Sonia
Alcalde
VULCANO ESTÁ TRABALHANDO NO TUNGURAHUA |
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Os sentimentos ficam diferentes quando conhecemos nossa cidade, outras
cidades, nosso povo, outros povos. O sentimento de pertencer à Terra se
agiganta a medida que sinto o rumor e o amor dos residentes.
Não faz tanto tempo que visitei o Equador. A época era festiva, casamento
de
uma sobrinha-neta. Foi o motivo da viagem, mas aproveitei (avec) para
desfrutar também a avenida dos vulcões. Que não é uma avenida propriamente
dita, e sim o caminho margeado por eles, na Cordilheira dos Andes.
Soberbas sentinelas com chapéus brancos que impressionam e encantam os
visitantes. Só a eles? Não, os moradores se alimentam da beleza que deles
emana. Marcam presença nos suvenires, no artesanato indígena... Vibram por
eles que lhes devolvem em solo fértil ao redor, possibilitando
sobrevivência, progresso e prazer, fora os momentos das erupções. A Terra
ainda está viva.
Era setembro de 2006. O vulcão Tungurahua, ou “garganta de fogo” no idioma
nativo quechua, tinha acabado de se manifestar. Num ciclo desde 1999, com
períodos de calma e turbulência, conforme seu histórico. Ainda vimos casas
cobertas de camada de cinza de 3cm, e os habitantes trabalhando com a
permissão de Mama, como eles o chamam. Resquícios de fumaça preta turvavam
a região.
Final de 2007. Mama está braba, outra vez. Exasperada, nos seus 5029 m de
altura, cospe cascalho e rochas mil metros acima do nível de sua boca,
lança jato de lava de mais de 8km. Suas cinzas agora chegam até Quito, a
capital do Equador, 135 km ao sul. Os parentes de lá tranqüilizaram, mas
lembrei-me dos estudantes em algazarra na província de Tungurahua,
orgulhosos de seu vulcão estampado no muro da escola. Estarão a salvo?

Estudantes da região do Tuhgurahua
Além da erupção vulcânica, neste mês ocorreram também três terremotos de
até 4,2 graus de magnitude na região de Mama. Segundo o Instituto
Geofísico do Equador, se deveram a movimentos na placa tectônica e nada
tem a ver com a atividade de Tungurahua. Há quem diga o contrário, uma
coisa leva a outra.
Atualmente, as notícias chegam logo. Na antiguidade, o vulcão era a
chaminé da forja de Vulcano, o deus do fogo, o ferreiro dos deuses
romanos. Ali construía os raios para Júpiter, deus dos deuses, e as armas
para Marte, deus das guerras. Os olhares em sua direção deviam acontecer
envoltos pelo medo, respeito quando começava a trabalhar. Ainda acontece.

Cratera do vulcão Cotopáxi
Dormi sob o olhar das sentinelas da Cordilheira dos Andes, admirei-as na
sua majestade e quietude ao amanhecer. De cada vulcão guardo lembranças,
saudades ativas da visão que tive deles: debaixo e de cima. No retorno ao
Brasil, registrei a imensa cratera do Cotopáxi, mano do Tungurahua. Com
5.897 metros de altura, tem silhueta semelhante à do monte Fuji, o
cartão-postal japonês. Espero voltar e encontrá-los. E encontrar meus
irmãos da Terra na terra Equador.

No Lago Cuicocha, cratera do vulcão Cotacachi. Perto de
Otavalo, um centro de artesanato indígena.
Numa erupção, a boca do vulcão partiu, encheu a cratera
de água pela neve derretida do pico. A parte sólida caiu no meio
formando uma grande ilha.
Pode-se navegar no lago, sendo um nativo o marinheiro.
Em certos trechos, dá pra ver borbulhos na água, sinal que "ele" está
vivo, não acordado. Não há peixes no Lago.
(16 de fevereiro/2008)
CooJornal
no 568