15/03/2008
Ano 11 - Número 572



SONIA ALCALDE
ARQUIVO


 

Sonia Alcalde




UM TEMPÃO 

Eu queria ter a vez do beija-flor que aparece no meu jardim quando saio de casa bem cedo. Só quando saio bem cedo. Talvez ele queira mostrar a delícia do néctar regado a orvalho. Talvez pra me alertar que o tempo é aquele que minha vó ainda diz nas minhas lembranças: o tempo perguntou ao tempo quanto tempo tem o tempo... 

Qualquer manhã, acordo bem cedo e deixo de sair pra ficar bicando nas flores... Ufa, as plantas crescem e nem tenho tempo de olhar pra elas. Já vi muitas pessoas conversar com as plantas, minha mãe é uma delas. Não sei que tipo de conversa têm, são sussurros ao pé do ouvido, chamegos de água com fundo musical, ou qualquer coisa parecida. Gosto também de chamego ou coisa parecida, esqueço de tudo quando o carinho chega perto de mim. É, vó, o tempo respondeu ao tempo que o tempo tem tanto tempo. . . 

Numa dessas manhãs, não tive tempo de enxergar o beija-flor, ia viajar, estava apurada. Durante a viagem, uma criança, de mais ou menos 4 anos, bicava a vizinha de banco com perguntas variadas. Que imaginação, pensei, até sobre a cor dos cabelos da mulher - amarelo, e o cabelo do menino - azul!! Peguei no sono, acordei com meu ronco. Ela ainda estava lá no meio da curiosidade da criança, que ria, que achava bom o gosto da água mineral, depois se aninhou no colo da mulher e os cabelos amarelos, longos, iluminaram os dois. 

No final daquela viagem, fiquei sabendo que a criança era cega e eu nem tinha percebido. A mulher de cabelo amarelo passou a viagem vendo e eu... Só com tempo poderá saber quanto tempo tem o tempo..

Mais de meia-noite, a noite criança lembra a criança, o beija-flor e meu tempo. Que fazer dele sem minha vó, sem meu jardim, sem lembranças? Preciso enxergar mais, epa, sentir mais, muito mais. . . 
    


(15 de março/2008)
CooJornal no 572

 


Sonia Alcalde,
escritora, poetisa
Autora do livro "Estações do Eu", entre outros.
Bagé, RS
alcalde@alternet.com.br