
02/02/2008
Número - 566 
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Sonia
Alcalde
O poder de uma grande concha |
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Os textos sobre o Convento de Santo Antônio no site Rio Total, neste
início de 2008, trouxeram-me muitas informações, mas também provocaram
lembranças. Certas construções escritas têm o poder de uma grande concha.
Vai ao fundo, recolhe mimos e outros guardados que fazem a nossa história.
Na primeira leva, vem à tona um cofre de madeira com a figura de Santo
Antônio. A vó ensinando a separar algum dinheiro para o pão dos pobres do
Rio de Janeiro. E todos os meses uma senhora recolhia as dádivas da
família. Na cintura, um arco feito de arame com um molho de chaves.
Cumprimentos, um cafezinho. Eu procurava não emitir nenhum ruído. Criança
não se mete – sussurrava minha vó, com o dedo nos lábios a indicar
silêncio. Não desobedecia a maioria das vezes, mas sempre os olhos
alongavam-se quando a caixa era aberta. E, neste momento, inevitável uma
exclamação.
Na segunda leva, vem à tona a subida a uma igreja no alto de um morro
próximo a Vila Isabel. Só uma vez por ano, na quermesse em homenagem a
Santo Antônio. Subida pra valer. Mais que o Convento no Largo da Carioca.
E lá ia toda a turma, a caráter, comer pipoca, algodão doce, brincar de
pescaria, saborear um pãozinho abençoado e rezar pra conseguir namorado. E
foi preciso muita reza.
Na terceira leva, vem à tona as conversas com a vó em seu quarto. Ela na
cadeira de balanço, eu sentada ao lado, toda ouvidos, aguardando histórias
e explicações. Devota, dera o nome de Fernando ao seu único filho. Porque
ele assim se chamava antes de se ordenar sacerdote. E pedia-lhe bênçãos
diárias para criar o pequeno órfão na retidão de costumes. Deu certo por
um lado, era digno. Por outro, deu o avesso, dizia ela. Namorador, causara
muita preocupação. Não entendia bem, uma vez que o Santo era famoso nesta
área...
Na quarta leva, vem à tona Lisboa. O cheiro de manjericão por toda cidade
anunciando o dia festivo ao Santo Padroeiro. Os namorados comprando vasos
pequeninos com o tempero para oferecer às amadas ou pretendentes. Frente à
igreja de Santo Antônio, no bairro Alfama, um restaurante com seu nome.
Pedimos arroz com leite. Polvilhado de canela em forma de auréolas.
Inesquecível sabor, meu amor.
(02 de fevereiro/2008)
CooJornal
no 566
Sonia Alcalde,
escritora, poetisa
Autora do livro "Estações do Eu", entre outros.
Bagé, RS
alcalde@alternet.com.br
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