22/03/2008
Ano 11 - Número 573



SONIA ALCALDE
ARQUIVO


 

Sonia Alcalde




A poesia nas pipas de Khaled Hosseini

Há um ano, dentro de um hospital, li “O Caçador de Pipas”, do afegão Khaled Hosseini. No intervalo das visitas médicas e de enfermagem, escutava vozes infantis saindo do papel em momentos de lirismo e outros sofridos, sem poder fugir de seres incorporados de irracionalidade. Do horror atravessando o tempo e estacionando em diversos lugares... Do amor latente aguardando oportunidade de se manifestar. Há um ano.

Indo a Porto Alegre para comemorar o Dia Internacional da Mulher com Natália, neta, 1 ano, a mais nova representante feminina da família, vi o filme baseado neste livro, com roteiro de David Benioff e direção de Marc Forster. Ainda que não contenha toda dramaticidade da obra, não poupam o cuidado em reproduzir os diálogos profundos sobre fidelidade, amizade e respeito. Em resgatar a dor da saudade pressentida ao deixar a pátria, levando um pouco da terra amada − a terra tem um cheiro caseiro que impregna os sentidos da alma.

A imagem quase nos congela quando o protagonista retorna aos lugares da infância, procura lembranças e as vê destruídas pela ambição, corrupção de costumes, pela embriaguez do poder. Crianças órfãs, mutiladas. A mulher oculta pela burkha sendo apedrejada juntando-se às “Mulheres de Cabul”, livro de Harriet Logan. Quantas esquecidas, sofridas, estarão por lá, por aqui, em qualquer dia internacional da mulher? No cenário de guerras para justificar a paz.

Na tela, a dor emergindo ao constatar a fabilidade humana naqueles que se têm como íntegros. E quem é perfeito? Mas perceber também que tem um momento que não dá mais para retardar a coragem de se enfrentar. “O Caçador de Pipas” foi o jeito de Khaled Hosseini denunciar os conflitos humanos desde a infância. David Benioff e Marc Forster deram um jeito de sentirmos o livro na tela, condensado, mas igualmente forte. E as pipas como pano de fundo, folhas ao vento, presas às varetas da vida...

O filme encanta como o livro. Sem truques digitais, com criterioso trabalho desde os atores (75% de Cabul) e a preservação do idioma. A voz da criança citando versos em dari, no escuro, junto ao pai, em fuga do terror que se estabelecia no país... A poesia é Arte que liberta as palavras, eterniza o coração dos povos na magia das palavras.
    


(22 de março/2008)
CooJornal no 573

 


Sonia Alcalde,
escritora, poetisa
Autora do livro "Estações do Eu", entre outros.
Bagé, RS
alcalde@alternet.com.br