28/11/2008
Ano 12 - Número 609
SONIA ALCALDE
ARQUIVO

Sonia Alcalde
em Expressão Poética
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Sonia
Alcalde
TUDO PRA TE AGRADAR
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Anoitecia. Angelina recolheu todas as roupas, colocou-as dobradas sobre
uma cadeira. Pendurou-se no varal. Corda forte, capaz de agüentar seu
peso. Agora era sua vez. Depois, a algazarra das crianças e Paulo chegando
do trabalho, o cheiro forte do cigarro...
Nesses momentos de calma das tarefas do lar, aproveitava para refletir.
Eram breves, quinze a vinte minutos. Precisava deles como o ar que
respirava. Seu quintal, seu spa. Espremido entre dois muros, mas
conseguia enxergar longe, a altitude favorecia. As primeiras luzes da
cidade. A torre da igreja de Santo Antônio.
Voltou-se para a janela do quarto, aberta, aparecendo a cortina de voil
rosa. Sonhos relâmpagos clarearam o espaço do aconchego. Inspirou
profundamente. Olhou para o canteiro estreito ao longo de um dos muros.
Camarões vermelhos e margaridas brancas ao lado das chicórias da sogra.
Plantara numa de suas visitas, junto com os netos, para incentivá-los a
comer verduras. Deu certo por um tempo.
Estendeu o pescoço para trás. Tímidas estrelas salpicaram seus olhos.
Encheu-se de esperança, elevou-se. Ardentemente, desejou rever os amigos
da infância. Brincara com eles sem perceber sua transformação, até que não
deu mais para continuarem juntos.
Os lábios de Angelina abriram-se em encantamento, ao ritmo dos sinos na
chamada vespertina:
— Bárbaros/ piratas/ a luta não me assusta/ vou dar pulos/ vou voar/ vou
fazer o que puder/ pra não perder o meu lugar.
— Oi, de onde vem essa angústia? — tlin-tlin falou, surpreendendo a
mulher-menina.
— Vivo balançada. Tenho um corpo que não me atende. Ou é minha sombra? Sou
eu ou sou muitas que fazem de mim o que querem?
— É bom não te abateres, preciso de audiência.
— Antes tinha tempo para conversar sem toda essa parafernália dentro de
casa. Agora que estou equipada, a ordem é economizar porque a luz subiu, e
não dá para ficar sem te ver.
— Eu faço tudo pra te agradar.
— Agradeço as boas intenções, mas não sei mais o que é real. Meus filhos
estão crescendo, precisam sentir que estou perto.
— Eles estão — disse em coro a turma do faz de conta.
Angelina assustou-se com o vozerio. Reagiu.
— Não é bem assim. Os corpos parecem próximos, mas o olhar distante,
conduzido, sem sinalização de volta. Não quero perdê-los, nem a mim.
A campainha ressoou com insistência. Sinal de Ronaldo e Beto. Angelina
encerrou o contato. Beto beijou-a rapidamente e estatelou-se frente à
caixa mágica. Ronaldo, o menor, abriu a pasta para mostrar as notas. Pediu
assinatura no boletim. Disparou para o banheiro. Angelina escutou a
cascata de seu menino. Em seguida, o turbilhão da descarga e da torneira
para higiene. Sorriu satisfeita. Ronaldo passou correndo por ela e
colocou-se diante do sofá:
— Chega pra lá, não és dono de tudo.
— Eu sou, quem é que vai me tirar daqui? — Beto encarou-o, desafiante.
Ronaldo jogou-se contra o irmão, superestimando sua força.
— Se não conseguem ficar juntos, desligo.
— Não, não, isso não — gritaram os dois, ao mesmo tempo. E, num átimo,
dirigiram o olhar para a entrada da casa. O cheiro forte do cigarro do pai
chegava antes dele. Grudaram-se para sobrar lugar.
(28 de novembro/2008)
CooJornal no 609
Sonia Alcalde,
escritora, poetisa
Autora do livro "Estações do Eu", entre outros.
Membro do Cultura Sul
Bagé, RS
alcalde@alternet.com.br
http://www.riototal.com.br/expressao-poetica/sonia_alcalde.htm
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