01/03/2008
Ano 11 - Número 570
SONIA ALCALDE
ARQUIVO
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Sonia
Alcalde
A ventura do olhar |
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O menino ao
lado do pai carroceiro. Seu olhar pousou em mim. Segundos. Como a dizer-me
que adorava aquele pai que trabalhava para terem o que comer, ainda que
não fosse mesa farta, mas o suficiente para dormir de barriga sem roncar.
Tive a sensação de ter visto outros olhos assim. Percorri a vida.
Achei-os, os meus. No Jardim Zoológico. Estranho, não?! Meu pai era um
homem bom, trabalhador, com um salário irrisório. Estava sempre procurando
algum biscate que pudesse aumentar seus ganhos. Encontrou no Zoo, de
bilheteiro. Adorava acompanhá-lo ao biscate. Sentia orgulho de meu pai
dentro da casinha recebendo dinheiro. Tudo isso é pro senhor? Não,
querida. Paizinho está fazendo um biscate. Uma parte vou receber no fim do
dia. Passaremos, então, na padaria do seu Bragança para comprar a broinha
que você tanto gosta. Com essa promessa alimentando meus sonhos de
criança, corria para ver o pavão que abria seu leque multicor. Ui, ele
está vindo pra perto de mim. Olha, trouxe um pedacinho de pão pra você.
Vou jogar, viu? Papai não quer que eu dê na sua boca, você pode me bicar,
danado.
Até que um dia melhorou o salário e não precisava mais ficar na casinha.
Então, podíamos passear juntos no Zoológico. Olharmos o pavão, os
flamingos... Rir das macaquices, tremer de medo diante da jaula do tigre
de bengala. Ficar bem perto de papai e disfarçar o temor perguntando
porque ele era chamado de tigre de bengala se não usava bengala. A
resposta não era importante, ficar perto dele valia por tudo.
Outros olhos surgem diante de mim, os da prima Quininha. Quanta ternura
naqueles olhos diante de seu pai. Ele surgiu na porta com um pacote de
bolacha. Ávida, Quininha recebeu o pacote com uma das mãos enquanto a
outra enlaçava o pescoço do pai e beijava-o. Comeu uma bolacha diante
dele. Como é gostosa, papai! Em seguida, mostrou-lhe seu caderno de
desenho. Quando ele foi embora, o pacote de bolacha permaneceu num
cantinho. A tia pegou-o e ofereceu à Quininha. Não, tia, não estou com
vontade. O dia passou, o pacote continuou esquecido. Mas foi seu pai quem
trouxe... Quininha saiu de perto sem nada dizer. A tia serviu-se de uma
bolacha, não conseguiu comer, era tão dura... Nos olhos da tia as lágrimas
balançaram. Na hora de dormir, junto à Quininha, a tia fez com que ela
rezasse por seu pai e sua mãezinha que estava muito doente. Que Deus
estava cuidando deles, que tudo ia melhorar e eles estariam juntos outra
vez.
(01 de março/2008)
CooJornal no 570
Sonia Alcalde,
escritora, poetisa
Autora do livro "Estações do Eu", entre outros.
Bagé, RS
alcalde@alternet.com.br
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