16/02/2008
Número - 568


ARQUIVO
SONIA ALCALDE

- O carnaval continua lindo
- O poder de uma
grande concha

 

Sonia Alcalde




VULCANO ESTÁ TRABALHANDO NO TUNGURAHUA

Os sentimentos ficam diferentes quando conhecemos nossa cidade, outras cidades, nosso povo, outros povos. O sentimento de pertencer à Terra se agiganta a medida que sinto o rumor e o amor dos residentes.

Não faz tanto tempo que visitei o Equador. A época era festiva, casamento de uma sobrinha-neta. Foi o motivo da viagem, mas aproveitei (avec) para desfrutar também a avenida dos vulcões. Que não é uma avenida propriamente dita, e sim o caminho margeado por eles, na Cordilheira dos Andes. Soberbas sentinelas com chapéus brancos que impressionam e encantam os visitantes. Só a eles? Não, os moradores se alimentam da beleza que deles emana. Marcam presença nos suvenires, no artesanato indígena... Vibram por eles que lhes devolvem em solo fértil ao redor, possibilitando sobrevivência, progresso e prazer, fora os momentos das erupções. A Terra ainda está viva.

Era setembro de 2006. O vulcão Tungurahua, ou “garganta de fogo” no idioma nativo quechua, tinha acabado de se manifestar. Num ciclo desde 1999, com períodos de calma e turbulência, conforme seu histórico. Ainda vimos casas cobertas de camada de cinza de 3cm, e os habitantes trabalhando com a permissão de Mama, como eles o chamam. Resquícios de fumaça preta turvavam a região.

Final de 2007. Mama está braba, outra vez. Exasperada, nos seus 5029 m de altura, cospe cascalho e rochas mil metros acima do nível de sua boca, lança jato de lava de mais de 8km. Suas cinzas agora chegam até Quito, a capital do Equador, 135 km ao sul. Os parentes de lá tranqüilizaram, mas lembrei-me dos estudantes em algazarra na província de Tungurahua, orgulhosos de seu vulcão estampado no muro da escola. Estarão a salvo?

Clique na foto para vê-la ampliada.
Estudantes da região do Tuhgurahua

Além da erupção vulcânica, neste mês ocorreram também três terremotos de até 4,2 graus de magnitude na região de Mama. Segundo o Instituto Geofísico do Equador, se deveram a movimentos na placa tectônica e nada tem a ver com a atividade de Tungurahua. Há quem diga o contrário, uma coisa leva a outra.

Atualmente, as notícias chegam logo. Na antiguidade, o vulcão era a chaminé da forja de Vulcano, o deus do fogo, o ferreiro dos deuses romanos. Ali construía os raios para Júpiter, deus dos deuses, e as armas para Marte, deus das guerras. Os olhares em sua direção deviam acontecer envoltos pelo medo, respeito quando começava a trabalhar. Ainda acontece.

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Cratera do vulcão Cotopáxi

Dormi sob o olhar das sentinelas da Cordilheira dos Andes, admirei-as na sua majestade e quietude ao amanhecer. De cada vulcão guardo lembranças, saudades ativas da visão que tive deles: debaixo e de cima. No retorno ao Brasil, registrei a imensa cratera do Cotopáxi, mano do Tungurahua. Com 5.897 metros de altura, tem silhueta semelhante à do monte Fuji, o cartão-postal japonês. Espero voltar e encontrá-los. E encontrar meus irmãos da Terra na terra Equador.

No Lago Cuicocha, cratera do vulcão Cotacachi. Perto de Otavalo, um centro de artesanato indígena.
Numa erupção, a boca do vulcão partiu, encheu a cratera de água pela neve derretida do pico.  A parte sólida caiu no meio formando uma grande ilha.
Pode-se navegar no lago, sendo um nativo o marinheiro.  Em certos trechos, dá pra ver borbulhos na água, sinal que "ele" está vivo, não acordado. Não há peixes no Lago.




(16 de fevereiro/2008)
CooJornal no 568


Sonia Alcalde,
escritora, poetisa
Autora do livro "Estações do Eu", entre outros.
Bagé, RS
alcalde@alternet.com.br