calçada. Dizendo que não tem nada e no dia seguinte jogar comida no lixo.

Da comida saltou para roupeiros cheios, muitas peças sem uso fazia tempo. Lembrou sua mãe. Tinha mania de só ter três calcinhas. Roupas, apenas o suficiente. Achava um exagero, pois o gosto e a variedade no vestir é uma questão de fantasia. Faz bem à gente. Concordamos em gênero e número.

Eva continuou dizendo que a mãe achava: mais prático, sabia o que tinha, controlava direitinho, tinha certeza quando alguém mexia em suas coisas e também não daria trabalho quando morresse.

Fizemos parênteses contando das tralhas que foram despachadas quando um ou outro ia dessa para melhor.

Quando dona Sueli dava uma limpa no armário, aliviava até o de Eva. Aí morava o perigo. Brigavam. Gostava tanto daquela blusa... é bem verdade que há dois anos não usava. Comprou porque adorou, a cor era linda, continua na moda. Não sabia porque ainda não tinha conseguido sair com ela. Botava e tirava. Ficava lá, dependurada, à espera.

Paramos. Paramos de falar miudezas para entrar no eu moderno. Atualização para não perder espaço. Avanço em tecnologia. Que investimentos fazer? Pessoa ou bicho, os dois valem?! Ser moderno não é ser humano?!


(04 de setembro/2010)
CooJornal no 670


Sonia Alcalde é escritora e poetisa
Autora do livro "Estações do Eu", entre outros.
Membro do Cultura Sul
Bagé, RS
alcalde@alternet.com.br
www.culturasulbage.com.br 
http://www.riototal.com.br/expressao-poetica/sonia_alcalde.htm


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