Janeiro. Um calor de lascar. A loja de animais estava cheia. Cheia de
pessoas comprando. De animais esperando serem comprados. Cheia de
vendedores. De caixas? Não, a maioria estava em férias. Longas filas
volteavam entre as gaiolas, ao lado de prateleiras com multi-cheiros
tornando o ambiente mais desagradável. Comida para peixe, passarinho,
gato, cachorro, remédios para matar pulga, vermes, carrapato. Um
mundaréu de verdes tentando um toque ameno, sem conseguir eliminar o ar
nauseabundo.
Eva estava na fila para pagar. Uma lerdeza de dar nojo. Passou a
observar um cãozinho à venda – filhote de pastor alemão. Gaiola pequena
para seus movimentos. Fez coco, tentou mudar de lugar, para longe. Só a
cara afastou-se das fezes, a cauda toda borrada... Que fazer? Só esperar
que alguém lhe atendesse, como as pessoas na fila.
Quase, quase desistindo, Eva lembrou que ali era mais barato. Mas,
estava duro de aguentar. Ouviu barulho de ventilador. Buscou com o
olhar, queria pegar um arzinho diferente. Onde está? Perto do
caixa. Muito pequeno, mal dava pra moça, para os outros nem pensar.
Só mais um pouquinho... Que tortura!
Junto às prateleiras com ossos para cachorro (aqueles que parecem mas
não são), duas mulheres. Aproveitando a parada da fila, pegavam o tal
osso, outros tantos divertimentos e apetrechos ao embelezamento dos
pelos. Eva passou uma linha nas vizinhas: modernézimas,
vistosas, superbronzeadas... Sem ter mais o que fazer, prestou atenção
no que diziam:
– Eu prefiro mais dar comida pra cachorro do que para os guris que
batem na porta.
O prefiro mais do que doeu no ouvido de Eva, não tanto pelo erro
gramatical, mas pelo humano rejeitado. Nada contra os animais. E se
arrepiou no desprezo explícito que continuou na fala da outra:
– Eu também. Eles pegam o que a gente dá, escolhem, jogam fora o que
não querem sujando a frente da casa. O cachorro não. Qualquer comidinha
raspa o prato.
Quis entrar na conversa. Recuou. Não ia consertar o mundo...
∞∞∞∞∞∞∞∞
Entre um papo e outro, Eva nos relatou o fato, com suas ponderações,
tão logo saiu da loja. Na hora criticou aquelas duas. Depois se flagrou
em lembranças idênticas, dando pão duro, reclamando até dos farelos que
deixavam na calçada. Dizendo que não tem nada e no dia seguinte jogar
comida no lixo.
Da comida saltou para roupeiros cheios, muitas peças sem uso fazia
tempo. Lembrou sua mãe. Tinha mania de só ter três calcinhas. Roupas,
apenas o suficiente. Achava um exagero, pois o gosto e a variedade no
vestir é uma questão de fantasia. Faz bem à gente. Concordamos em gênero
e número.
Eva continuou dizendo que a mãe achava: mais prático, sabia o que
tinha, controlava direitinho, tinha certeza quando alguém mexia em suas
coisas e também não daria trabalho quando morresse.
Fizemos parênteses contando das tralhas que foram despachadas quando um
ou outro ia dessa para melhor.
Quando dona Sueli dava uma limpa no armário, aliviava até o de Eva. Aí
morava o perigo. Brigavam. Gostava tanto daquela blusa... é bem verdade
que há dois anos não usava. Comprou porque adorou, a cor era linda,
continua na moda. Não sabia porque ainda não tinha conseguido sair com
ela. Botava e tirava. Ficava lá, dependurada, à espera.
Paramos. Paramos de falar miudezas para entrar no eu moderno.
Atualização para não perder espaço. Avanço em tecnologia. Que
investimentos fazer? Pessoa ou bicho, os dois valem?! Ser moderno não é
ser humano?!
(04 de setembro/2010)
CooJornal no 670
Sonia Alcalde é
escritora e poetisa
Autora do livro "Estações do Eu", entre outros.
Membro do Cultura Sul
Bagé, RS
alcalde@alternet.com.br
www.culturasulbage.com.br
http://www.riototal.com.br/expressao-poetica/sonia_alcalde.htm
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