15/01/2016
Ano 19 - Número 968



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SONIA ALCALDE
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Seus poemas em
Expressão Poética

 

 

Sonia Alcalde

 
A esperança continua

Sonia Alcalde - Colunista, CooJornal

Ele entrou no super de calculadora em punho. Comprou os artigos que precisava e, de repente, viu uma oferta de vinte e quatro rolos de papel higiênico que lhe pareceu excelente. Refazendo as contas em casa, verificou que saíra perdendo. Comprou o produto mais caro do que outro na prateleira, da mesma marca, fora da promoção. Desanimado, concluiu que a economia que julgara ter feito caiu por terra. E passara o sábado na função...

É reconhecido pesquisador de preços. Quem o encontra e está na mesma situação, pede cola, mas esse fato o colocou em alerta. Mais atenção é pouco nesse Brasil em crise de respeito, finalizou diante do irreparável engano.

Tenho prazer de entrar em mercados públicos, não em super, tudo arrumado, ainda que isso facilite fazer o rancho. O mercado público mostra a cara da cidade, as conversas fluem, como se fôssemos velhos conhecidos. Da mesma forma, as feiras. Em Bagé, não são tão belas quanto as do Rio de Janeiro com os toldos multicoloridos, mas preservam o tête-à-tête, a água borrifada nas verduras para mantê-las frescas... E chegar cedo ou tarde para a xepa em todas define momentos com sabor (e valor) diferente.

Hoje fui à feira às 8. Comprei os poucos quiabos orgânicos colhidos na horta de um feirante. Tenros, pequenos, como gosto. É difícil conseguir por aqui. Não quer dizer que nesses espaços tudo seja às mil maravilhas. Sempre tem alguém que quer despachar mercadorias encalhadas. Já comprei castanha de caju mole no afã de trazer coisas boas do nordeste. Fiquei mais esperta (acho). É isso, a crise de valores nos desacomoda, faz ver a parte submersa do iceberg.

A conversa mole do vendedor de ilusão traz dissabor. É difícil ser veraz, de contar o estado real do carro que você quer passar adiante... Escrevo e me penitencio. Quando os primeiros “pardais” apareceram, passei por um deles acima da velocidade permitida. Tive muita vontade de ocultar dos filhos...

Mesmo sendo coisa boa, a gente pula miúdo para disfarçar. Durante um ano estudei piano escondida da família. Esperava as crianças saírem da aula para entrar. Na audição anual, todas expuseram uma obra. Ao término, a mestre revelou que iria se apresentar uma aluna especial. Levantei-me. Os filhotes arregalaram os olhos. Não emitiram som, impactados. Toquei “Olhos Negros”, do folclore russo. Jamais esquecerei os braços pequeninos envolvendo-me. “Nossas vidas são definidas por momentos. Principalmente aqueles que nos pegam de surpresa”, disse Bob Marley (1945-1981). E lembrando Santo Agostinho (354-430) e a crise de valores que vivemos: "A esperança tem duas filhas lindas, a indignação e a coragem; a indignação nos ensina a não aceitar as coisas como estão; a coragem, a mudá-las”.


* Comentários sobre o artigo podem ser enviados diretamente à autora no email alcaldebage@gmail.com .



(15 de janeiro/2016)
CooJornal nº 968

Sonia Alcalde é escritora e poetisa
Autora do livro "Estações do Eu", entre outros.
Membro do Cultura Sul
Bagé, RS
www.culturasulbage.com.br 
http://www.riototal.com.br/expressao-poetica/sonia_alcalde.htm



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