23/02/2008
Ano 11 - Número 569
SONIA ALCALDE
ARQUIVO
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Sonia
Alcalde
DE URGÊNCIAS E ABOBRINHAS |
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Urgência.
A sirene anuncia situação de limite. Limite da vida. O mundo fica tão
pequeno... Rostos se aproximam. Anjos? Alternativa “b”: estou num quadro,
emoldurado. Alternativa “c”: estou num quarto. Minha mão sente outra mais
quente, recebe carícias, que bom. Vou de “c”. A solidão acabou, não parti.
Não me querem ainda por lá. Talvez tenha algo mais a fazer por aqui. Bate
coração, bate sem machucar, assim nos entendemos melhor. Xô medo, quero
chamego.
Urgência. O relógio, no alto da parede, piscando pra mim. Não é tic-tac,
mas perturba um monte. São 12 horas. Meio-dia ou meia-noite? Como é que
tudo aconteceu? Estava num intervalo de reunião, agilizando — este é um
termo que adoro. Não perco tempo nem durante os intervalos. Num velório já
fiz abordagem que rendeu bons dividendos. Meus projetos, meus projetos...
Mesmo outras pessoas fazendo parte dos projetos, considero-os “filhos
meus”. Comprometida até debaixo d’água, estou me afogando com tanto
comprometimento, agilização...
Levantei-me mais cedo. Tanta coisa por fazer... O sol está meio
preguiçoso, não quer aparecer ou está em férias?! Quem sabe deixo tudo e
vou à procura do sol. Iluminado, estirado numa praia, resplandecente na
areia, brilhando na água. Todo mundo dormindo ou trabalhando e ele
aproveitando a vida. Dá uma inveja... O vento varre meus sentimentos, uma
chuvinha miúda me arrepia, me faz voltar do vôo matinal. Que trabalho é
esse que não me deixa ficar na cama, quentinha com meus sonhos? Boto na
balança a ansiedade de um lado e as tarefas do outro. Volto pra cama, pro
meu vizinho de cama. O que ainda não fiz vai ter que esperar um pouquinho,
só um pouquinho.
Deixo-me ficar de papo pro ar, pensando em abobrinhas, borboletas,
bem-te-vis, sempre-vivas, margaridas. Pétalas ao sabor do vento. Onde
podem parar? Só Deus sabe. Essa coisa louca de estar no mundo e não estar.
Nada me assegura até quando vou estar. Suspiro. Tenho que ter o meu tempo,
fazer o meu tempo, ainda que às vezes o tempo dos outros me peça algum
tempo. Gosto de trocar. Trocados, rebuscados papos ou simplesmente olhar.
Meu tempo no compasso dos outros, para aprender outros tempos, outros
passos... Mas preciso de um tempo só meu, como agora...
(23 de fevereiro/2008)
CooJornal no 569
Sonia Alcalde,
escritora, poetisa
Autora do livro "Estações do Eu", entre outros.
Bagé, RS
alcalde@alternet.com.br
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