29/03/2008
Ano 11 - Número 574



SONIA ALCALDE
ARQUIVO


 

Sonia Alcalde




Quem dá mais pela saúde?

 


Não é novidade contar que tenho costume de ir a Porto Alegre. Natália, neta, me chama. Pelo menos uma vez por mês. Para atualizar-me, tour de cinema ou teatro. Gosto da magia dos ambientes. A família se admira – 5 horas de viagem?! Faço tranqüila, o percurso Bagé-Porto Alegre é encantador. Muitas vezes paro, tiro fotos, prolongo este prazer combinando viagem-almoço- entrada em Cachoeira do Sul para abraçar uma amiga.

Já andei contando sobre um dos últimos filmes que vi em Porto Alegre– “O Caçador de Pipas”, uma prosa poética visualizada de alta qualidade, de amor, pesadelo e esperança. Na mesma época, aproveitei para assistir outro gênero – o documentário “Sicko – S.O.S Saúde”, de Michael Moore, que é diretor e aparece todo tempo.

Michael Moore é um homem polêmico que já conquistou diversos prêmios em documentários anteriores – “Tiros em Columbine” (sobre a indústria de armas, 2002) e “Fahrenheit- 11 de setembro” (2004). Em Sicko prossegue com sua linha denunciatória, desta vez sobre o grave quadro da saúde pública nos Estados Unidos.

Moore destaca a década de 70 como referência desta reviravolta quando criaram o sistema de seguradoras de saúde. Desde então, mostra o desamparo assistencial de quem só tem o serviço de saúde pública - 47 milhões de pessoas. Até voluntários que trabalharam no resgate às vítimas do 11 de setembro não escaparam desta estatística.

Mostra também que mesmo aqueles que são usuários de seguradoras têm altos riscos de ficarem sem cobertura quando ocorrem patologias que implicam em maiores gastos. Michael Moore apresenta pessoas com pedidos de assistência negados, tendo que gastar tudo o que tinham para poderem fazer os tratamentos indicados. O cineasta não teve dificuldades para encontrar essas pessoas. Lançou a questão na internet e acessos ininterruptos aconteceram contando suas mazelas em contratos particulares e junto ao serviço público.

Michael Moore não se detém ao seu país, atravessa fronteira e vai em busca de outros modelos de saúde pública: o canadense, o cubano, o francês e o inglês. A tônica encontrada é qualquer atendimento sem ônus para o cliente e um mínimo quanto a compra de medicamentos. Entra na vida familiar dos profissionais do serviço público e os vê sem estresse. Não acredito que as informações sejam 100% corretas, há notícias sobre insatisfações. Mas, de um modo geral, a realidade é bem diferente do modelo americano.

Pesquisa razões porque não dá certo a saúde pública nos Estados Unidos e em outros lugares sim. Se na Inglaterra, por exemplo, conseguem bons resultados, como foi este caminho? Encontra dados que durante a 2ª Guerra Mundial, Londres e cercanias eram bombardeadas incessantemente. Viveram o caos, como se tivessem todos os dias um 11 de setembro. Daí viram a necessidade de organização, espírito de solidariedade e competência no atendimento à saúde. Começaram um novo sistema. Com outras características, os demais países visitados mostraram igualmente decisão política, responsabilidade do estado.

Michael Moore remexe o fundo da lata de lixo que se tornou a assistência à saúde em seu país. Vale a pena assistir! Não faz referência ao Brasil, mas o nosso cotidiano preocupa. As estatísticas podem parecer distantes, quase ficção, quando não somos um dos números, quando não sentimos dor, quando não esperamos nas filas por um atendimento.

    


(29 de março/2008)
CooJornal no 574

 


Sonia Alcalde,
escritora, poetisa
Autora do livro "Estações do Eu", entre outros.
Bagé, RS
alcalde@alternet.com.br